"Estimado senhor meu pai. Espero que esta vos encontre gozando da mais perfeita saúde bem como a todos os nossos familiares em Portugal. Seja-me permitido, senhor, prestar a vossência relatório acerca da importante missão que a mim foi por vós confiada: encontrar, neste país chamado Brasil, onde resido, um lugar onde pudésseis instalar um entreposto comercial, aplicando assim os recursos que nossa família auferiu no bem-sucedido comércio das especiarias. Destarte, dirigi-me ao lugar conhecido como São Paulo de Piratininga, que, segundo informações por mim obtidas, preencheria as condições requeridas por vós, a primeira das quais era evitar o trópico, por vós considerado região insalubre, de gente preguiçosa, indolente. O dito lugar, ao contrário, teria ares frios e temperados; seria uma terra mui sadia, fresca e de boas águas, situada entre dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú. De Recife, onde resido, tomei um navio, e depois em lombo de mula, subi até o planalto, onde fica São Paulo de Piratininga. Quando lá cheguei, a 25 de janeiro do ano da graça de 1704, invadiu-me o desânimo.
É um lugarejo, meu pai. Um pequeno triângulo limitado por conventos: o de São Francisco, o de São Bento, o do Carmo.Tem foros de Vila, tem pelourinho, é considerada a principal localidade da capitania, mas vivem ali 5.000, 6.000 pessoas quando muito, a maioria índios e mamelucos. Muitos nem sabem falar português. Moram em casas de taipa, cobertas de sapé. Cultivam pequenas roças de milho, feijão e mandioca, da qual fazem a chamada farinha-de-pau; o solo não é da melhor qualidade. A vila fica longe do litoral, e, do ponto de vista de comércio, está completamente isolada. Para obter ganhos, são obrigados a sair dali; assim, organizam bandeiras, expedições que percorrem longuíssimas distâncias para aprisionar índios e procurar ouro e pedras preciosas. Ouro e pedras preciosas, que eu saiba, não encontram; um dos bandeirantes morreu pensando que tinha descoberto esmeraldas, e eram apenas pedras verdes. Quanto aos índios, são maus escravos.
Hospedei-me numa pousada suja e sem conforto e, tendo em mente vossa ponderação, segundo a qual o passado de um lugar dá preciosas indicações sobre seu futuro, saí a inquirir sobre a história de São Paulo de Piratininga, sobre figuras ancestrais que pudessem servir de orientação e exemplo, assim como os patriarcas de nossa família a vós serviram de modelo.
Falaram-me do padre José de Anchieta, guia espiritual e poeta. Indaguei acerca de sua poesia. Disseram que dela pouco sabiam, mas mencionaram um detalhe que consideravam interessante: por falta de papel e tinta, Anchieta escrevia na areia da praia; à medida que o fazia, as ondas iam apagando os versos. O que considerei insólito, para dizer pouco.
Todo poeta quer divulgar sua obra; quer vê-la impressa, sob a forma de livro, de modo que a vendagem possa proporcionar um retorno financeiro. Escrever na areia é, para mim, um desperdício da energia criadora. Acho que a vós parecerá o mesmo.
Falaram-me de um homem que não quis ser rei. Isso aconteceu, em 1640, quando Portugal libertou-se do jugo da Espanha; a notícia só chegou a Piratininga no ano seguinte, um exemplo da dificuldade de comunicação que se experimenta neste lugar remoto. Mas, quando chegou, provocou verdadeira convulsão: os habitantes decidiram que, a exemplo dos portugueses, também eles se tornariam independentes, governados por um rei: Amador Bueno da Ribeira, homem rico, digno, sábio. Foram à sua casa, pediram que aceitasse ser monarca. Para surpresa geral, Amador recusou e, diante da indignação provocada por sua atitude, teve de fugir daquela gente, refugiando-se no mosteiro de São Bento. Coisa que a mim surpreendeu. Ser rei é o sonho de todos nós, é o sonho que eu sempre alimentei desde a infância, baseado nas histórias contadas por vossência. Mas Amador Bueno da Ribeira não quis ser rei. Faltou-lhe, em meu entender, audácia, coragem, visão, enfim, todas as condições necessárias para quem quer subir na vida. Mas os habitantes deveriam ter escolhido outro rei. Não o fizeram. Por quê? Porque, no meu modesto entendimento, também são tímidos, carentes de arrojo e valentia.
Em suma, não considerei o passado do lugar inspirador. Mas e o futuro? Em busca de resposta para essa pergunta procurei uma mulher conhecida como Maria Adivinha, famosa na vila por acertar suas previsões. Tive de pagar, adiantado, uma boa quantia; e o que ouvi dela convenceu-me apenas de que não passa de uma mentirosa. No escuro aposento, em meio da fumaça de ervas que queimavam, ela fechou os olhos e disse que via ali, em São Paulo de Piratininga, uma gigantesca cidade, povoada por milhões e milhões de pessoas; prédios gigantescos, ruas imensas cheias de veículos que, detalhe inverossímil, deslocavam-se sem tração animal. Seria a maior cidade do Brasil e uma das maiores cidades do mundo, e nós faríamos bem em colocar ali o dinheiro de nossa família.
Constatando minha incredulidade, que logo se transformou em irritação, ofereceu-se para me prestar, por uma soma adicional, outros serviços, estes relacionados ao prazer carnal. Depois da longa viagem, depois de meses sem mulher, eu estava carente, como vós, meu pai, bem podeis imaginar. Fomos, pois, para a cama, e aí chegou ao auge minha frustração e meu desencanto. Porque, embora fosse bela, a Maria Adivinha, embora fosse mulher de amplas cadeiras e seios opulentos e embora o ímpeto dos meus 26 anos garantisse um bom desempenho, eu falhei, meu pai, falhei miseravelmente. Coisa que só posso atribuir aos maus eflúvios da região. Este lugar nunca vai dar certo. E eu, tendo concluído esta missiva, vou-me daqui antes que seja tarde demais, antes que me invada, para todo o sempre, o espírito do fracasso."
Folha de São Paulo (Revista Mais)(São Paulo - SP) em 25/01/2004
Segunda-feira, 24 de Setembro de 2007
Felicidade não se compra. Nem mesmo pela internet
"Sofá de dois lugares, seminovo: produtos como esse podem sair de sua casa e serem vendidos com a ajuda da internet.".
Folha Informática, 23.mar.2005
Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living. Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir a TV até altas horas. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir a TV até altas horas. E, vendo TV, o marido não queria fazer programas, não queria passear, não queria nem conversar. Em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquer preço.
O marido não acreditava. Porque a mulher não tinha jeito para negociar. Não sabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. Se dependesse de sua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living por muitos e muitos anos. De modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando do trabalho, não encontrou o sofá. Vendi, disse a mulher, triunfante. Ele não quis acreditar, achou que fosse brincadeira. Ela explicou: graças à internet, tinha vendido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregar o dinheiro e levar o sofá.
Aquilo deixou-o furioso. Queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nome do comprador. Ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo.
Brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vazio desde que a filha tinha casado. De madrugada, uma idéia lhe ocorreu. Correu a verificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pela compradora, com nome, endereço, telefone.
No dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la com urgência: assunto ligado à compra do sofá. Ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. Ele foi até a casa, num bairro afastado. E ali estava a mulher, ainda jovem, a esperá-lo. No living, diante da TV, o sofá de dois lugares.
Que ele quis comprar de volta. Ela recusou; gostara do sofá, não o venderia. Ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro da quantia que ela havia despendido. Nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acabou desistindo.
Antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela no sofá.
Ninguém, foi a resposta. Divorciada, estava sozinha havia algum tempo. Comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar um companheiro.
Ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. Senta-se ao lado dela para ver TV, coisa que adora. No começo, ela gostava da companhia.
Mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazer programas, não quer passear, não quer nem conversar.
Ela pensa seriamente em vender o sofá. Não é muito hábil nessas coisas, mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema.
Folha de São Paulo (São Paulo) 28/03/2005
Folha Informática, 23.mar.2005
Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living. Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir a TV até altas horas. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir a TV até altas horas. E, vendo TV, o marido não queria fazer programas, não queria passear, não queria nem conversar. Em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquer preço.
O marido não acreditava. Porque a mulher não tinha jeito para negociar. Não sabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. Se dependesse de sua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living por muitos e muitos anos. De modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando do trabalho, não encontrou o sofá. Vendi, disse a mulher, triunfante. Ele não quis acreditar, achou que fosse brincadeira. Ela explicou: graças à internet, tinha vendido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregar o dinheiro e levar o sofá.
Aquilo deixou-o furioso. Queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nome do comprador. Ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo.
Brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vazio desde que a filha tinha casado. De madrugada, uma idéia lhe ocorreu. Correu a verificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pela compradora, com nome, endereço, telefone.
No dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la com urgência: assunto ligado à compra do sofá. Ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. Ele foi até a casa, num bairro afastado. E ali estava a mulher, ainda jovem, a esperá-lo. No living, diante da TV, o sofá de dois lugares.
Que ele quis comprar de volta. Ela recusou; gostara do sofá, não o venderia. Ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro da quantia que ela havia despendido. Nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acabou desistindo.
Antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela no sofá.
Ninguém, foi a resposta. Divorciada, estava sozinha havia algum tempo. Comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar um companheiro.
Ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. Senta-se ao lado dela para ver TV, coisa que adora. No começo, ela gostava da companhia.
Mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazer programas, não quer passear, não quer nem conversar.
Ela pensa seriamente em vender o sofá. Não é muito hábil nessas coisas, mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema.
Folha de São Paulo (São Paulo) 28/03/2005
A volta do filho pródigo
"Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais freqüentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento".Folhateen, 28.mar.2005
Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram freqüentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.
Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como "Filho Pródigo".
Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.
O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:
- Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram.
A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:
- Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.
Fábio não agüentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.
A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.
Folha de São Paulo (São Paulo) 04/04/2005
Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram freqüentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.
Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como "Filho Pródigo".
Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.
O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:
- Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram.
A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:
- Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.
Fábio não agüentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.
A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.
Folha de São Paulo (São Paulo) 04/04/2005
Clocky, o implacável
Despertador se esconde de dorminhoco. Gauri Nanda, estudante do célebre Laboratório de Mídia do Instituto Tecnológico de Massachusetts, USA, inventou um despertador que obriga os dorminhocos a se levantarem para desligá-lo. Concebida para evitar o abuso da função "soneca" dos despertadores pelos preguiçosos, a engenhoca, batizada Clocky, cai no chão e anda. Para desligar o alarme, a pessoa precisa se levantar e procurar o despertador. Graças a um chip, a cada manhã ele vai parar num lugar diferente. (Folha Ciência, 9.abr.2005)Aí está a solução do meu problema, pensou, tão logo ouviu falar no fantástico despertador inventado nos Estados Unidos. Ele era daqueles que sempre querem dormir mais cinco minutos; só que estes cinco minutos facilmente transformavam-se em uma hora. Resultado: estava sempre chegando atrasado ao emprego, o que lhe valera não poucas repreensões do chefe. Mas um despertador que continuasse tocando, e mais, que tivesse de ser procurado, certamente resolveria o seu problema.
Conseguir o Clocky naturalmente não seria fácil, mas, com a ajuda de amigos que estudavam no Instituto Tecnológico de Massachusetts obteve uma cópia do projeto, com a promessa de mantê-lo em segredo. Já confeccionar o despertador não foi difícil: ele era técnico em eletrônica e tinha uma habilidade incrível. Assim, logo tinha em sua mesa de cabeceira a engenhoca.
Que funcionava muito bem. Na verdade, funcionava melhor que o esperado. A cada manhã ele acordava sobressaltado com o alarme e tinha de caçar o Clocky pelo apartamento, que não era grande, mas tinha milhares de esconderijos. Coisa exasperante, mas, ele o reconhecia, necessária: espantava completamente seu sono.
Uma manhã, contudo, Clocky ultrapassou todos os limites. Tocava como um demônio, e ia de peça em peça, seu dono correndo atrás. Finalmente conseguiu encurralar o maldito no pequeno terraço do apartamento, situado no segundo andar. E aí aconteceu o imprevisto; num gesto aparentemente desesperado, Clocky saltou pela amurada.
Lá embaixo a rua estava praticamente deserta. Só havia ali uma moça, aparentemente esperando um táxi. Ele desceu correndo as escadas, ainda de pijama, e dirigiu-se até ela. Ia perguntar pelo Clocky, mas não o fez. Era tão linda, a jovem, que ele esqueceu completamente o despertador e cumprimentou-a amavelmente. Ela sorriu, simpática...
Estão vivendo juntos, no apartamento dela. Mas de vez em quando, enquanto estão fazendo o amor, ele ouve o alarme. É o Clocky, certamente, o implacável Clocky. Escondido, mas ainda por perto.
Folha de São Paulo (São Paulo) 18/04/2005
Conseguir o Clocky naturalmente não seria fácil, mas, com a ajuda de amigos que estudavam no Instituto Tecnológico de Massachusetts obteve uma cópia do projeto, com a promessa de mantê-lo em segredo. Já confeccionar o despertador não foi difícil: ele era técnico em eletrônica e tinha uma habilidade incrível. Assim, logo tinha em sua mesa de cabeceira a engenhoca.
Que funcionava muito bem. Na verdade, funcionava melhor que o esperado. A cada manhã ele acordava sobressaltado com o alarme e tinha de caçar o Clocky pelo apartamento, que não era grande, mas tinha milhares de esconderijos. Coisa exasperante, mas, ele o reconhecia, necessária: espantava completamente seu sono.
Uma manhã, contudo, Clocky ultrapassou todos os limites. Tocava como um demônio, e ia de peça em peça, seu dono correndo atrás. Finalmente conseguiu encurralar o maldito no pequeno terraço do apartamento, situado no segundo andar. E aí aconteceu o imprevisto; num gesto aparentemente desesperado, Clocky saltou pela amurada.
Lá embaixo a rua estava praticamente deserta. Só havia ali uma moça, aparentemente esperando um táxi. Ele desceu correndo as escadas, ainda de pijama, e dirigiu-se até ela. Ia perguntar pelo Clocky, mas não o fez. Era tão linda, a jovem, que ele esqueceu completamente o despertador e cumprimentou-a amavelmente. Ela sorriu, simpática...
Estão vivendo juntos, no apartamento dela. Mas de vez em quando, enquanto estão fazendo o amor, ele ouve o alarme. É o Clocky, certamente, o implacável Clocky. Escondido, mas ainda por perto.
Folha de São Paulo (São Paulo) 18/04/2005
Galopando para o sucesso
Galopando para o sucesso Moacyr Scliar
MEC acha até cavalo como veículo escolar. Levantamento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, ligado ao Ministério da Educação, mostra que até cavalos são usados para levar os alunos às escolas. Folha de São Paulo / Cotidiano, 20.abr.2005A escola era longe, ficava a mais de dez quilômetros da humilde casinha em que morava, mas nem por isso ele deixaria de ir às aulas. Como a mãe, viúva e pobre, costumava dizer, aquela era a única chance que teria de ir para a frente, de progredir na vida.
Além disso, poderia, como outros alunos, contar com o transporte escolar gratuito.
Foi procurar o encarregado e pediu um lugar na Kombi que fazia aquele trajeto. O homem disse que, infelizmente, o veículo já estava lotado. Mas havia uma alternativa:
- Você pode ir a cavalo.
O cavalo era um velho pangaré que atendia pelo nome de Espantoso. O garoto não ficou muito entusiasmado. Como todo morador de área rural, sabia andar a cavalo, mas Espantoso não era exatamente o corcel de seus sonhos. Argumentou que com aquele animal levaria horas para chegar à escola. O homem manteve-se irredutível: é pegar ou largar, disse. Ele acabou aceitando.
No começo foi, realmente, muito difícil. Espantoso andava a passo pela estrada; ele chegava constantemente atrasado às aulas e, pior, sob o deboche dos outros alunos. E aí ocorreu algo inesperado. De repente ele descobriu um jeito de fazer o Espantoso correr. Uma coisa complicada, que envolvia um tipo particular de assobio, e cutucões com os pés na barriga do pangaré, mas que, decididamente, funcionava: o antes lento cavalo passou a voar pela estrada e não raro até ultrapassava a Kombi.
O garoto estava muito contente: não chegava mais atrasado, os colegas não riam mais dele. O que ele não poderia imaginar era que aquilo mudaria sua vida.
Na estrada ele passava sempre pela fazenda Corisco, propriedade de um rico criador de cavalos de corrida. Certa manhã este homem avistou o garoto, galopando velozmente e num grande estilo. Logo se deu conta: ali estava um jóquei nato, capaz de ganhar grandes prêmios em hipódromos. Foi falar com a mãe do menino e se prontificou a encaminhá-lo.
Deu tudo certo. Hoje ele é um excelente jóquei, ganha muitos prêmios. Deixou o colégio, mas pode ser que, um dia, volte a estudar. De momento esta não é a sua prioridade. De momento ele está, segundo suas próprias palavras, galopando para o sucesso.
Folha de São Paulo (São Paulo) 25/04/2005
MEC acha até cavalo como veículo escolar. Levantamento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, ligado ao Ministério da Educação, mostra que até cavalos são usados para levar os alunos às escolas. Folha de São Paulo / Cotidiano, 20.abr.2005A escola era longe, ficava a mais de dez quilômetros da humilde casinha em que morava, mas nem por isso ele deixaria de ir às aulas. Como a mãe, viúva e pobre, costumava dizer, aquela era a única chance que teria de ir para a frente, de progredir na vida.
Além disso, poderia, como outros alunos, contar com o transporte escolar gratuito.
Foi procurar o encarregado e pediu um lugar na Kombi que fazia aquele trajeto. O homem disse que, infelizmente, o veículo já estava lotado. Mas havia uma alternativa:
- Você pode ir a cavalo.
O cavalo era um velho pangaré que atendia pelo nome de Espantoso. O garoto não ficou muito entusiasmado. Como todo morador de área rural, sabia andar a cavalo, mas Espantoso não era exatamente o corcel de seus sonhos. Argumentou que com aquele animal levaria horas para chegar à escola. O homem manteve-se irredutível: é pegar ou largar, disse. Ele acabou aceitando.
No começo foi, realmente, muito difícil. Espantoso andava a passo pela estrada; ele chegava constantemente atrasado às aulas e, pior, sob o deboche dos outros alunos. E aí ocorreu algo inesperado. De repente ele descobriu um jeito de fazer o Espantoso correr. Uma coisa complicada, que envolvia um tipo particular de assobio, e cutucões com os pés na barriga do pangaré, mas que, decididamente, funcionava: o antes lento cavalo passou a voar pela estrada e não raro até ultrapassava a Kombi.
O garoto estava muito contente: não chegava mais atrasado, os colegas não riam mais dele. O que ele não poderia imaginar era que aquilo mudaria sua vida.
Na estrada ele passava sempre pela fazenda Corisco, propriedade de um rico criador de cavalos de corrida. Certa manhã este homem avistou o garoto, galopando velozmente e num grande estilo. Logo se deu conta: ali estava um jóquei nato, capaz de ganhar grandes prêmios em hipódromos. Foi falar com a mãe do menino e se prontificou a encaminhá-lo.
Deu tudo certo. Hoje ele é um excelente jóquei, ganha muitos prêmios. Deixou o colégio, mas pode ser que, um dia, volte a estudar. De momento esta não é a sua prioridade. De momento ele está, segundo suas próprias palavras, galopando para o sucesso.
Folha de São Paulo (São Paulo) 25/04/2005
Câmeras e traição
As câmeras de segurança podem ajudar a polícia e proteger propriedades, mas também podem fazer as pessoas se sentirem violadas e incomodadas. Folha Informática, 27.abr.2005
Não era exatamente um trabalho muito excitante: ele supervisionava o funcionamento de cerca de 20 câmeras de segurança espalhadas numa área da cidade muito sujeita a assaltos (bancos, lojas elegantes). Sua tarefa era certificar-se de que as câmeras estavam captando e gravando adequadamente imagens que, eventualmente, poderiam servir de prova contra criminosos e delinqüentes.
A mulher, jovem e ambiciosa, achava esse trabalho um lixo. Como o marido ganhava pouco, tinham de morar num apartamento minúsculo e andar de ônibus, quando o sonho dela era ter uma mansão cheia de criados e desfilar pela cidade num carrão importado. Se isto não acontecia, era só por causa dele. "Você é um incompetente", dizia. "Você nunca serviu para coisa alguma, seus amigos de infância hoje são ricos executivos, enquanto você fica aí fazendo esse trabalho de voyeur."
Ele optava por ignorar as sarcásticas observações, mesmo porque tinha certeza de que, um dia, seu trabalho seria reconhecido. Um dia ocorreria um assalto espetacular a um dos bancos ou a uma das lojas. Ele identificaria os bandidos, seu nome apareceria nos jornais. E aí a mulher finalmente teria de admitir seu erro. Mas, enquanto isso, sucediam-se os bate-bocas e uma noite, irritado, ele acabou batendo nela. "Vou me vingar", ela prometeu, enxugando o sangue que corria do lábio partido.
Um mês depois um dos bancos vigiados pelas câmeras foi assaltado. De madrugada os ladrões entraram por uma loja ao lado e, muito profissionais, arrombaram o cofre, levando todo o dinheiro. Pela manhã ele foi chamado com urgência pelo chefe: precisava examinar as gravações feitas pelas câmeras. Certamente os bandidos apareciam ali.
Sem demora começou a trabalhar e, de fato, uma das câmeras captara o momento em que os criminosos, três, saíam do banco, carregando as sacolas com dinheiro. Mas seria difícil identificá-los: todos estavam com capuzes na cabeça. Que droga, ele resmungou, enquanto observava aquilo, mas então sentiu um baque no coração: junto com os assaltantes, havia uma mulher. Esta não usava capuz. Ao contrário, olhava fixamente para a câmera, sorrindo ironicamente. Ele imediatamente a reconheceu. Não tinha como não reconhecê-la: era sua mulher.
Deletou as imagens. Ao chefe, disse que algum problema acontecera com a câmera, e que nada fora registrado. A tecnologia é assim: quando menos se espera, ela nos trai.
Folha de São Paulo (São Paulo) 02/05/2005
Não era exatamente um trabalho muito excitante: ele supervisionava o funcionamento de cerca de 20 câmeras de segurança espalhadas numa área da cidade muito sujeita a assaltos (bancos, lojas elegantes). Sua tarefa era certificar-se de que as câmeras estavam captando e gravando adequadamente imagens que, eventualmente, poderiam servir de prova contra criminosos e delinqüentes.
A mulher, jovem e ambiciosa, achava esse trabalho um lixo. Como o marido ganhava pouco, tinham de morar num apartamento minúsculo e andar de ônibus, quando o sonho dela era ter uma mansão cheia de criados e desfilar pela cidade num carrão importado. Se isto não acontecia, era só por causa dele. "Você é um incompetente", dizia. "Você nunca serviu para coisa alguma, seus amigos de infância hoje são ricos executivos, enquanto você fica aí fazendo esse trabalho de voyeur."
Ele optava por ignorar as sarcásticas observações, mesmo porque tinha certeza de que, um dia, seu trabalho seria reconhecido. Um dia ocorreria um assalto espetacular a um dos bancos ou a uma das lojas. Ele identificaria os bandidos, seu nome apareceria nos jornais. E aí a mulher finalmente teria de admitir seu erro. Mas, enquanto isso, sucediam-se os bate-bocas e uma noite, irritado, ele acabou batendo nela. "Vou me vingar", ela prometeu, enxugando o sangue que corria do lábio partido.
Um mês depois um dos bancos vigiados pelas câmeras foi assaltado. De madrugada os ladrões entraram por uma loja ao lado e, muito profissionais, arrombaram o cofre, levando todo o dinheiro. Pela manhã ele foi chamado com urgência pelo chefe: precisava examinar as gravações feitas pelas câmeras. Certamente os bandidos apareciam ali.
Sem demora começou a trabalhar e, de fato, uma das câmeras captara o momento em que os criminosos, três, saíam do banco, carregando as sacolas com dinheiro. Mas seria difícil identificá-los: todos estavam com capuzes na cabeça. Que droga, ele resmungou, enquanto observava aquilo, mas então sentiu um baque no coração: junto com os assaltantes, havia uma mulher. Esta não usava capuz. Ao contrário, olhava fixamente para a câmera, sorrindo ironicamente. Ele imediatamente a reconheceu. Não tinha como não reconhecê-la: era sua mulher.
Deletou as imagens. Ao chefe, disse que algum problema acontecera com a câmera, e que nada fora registrado. A tecnologia é assim: quando menos se espera, ela nos trai.
Folha de São Paulo (São Paulo) 02/05/2005
Acidentes acontecem
Severino volta a chamar estupro de "acidente". Folha de São Paulo / Brasil, 4.mai.2005
"Acidentes acontecem, senhor juiz. Todo mundo sabe disso, especialmente o senhor, que é um homem culto, experiente, vivido. Acidentes acontecem, e acontecem especialmente comigo, que sou um homem muito azarado. Azarado, mas boa pessoa, esteja certo disso. Esta acusação que estão me fazendo, e que me trouxe a este tribunal, esta acusação, senhor juiz, não tem fundamento algum, tudo não passou de um acidente. Vou lhe contar como foi.Eu estava passeando pelo campo, senhor juiz. Sou um tipo romântico, gosto da natureza e gosto sobretudo de passear pelo campo. Então eu estava passeando pelo campo e cheguei ao rio, aquele rio muito bonito que tem lá, perto da minha propriedade. Ia caminhando pela beira desse rio, escorreguei e caí na água. Acidentes acontecem, senhor juiz. Caí na água e saí dali todo molhado, como costuma acontecer às pessoas que caem na água. Agora: eu sou muito sujeito a gripes, a resfriados. Portanto não podia ficar com aquelas roupas encharcadas, correndo o risco de ficar doente. O que fazer?
Não pensei duas vezes: tirei a roupa. Toda a roupa. Afinal, não havia ninguém ali por perto e, de mais a mais, não são poucas as pessoas que gostam de passear sem roupa -é só ir num acampamento de nudistas para constatá-lo. Tirei a roupa, coloquei numa árvore para secar e continuei caminhando.
De repente aconteceu aquela coisa perturbadora. Eu tive uma ereção, senhor juiz. Porque tive a ereção, não sei lhe explicar. Talvez o ventinho... Não sei. Mas só pode ser acidente. Sou um homem recatado e não costumo ter ereções nessas circunstâncias. Acidente, portanto. Acidentes acontecem.
Continuei a caminhar, nu e agora já no mato. Umas centenas de metros mais adiante, dei com a moça, essa mesma moça que me faz certas injustas acusações. Ela estava deitada, adormecida e suava muito. Concluí que estava com calor e, com pena da coitada, comecei a lhe tirar a roupa. Ela protestava, dizia que não era necessário, mas eu sou muito prestimoso e despi-a completamente. Quando terminei, já ia embora, mas então tropecei e caí. Um acidente, lógico. Acidentes acontecem, o senhor sabe. Caí e caí de cara em cima da moça. Ainda bem, porque se tivesse caído no chão poderia até ter me machucado feio. Esses acidentes às vezes têm conseqüências sérias, o senhor sabe. Continuando: caí em cima da moça. Agora, ela nua, eu nu... Tinha de acontecer o que aconteceu, o senhor não acha? Mas creia-me, senhor juiz: no fundo, no fundo, tudo não passou de acidente. Acidentes acontecem, o senhor sabe."
Folha de São Paulo (São Paulo) 09/05/2005
"Acidentes acontecem, senhor juiz. Todo mundo sabe disso, especialmente o senhor, que é um homem culto, experiente, vivido. Acidentes acontecem, e acontecem especialmente comigo, que sou um homem muito azarado. Azarado, mas boa pessoa, esteja certo disso. Esta acusação que estão me fazendo, e que me trouxe a este tribunal, esta acusação, senhor juiz, não tem fundamento algum, tudo não passou de um acidente. Vou lhe contar como foi.Eu estava passeando pelo campo, senhor juiz. Sou um tipo romântico, gosto da natureza e gosto sobretudo de passear pelo campo. Então eu estava passeando pelo campo e cheguei ao rio, aquele rio muito bonito que tem lá, perto da minha propriedade. Ia caminhando pela beira desse rio, escorreguei e caí na água. Acidentes acontecem, senhor juiz. Caí na água e saí dali todo molhado, como costuma acontecer às pessoas que caem na água. Agora: eu sou muito sujeito a gripes, a resfriados. Portanto não podia ficar com aquelas roupas encharcadas, correndo o risco de ficar doente. O que fazer?
Não pensei duas vezes: tirei a roupa. Toda a roupa. Afinal, não havia ninguém ali por perto e, de mais a mais, não são poucas as pessoas que gostam de passear sem roupa -é só ir num acampamento de nudistas para constatá-lo. Tirei a roupa, coloquei numa árvore para secar e continuei caminhando.
De repente aconteceu aquela coisa perturbadora. Eu tive uma ereção, senhor juiz. Porque tive a ereção, não sei lhe explicar. Talvez o ventinho... Não sei. Mas só pode ser acidente. Sou um homem recatado e não costumo ter ereções nessas circunstâncias. Acidente, portanto. Acidentes acontecem.
Continuei a caminhar, nu e agora já no mato. Umas centenas de metros mais adiante, dei com a moça, essa mesma moça que me faz certas injustas acusações. Ela estava deitada, adormecida e suava muito. Concluí que estava com calor e, com pena da coitada, comecei a lhe tirar a roupa. Ela protestava, dizia que não era necessário, mas eu sou muito prestimoso e despi-a completamente. Quando terminei, já ia embora, mas então tropecei e caí. Um acidente, lógico. Acidentes acontecem, o senhor sabe. Caí e caí de cara em cima da moça. Ainda bem, porque se tivesse caído no chão poderia até ter me machucado feio. Esses acidentes às vezes têm conseqüências sérias, o senhor sabe. Continuando: caí em cima da moça. Agora, ela nua, eu nu... Tinha de acontecer o que aconteceu, o senhor não acha? Mas creia-me, senhor juiz: no fundo, no fundo, tudo não passou de acidente. Acidentes acontecem, o senhor sabe."
Folha de São Paulo (São Paulo) 09/05/2005
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