domingo, 9 de janeiro de 2011

MOACYR SCLIAR - A síndrome do ninho vazio

MOACYR SCLIAR - A síndrome do ninho vazio – ou a glória dos múltiplos ninhos?
Convenhamos, a independência dos filhos é, ao fim e ao cabo, um triunfo para os pais

Ano-Novo, vida nova, é um dito clássico. Que, contudo, raramente se traduz em mudança real. Na maioria das vezes, continuamos levando nossas vidas, mantendo nossas rotinas, postergando nossos projetos revolucionários. Mas toda regra tem exceção, e o Beto Scliar é disso um exemplo: ele começou 2011 no seu próprio apartamento, por ele muito bem instalado e decorado. Mais do que isso, e ao menos para seus orgulhosos pais e para a Ana, está se revelando um grande dono de casa. Ou seja, é um marco em sua bela trajetória pessoal e profissional.

Em algum momento os filhos têm de sair do reduto paterno-materno. A época para isso varia de acordo com as culturas, com as famílias. Nos Estados Unidos, a independência tradicionalmente ocorre no momento em que o jovem vai para o college, que mais ou menos equivale à nossa universidade. A regra é que isso se faça com mudança de cidade (quanto mais distante melhor), e a partir daí o rapaz ou a moça terão de tomar conta de si mesmos.

Na classe média brasileira, a coisa sempre foi mais flexível, e essa flexibilidade aumentou na medida em que cresceu a expectativa de vida e na medida em que a independência, cada vez mais dependente do diploma, do mestrado, do doutorado, foi sendo adiada. Uma adolescência prolongada, portanto, mas não infinita (ou, parafraseando Vinicius, infinita enquanto dura). De qualquer modo, a ideia da família extensa, que até era um costume no período colonial (entre os ricos ao menos) foi ficando coisa do passado.

Claro, é uma mudança, e toda a mudança tem suas implicações. Amigos nos perguntaram, e com razão, se já estamos com a síndrome do ninho vazio. A expressão, provavelmente de origem americana (“empty nest syndrome”) é muito conhecida; remete a quase 200 mil referências no Google, a dezenas de artigos que analisam esta situação. Os autores apontam algumas vantagens (o refrigerador não é mais saqueado pelo filho e pelos amigos, a mãe não tem mais que arrumar quartos que parecem um cenário de guerra, a casa fica mais silenciosa), mas reconhecem que esta ordem, esta limpeza, este silêncio podem ter o seu lado melancólico. E aí sucedem-se os conselhos tipo autoajuda, que incluem até indicações de terapia.

Será que é para tanto? Convenhamos, a independência dos filhos é, ao fim e ao cabo, um triunfo para os pais. O ninho poderá ficar um tanto vazio, mas a verdade é que outro ninho surge, não raro vários deles. São casas que acolhem os pais, são lugares que lhe proporcionam surpresas. É a nossa superfície de contato com o mundo que se expande, e isso sempre é consolador.

Não é de admirar, pois, que repetidos estudos realizados a respeito (nos Estados Unidos, obviamente; onde mais?) mostrem que o índice de felicidade conjugal, avaliado através de indicadores, melhora quando os ninhos ficam múltiplos, e quando o casal pode, de certa forma, se redescobrir.

Voar É com os Pássaros era o título de um antigo e clássico filme. Não, voar não é só com os pássaros. Nós também voamos, seja nos aviões (quando os voos não são cancelados), seja através de nossa imaginação. Cada ninho, onde quer que esteja, é uma base para os sonhos. Entre eles, claro, o sonho de nossa própria casa.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Clube da Cultura - Melissa Berny

De olhos ávidos e sonhadores Airan Milititsky Aguiar, vice-presidente do Clube de Cultura, numa conversa informal discorre sobre esse clube que muitos nem sabem da existência.
Eu como professora e tentando preservar e repassar uma história bonita penso ser uma injustiça para com os fundadores a sociedade gaucha ainda não conhecer este lugar.
Devemos conhecer sua história, pois além de ser um dos poucos lugares a cultuar as artes foi palco de diversos acontecimentos e manteve-se forte diante dos percalços.
O Clube de Cultura é interessantíssimo, é bem localizado e oferece uma ótima programação para pessoas que buscam cultura.  Infelizmente passa por dificuldades para manter-se ativo, principalmente por necessitar de divulgação e com isso trazer mais freqüentadores. A diretoria está buscando uma inserção na mídia e como o clube não tem uma equipe especializada nisto e só conta com ajuda de voluntários o trabalho fica complicado algumas vezes. E quem faz quase toda parte de divulgação é o próprio presidente Hans Baumann, membro do clube há mais de 55 anos, praticamente desde o inicio.
E esse inicio aconteceu em 30 de maio de 1950, a data de fundação do clube, que tinha por finalidade ser um espaço incentivador da literatura, das danças, das humanidades e um lugar onde houvesse uma integração da comunidade judaica com a sociedade gaúcha. Tanto que a iniciativa foi de ativistas político-culturais, judeus não sionistas.
Na Rua Ramiro Barcelos foi alugada uma casa onde aconteceram algumas atividades. Logo depois resolveram comprar o terreno e transformá-lo numa nova sede onde teriam auditórios e salas para diversos usos, por questões financeiras transformaram-na em condomínio sendo uma parte dele a sede atual do Clube de Cultura.
As atividades eram basicamente o teatro e atividades sociais como encontros, circulo de leitura, palestras e exposições. No auditório do novo clube foi realizado apresentações em Iídiche de marca popular. O clube em 1961 comemorou seu aniversário com Elis Regina.
O clube tinha um coral próprio, regido inicialmente por Esther Scliar e depois por Helena Wainberg, que se apresentou em inúmeros festivais pelo estado com suas músicas eruditas, populares e iídiches. Entre essas, se destacava o Hino Partisans, cantado no ato comemorativo do Levante de Varsóvia.
A identidade do Clube de Cultura vai sendo reformulada com o passar dos anos. Na década de 60 o clube abre as portas a todos, formando um novo grupo de teatro, esse encenou a “Prostituta Respeitosa” de Sartre.E ainda funcionou a Frente Gaúcha de Música Popular que lançou vários nomes, entre eles Raul Ellwanger junto com Cezar Dorfman. Em 64 aconteciam os espetáculos de bossa e nesse ano começou a se tornar perigoso frequentar o clube, depois do golpe militar todas as entidades sofrem uma forte repressão, o clube fechou suas portas por dias e diversos sócios deixaram de frequentar e alguns nem queriam seus nomes vinculados a ele. Depois disso o clube passa a ter outra dinâmica, a juventude e os grupos alternativos passam a usá-lo como sede, e o clube ficou marcado como o lugar onde a esquerda de Porto Alegre se reunia.
Logo após o golpe, a diretoria manifestou interesse em dar vida à obra de Qorpo Santo, o espetáculo foi apresentado em 1966 com direção de Antonio Carlos Sena. Já nos anos 70 foi organizadas oficinas de cinema com Gerbase e Furtado. Os anos 80 ficaram marcados pela Coompor, que era uma cooperativa de músicos, com o projeto Lupicínio canta Lupi e também foram influídos por Caio Fernando Abreu e Luciano Albarse, que montavam os textos do Caio no auditório Henrique Scliar. Henrique Scliar é bastante citado nas crônicas do Moacyr Scliar e foi homenageado em vida com seu nome dado ao auditório que ajudou a construir.
Depoimento do Moacyr Scliar sobre o Clube: O Clube de Cultura foi um marco importante na história da comunidade judaica de Porto Alegre, e na própria história da cidade e do Estado. Era uma entidade "progressista", quer dizer, seus membros eram simpatizantes do Partido Comunista, gente que via na arte e na cultura fatores de transformação social. Daí porque o Clube tinha um amplo programa de atividades: palestras, apresentações teatrais, exposições... No meu caso, a ligação tinha um componente afetivo muito forte: durante anos a figura chave no Clube foi meu tio, Henrique Scliar, pai do pintor Carlos Scliar e do fotógrafo Salomão Scliar. Tio Henrique era um homem de extraordinária cultura e dedicação: quando da construção do Clube muitas vezes ele trabalhou lado a lado com os operários. O fim do sonho comunista foi um golpe para a instituição. Mas o sonho que ela representava permanece vivo.
O Clube de Cultura sai do circuito cultural nos anos 90 e atualmente é frequentado por jovens de pré-vestibular em razão as palestras oferecidas. A presença Judaica no clube hoje é quase rara porque o clube foi afastando-se da comunidade e o vinculo que ele tinha se dava por uma cultura judaica que foi morrendo.
A democratização da cultura continua sendo aquele ideal iluminista “quanto mais o povo ter acesso a cultura menos ele será manipulado”. E a grande premissa não é ser um espaço de mero consumo, mas um espaço de produção cultural.
A cidade precisa investir em cultura de qualidade e em lugares deste tipo que a oferecem. O fortalecimento do Clube de Cultura é deveras importante.
Quer se associar? Simples, vá até o clube que fica na Rua Ramiro Barcelos 1853, e se torne sócio! A mensalidade fica em torno dos 20 reais e dá direito ao associado frequentar as atividades promovidas pelo clube livremente e tem descontos nas promovidas na sede por outras entidades
Quer saber mais? Dê uma olhada no blog clubedecultura.blogspot.com/
Quer saber sobre atividades? Mande um email clubedecultura@gmail.com  
O importante é frequentá-lo e manter viva essa história!
Agradecimento ao Clube de Cultura por abrir suas portas e ao Airan por me conceder à entrevista.

Melissa Berny

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Do Bom Fim a Praga, Paris e de volta ao Bom Fim

Do Bom Fim a Praga, Paris e de volta ao Bom Fim

por Moacyr Scliar -- Publicado em 05/11/2010 14:11



Do Bom Fim a Praga, a Paris de volta ao Bom Fim 

O Escritor Moacyr Scliar, membro da Academia Brasileira de Letras, acaba de retornar de uma maratona literária internacional.

 

"Vocês não imaginam o que é disputado o mercado francês. São centenas de lançamentos semanais e pouco espaço nas livrarias para expor tudo. Só fica na vitrine o que é muito importante." Ivan Pinheiro Machado, L&PM Editores

 

No início de outubro último a Clínica Literária noticiou com exclusividade que o escritor estaria viajando para Praga, a convite da Embaixada do Brasil e da Universidade Carolina de Praga (a mais antiga da Europa Central, fundada em 1348) para a palestra "Kafka na Liteturatura Brasileira" (influência do escritor Tcheco Franz Kafka na literatura brasileira) a ser realizada em 11 de outubro de 2010. A palestra de Scliar foi parte da sequência de eventos comemorativos da Embaixada do Brasil em Praga por ocasião dos 188 anos da Independência do Brasil.

 

A missão diplomática brasileira convidou professores e alunos dos cursos superiores de  língua portuguesa e espanhola na República Tcheca (além da própria Universidade Carolina, da Universidade Palacky, cidade Olomouc , da Universidade Hradec Králové, da cidade de mesmo nome, da Universidade Masaryk, da cidade de Brno, e da Universidade de Economia de Praga), como também diretores dos institutos Camões e Cervantes, além de integrantes do Corpo Diplomático Ibero-Americano.

 

De Praga, Scliar viajou para Paris, para o lançamento de seu mais recente livro La Guerre de Bom Fim, e então para Lyon, como palestrante da jornada de literatura latino-americana tradicionalmente conhecida como "Belles Latinas". De volta ao Bom Fim, bairro tradicional de Porto Alegre, a tempo de prestigiar a maior Feira do Livro a céu aberto das Américas, Scliar atualiza a Clínica Literária com seu depoimento sobre, bem..., melhor entregar a pena ao próprio (publicado na Zero Hora em 19/10/2010):

 

De volta a Praga

Moacyr Scliar

 

Estive em Praga pela primeira vez em 1978. Ia em busca da cidade de Franz Kafka, e cidade de Franz Kafka Praga era, sombria como a literatura do grande escritor. Era inverno; a temperatura era de dezessete graus negativos, o sol nunca aparecia. E era o auge do estalinismo; o clima emocional correspondia ao clima meteorológico: pessoas tristes, caladas, ruas escuras, mal-iluminadas. 

 

Nas lojas, pouca coisa para comprar; as prateleiras estavam vazias. O que, contudo, correspondia a uma certa lógica, como me explicou um livreiro que parecia sincero em seu  comunismo. Numa economia planificada, argumentava,  destinada a atender exclusivamente às necessidades da população, não poderia haver artigos sobrando. De qualquer modo aquilo parecia, ao menos para quem estava acostumado à economia de mercado, ao neon da publicidade e às ofertas de produtos diversos, algo estranho, para dizer o mínimo.

 

 

Submarino.com.br
 

Esta estranheza chegou ao auge quando, no embarque para a viagem de volta, o segurança do aeroporto deteve-me e revistou minuciosamente minha mala. Por que o fazia? Se eu estivesse entrando no país, poderia estar trazendo contrabando; mas eu estava saindo, o que importava ao homem minha bagagem? De repente, dei-me conta; ele estava em busca de material subversivo, aquilo que à época era conhecido pelo termo russo de “samizdat”, livros e folhetos contra o regime, que eu poderia estar contrabandeando para o mundo capitalista. Felizmente eu não tinha nenhum “samizdat”, o que teria representado um sério problema.

Na semana passada voltei a Praga, a convite da Universidade Carolina, a mais antiga da Europa Oriental. Tratava-se de um evento promovido por nossa embaixadora na República Tcheca, a dinâmica Leda Lucia Camargo, aliás gaúcha de Porto Alegre. Dei uma palestra sobre Kafka, a América Latina e o Brasil, para um público formado de professores e alunos de literatura brasileira. Visitamos a cidade, minha mulher e eu. De novo foi uma surpresa, desta vez agradável. Para começar os dias eram amenos, ensolarados. E Praga é uma cidade vibrante, que preserva seu passado histórico e artístico, mas está voltada para o futuro.

 

A quantidade de atrações culturais é incrível. No passado, Kafka era um escritor semi-marginalizado pelo regime; agora é uma presença constante – existe inclusive um Museu Kafka, que reconstitui a trajetória desse grande escritor, que morreu cedo, sem ter sua obra reconhecida. Um homem esmagado pelo conflito com o pai, um homem que jamais conseguiu manter uma relação estável com mulheres e que, ao perecer vitimado pela tuberculose, pediu ao amigo Max Brod que destruísse seus originais (coisa que Brod felizmente não fez). Se Kafka fosse nosso contemporâneo, talvez tivesse tido um destino diferente; no divã do psicanalista (em sua época Freud estava ainda no começo da carreira) poderia ter compreendido melhor os seus problemas.

 

A pergunta, obviamente ociosa, é se não teria produzido então outro tipo de literatura, menos deprimente mas também menos genial. Uma literatura, digamos, mais 2010 e menos 1978. Não temos como responder a esta questão. A história das pessoas, como a história da humanidade, às vezes toma rumos inesperados. E isso, que pode ser não raro angustiante, representa o desafio do qual, no caso de Kafka, resultou uma grande literatura. Sombria, como é o clima psicológico sob o autoritarismo, mas mesmo assim grande.

 
 

Mais um Scliar com sotaque francês
quarta-feira, 27 outubro 2010, pulbicado por Ivan Pinheiro Machado, o PM da L&PM Editores, uma das casas do autor

 
No charmoso Boulevard Saint Germain ainda restam duas grandes livrarias tipo aquelas de antigamente; “La Hune” e, 20 metros depois, “L’Ecume des Pages”, ambas no próprio boulevard, quase esquina com rue Saint Benoit. Entre elas, fica o “Flore”, onde Sartre lia os jornais todos os dias pela manhã e à noite Picasso desfilava com suas incontáveis namoradas.

 

Pois bem. Estas livrarias resistem bravamente ao excesso de glamourização do bairro, tomado por Giorgio Armanis, Louis Vuittons, Ralph Laurens que foram comprando os pequenos negócios e transformando em grandes lojas fashions. É o caso da célebre livraria “Le Divan”, na esquina de Guillaume Apollinaire com Rue Bonaparte, a uma centena de metros do boulevard. Há poucos anos capitulou diante de uma oferta irrecusável de ninguém menos do que a Dior.

 



 

Mas estou escrevendo tudo isto para dizer que Moacyr Scliar teve seu livro “A Guerra do Bom Fim” (editado no Brasil pela L&PM) publicado na França pela Éditions Folies d’Encre, traduzida por Philippe Poncet. Vocês não imaginam o que é disputado o mercado francês. São centenas de lançamentos semanais e pouco espaço nas livrarias para expor tudo. Só fica na vitrine o que é muito importante. Pois eu estive tanto na “La Hune” como na “L’Ecume des pages”. E “La Guerre de Bom Fim” estava orgulhosamente nas duas vitrines. Ambos merecem esta honraria; o livro, porque é maravilhoso, e o doutor Scliar porque, além de ser um grande escritor é um cara muito legal. (IPM)

A leitura como aventura e paixão

A leitura como aventura e paixãoCarta na Escola5 de novembro de 2010 às 16:36hO professor nunca deve proibir um livro. Mesmo que a obra seja ruim ou inadequada, a missão do educador é fazer o aluno entender os motivos dissoPor Moacyr ScliarO romance de Ray Brad-bury, Fahrenheit 451, publicado em 1953, fala-nos de  um futuro em que opiniões pessoais e o pensamento crítico são considerados coisas perigosas e no qual  todos os livros são proibidos e queimados: o número 451 do título refere-se à temperatura (em graus Fahrenheit) na qual o papel pega fogo. Trata-se, obviamente de ficção, mas houve momentos em que essa ficção expressou a realidade. A censura acompanhou como um sombrio espectro boa parte da história da humanidade. O próprio termo “censor”, que é latino, data do século quinto antes de Cristo, quando o Império Romano delegou a funcionários a tarefa de moldar o caráter das pessoas. Mas não só em Roma acontecia isso; na Grécia clássica, em 399 a.C., o filósofo Sócrates foi condenado à morte por difundir entre jovens ideias consideradas perigosas. Desde então, não foram poucos os regimes totalitários que prenderam ou mataram aqueles que ousavam contestá-los.A partir da invenção da imprensa, por Johannes Gutenberg, no século XV, o livro impresso passou a ser um alvo preferencial nesse processo. Já em 1559, a Igreja estabelecia o Index Librorum Prohibitorum, a lista de livros que os fiéis não podiam ler, e que teve mais de 20 edições, antes de ser definitivamente suprimida em 1966. As autoridades civis exerciam poder semelhante; em 1563, o rei Carlos IX, da França, baixou decreto estabelecendo que nenhuma obra podia ser impressa sem permissão do rei. Nos séculos que se seguiram, e sob várias formas e pretextos, livros foram proibidos e até queimados, como aconteceu na Alemanha nazista. Os motivos, ou pretextos, eram de várias ordens: morais, políticos, militares. Nos Estados Unidos, em vários lugares e por várias instituições, foram censurados livros como Chapeuzinho Vermelho (numa das versões a menina oferece vinho para a sua avó), Alice no País das Maravilhas (os animais falam com linguagem humana), a coleção Harry Potter (supostamente promove bruxaria). Numa época, direções de escolas no Rio Grande do Sul proibiram os livros de Erico Verissimo, porque achavam ser imorais.No Brasil, tivemos um período de censura severa, quando do regime autoritário (1964-1985). As razões apresentadas não raro beiravam o ridículo; numa exposição de “material subversivo” apreendido em Porto Alegre, havia um livro com a seguinte legenda: “Obra esquerdista em chinês”. Era uma Bíblia em hebraico. Mais recentemente, e nas escolas, surgiram problemas com livros que narravam cenas de sexo e de violência, às vezes selecionados por técnicos da área educacional. Por outro lado, sabemos que a disseminação da pornografia e da violência é cada vez mais frequente. E isso sem falar na questão do politicamente correto, que procura evitar palavras ou expressões potencialmente ofensivas a grupos étnicos ou religiosos, ou a opções sexuais.  Pergunta: o que devem fazer os pais e educadores diante dessa situação?Creio que uma expressão consagrada pela saúde pública aqui se aplica perfeitamente: é melhor prevenir do que remediar. E isso por uma simples razão: é tão grande o volume de informações atualmente disseminadas, não só por livros, mas também pela internet, por vídeos, pela própria tevê, que é impossível evitar o acesso de crianças e jovens a esse material. O melhor é prepará-los para que possam identificar os potenciais riscos que estão ocorrendo. Mas há um aspecto adicional. Esses riscos não são como os do fumo ou das drogas, substâncias sempre nocivas, e que, em qualquer dose, envenenam o organismo. O material veiculado pelos meios de comunicação pode se transformar numa fonte de aprendizado. É como vacinar uma pessoa: ela é inoculada com germes inativos e seu organismo preparará anticorpos que vão defender essa pessoa de doenças. Isso exige um estreitamento dos laços entre pais e professores, de um lado, e os jovens de outro. No caso da tevê, por exemplo, é muito bom que o pai ou a mãe sente ao lado da criança e converse com ela sobre o que aparece na tela. Também é muito bom que os pais leiam para os filhos quando esses ainda são pequenos. Isso, além de introduzir a criança ao mundo dos livros, representará um vínculo emocional que persistirá por toda a vida. O menino e a menina associarão o livro à imagem protetora do pai ou da mãe.Em relação à escola, vale o mesmo raciocínio. Quando um jovem me pergunta que livros deve ler, respondo: “Em primeiro lugar, aqueles que os professores indicam; eles conhecem o assunto, eles têm condições de fazer boas recomendações”. Mas nunca digo que o jovem não deve ler tal ou qual obra, tal ou qual autor. Meu aprendizado como leitor passou por livros que depois considerei tolos ou ruins. Mas isso foi útil para que eu pudesse aprender a formar o meu juízo crítico. Na leitura, a gente avança pelo método de tentativa e erro, de aproximações sucessivas.Em resumo, proibir ou censurar, não. Recomendar, debater, ensinar, sim. Vivemos num mundo cheio de imperfeições e perigos, e o que podemos fazer com nossos filhos e alunos é ensiná-los a navegar por esse mar turbulento, em navios cujas velas são as páginas da grande literatura. Ler é aventura, ler é paixão.

domingo, 24 de outubro de 2010

O nome da vaca

Moacyr Scliar

No Ig Nobel, uma espécie de "Oscar" dos trabalhos científicos mais esdrúxulos do ano, foram premiados, na categoria de medicina veterinária, Catherine Douglas e Peter Rowlinson (Universidade de Newcastle, Reino Unido), por mostrarem que vacas que têm nome dão mais leite do que as que não têm.

Os dois eram irmãos, os dois viviam no campo, os dois tinham tambos de vacas leiteiras. Não com o mesmo êxito, porém.

O tambo do irmão mais velho, Arnulfo, era muito bem-sucedido; produzia cerca de quatro a cinco vezes mais leite que o tambo do irmão menor, Miguel. E isso deixava Miguel frustrado e irritado. Simplesmente não conseguia identificar a razão dessa diferença.

As vacas de ambos os tambos eram da mesma raça, recebiam a mesma ração, os mesmos cuidados, eram assistidas pelo mesmo veterinário. Na hora da ordenha, contudo, as vacas de Miguel davam uma quantidade insignificante de leite. Em busca de uma solução, ele consultou outros criadores, numerosos veterinários e até adivinhos, sempre sem resultado.

Mas Miguel era um homem atento, informado. Estava sempre atrás de novidades no ramo leiteiro. Foi assim que leu, na internet, a notícia de um trabalho inglês mostrando um fato surpreendente: vacas que têm nome dão mais leite que vacas anônimas.

Miguel ficou boquiaberto. Dava-se conta de uma diferença fundamental entre as vacas de seu irmão e as dele. As vacas de Arnulfo todas tinham nomes, e nomes carinhosos: Mimosa, Princesa, Brejeira, Boneca. Nomes ternos, engraçados, nomes que faziam Miguel debochar do mano: para mim você anda tendo casos com suas vaquinhas.

Agora, porém, percebia seu erro, subestimando a psicologia animal. Um erro que corrigiu em seguida: no mesmo dia batizou todas as vacas, usando nomes de antigas namoradas (várias, felizmente). O resultado foi fantástico. Tal como sugerira o trabalho, a produção de leite aumentou astronomicamente.

Uma das vacas revelou-se particularmente produtiva. Na verdade, dava tanto leite que sua fama não tardou a espalhar-se. Se você vendê-la, vai ganhar uma fortuna, sugeriu Arnulfo. E Miguel de fato começou a pensar na possibilidade. Um dia de manhã, contudo, aconteceu algo inesperado. Ele foi ao tambo, e, como de costume, saudou as vacas pelo nome: bom dia, Silvana; bom dia, Daisy...

Mas quando chegou na campeã, constatou, perturbado, que esquecera o nome dela. E não houve jeito de lembrar, nem naquele dia, nem nos dias seguintes.

Resultado: a vaca não deu mais leite. Em vão, Miguel tentou usar outro nome; não, pelo jeito, ela queria mesmo o original.

Que ele não consegue lembrar. Lembra, sim, a moça de mesmo nome que havia namorado anos antes, em outra cidade, e que desde então perdera de vista. Namoro curto, porque a garota era muito chata; mas, quando ele anunciou o fim da ligação, ela fez uma ameaça que se revelou profética: um dia, disse, você vai pagar por ter me desprezado.

E agora ele está pagando. Se pudesse, iria em busca da garota. Mas precisaria recordar-lhe o nome. O que está fora de seu alcance: o enigma do nome é o misterioso enigma da vida, que se manifesta em humanos e em vacas. Nos primeiros, pela capacidade de dar nomes; nas vacas, pela produção de leite.

sábado, 25 de setembro de 2010

Trinta anos sem Vinicius de Moraes

Moacyr Scliar: Trinta anos sem Vinicius de Moraes

Como poeta, não teria meios de ganhar a vida, mas cedo descobriu que poderia colocar seu talento na música

MOACYR SCLIAR
Esta sexta-feira, 9 de julho, assinala um melancólico aniversário: há 30 anos morria Vinicius de Moraes, uma das figuras mais marcantes da cultura brasileira, um talentoso poeta (ou poetinha, como, modestamente, se denominava) e compositor. Carioca, Vinicius teve uma vida movimentada e sob muitos aspectos pitoresca. Era, para começar, um boêmio inveterado, apreciador do uísque, e grande conquistador: casou-se nada menos que nove vezes e teve inúmeros casos. Viveu numa época de grande agitação política, mas sua atuação nessa área foi, às vezes, desconcertante: começou como integralista, a versão cabocla do fascismo europeu, que enganou a ele e a muitos outros: Dom Hélder Câmara, Santiago Dantas, Adonias Filho, José Lins do Rego. Depois tornou-se um esquerdista, mas moderado. De profissão, era diplomata, mas, de novo, não muito atuante; o porteiro de uma das embaixadas onde atuou resumia assim o seu expediente: De manhã não trabalha, de tarde não vem. Em vez de servir no Uruguai, para onde estava designado, ficou no Rio, apresentando-se em botecos, o que deu ensejo à ditadura para cassá-lo. Como poeta, Vinicius certamente não teria meios de ganhar a vida; mas cedo descobriu que poderia colocar seu talento na música, tornando-se parceiro de grande compositores: Toquinho, Baden Powell, João Gilberto, Chico Buarque e Carlos Lyra e, sobretudo, Tom Jobim, com quem compôs Se Todos Fossem Iguais A Você, A Felicidade, Chega de Saudade, Eu Sei Que Vou Te Amar, Insensatez, e, claro, Garota de Ipanema.
Ninguém duvida de que esta canção é um símbolo do Brasil. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos lista-a entre as 50 principais obras musicais de todos os tempos, e é conhecida em todo o mundo, inclusive pela famosa gravação com Frank Sinatra. Para isso concorreram vários fatores. Em primeiro lugar, o ano em que foi composta, 1962, marcou o auge da bossa nova, importante movimento musical. Depois, era Rio de Janeiro, cidade que deixara de ser capital, mas que continuava sendo o centro artístico e cultural do país. Aliás, Garota de Ipanema tem muitas afinidades com o vibrante Cidade Maravilhosa, da qual é o lado lírico, brejeiro. Porém, mais que Rio, era Ipanema, o bairro mais sofisticado do país, o equivalente brasileiro do Village em Nova York, da Rive Gauche em Paris, de Bloomsbury em Londres. E mais que Ipanema era a garota, a beleza brasileira celebrada de maneira eloquente. Foi inspirada em Helô Pinheiro, uma bela moça que, a caminho da praia, costumava passar pelo Bar Veloso (hoje Bar Garota de Ipanema), onde Vinicius e Tom Jobim faziam ponto.
A letra inicial, logo abandonada, era um tanto depressiva e não muito brilhante: Vinha cansado de tudo/ De tantos caminhos/ Tão sem poesia/ Tão sem passarinhos/ Com medo da vida/ Com medo de amar... E aí, a grande ideia: em vez de queixumes, de lamentos, a vibrante celebração: Olha que coisa mais linda mais cheia de graça/ É ela a menina que vem e que passa/ Num doce balanço a caminho do mar/ Moça de corpo dourado do sol de Ipanema/ O seu balançado é mais que um poema/ É a coisa mais linda que eu já vi passar...
Helô Pinheiro deixou de ser garota, e procurou outros caminhos, que não o do mar. Casou (mais de uma vez), tornou-se apresentadora de tevê, empresária e dona de uma cadeia de lojas chamada, claro, Garota de Ipanema - a expressão também figura em destaque em seu blog. Ah, sim, e continua uma bela mulher.
Sua história enseja uma curiosa questão: serão platônicas as grandes paixões? Será que nascem, não na cama, mas na mesa de um bar, brotando do coração de alguém a olhar uma menina que vem e que passa, num doce balanço, a caminho do mar? Uma indagação que o grande Vinicius deixou sem resposta.
DONNA ZH

A velhice maquiada

Moacyr Scliar: A velhice maquiada

Livro lançado nos Estados Unidos ensina aos idosos como não parecer idosos

MOACYR SCLIAR
O chamado abismo entre gerações só fez se aprofundar nas últimas décadas, em primeiro lugar porque as pessoas estão vivendo mais, o que aumenta a proporção de idosos na população, e depois porque a tecnologia, que não para de avançar, substituiu aquela tradicional sabedoria que tornava os velhos pessoas respeitáveis. A velhice perdeu muito de seu prestígio; mostra-o um livro recentemente aparecido nos Estados Unidos que tem como objetivo exatamente isso: ensinar aos idosos como não parecer idosos.
Intitula-se How Not to Act Old (Como não Agir à Moda dos Velhos, em livre tradução). É obra da jornalista e escritora Pamela Redmond Satran (este sobrenome lembra Satan, e acho que não por acaso, como já veremos). Trata-se de uma ampliação do website hownottoactold.com, pelo jeito muito popular. E suas considerações não se restringem a roupas, dieta, botox e cirurgia plástica; envolvem o estilo de viver e a maneira de falar.
São dezenas de conselhos, alguns primando pela obviedade. Cuidado com a gíria, diz Ms. Satran, e de fato todo mundo sabe que o uso de gíria antiga é sinal de velhice. Quem usa a expressão azar fresquinho? E saindo um pouco da gíria, quem chama táxi de carro de praça, senão os mais antigos? Se você for convidada para um casamento, não mande fazer vestido novo. Não chore na hora da cerimônia. Para os homens: não fique bêbado. Se vai viajar, não fique ansioso, não chegue no aeroporto três horas antes. Não prepare uma bagagem de quem está emigrando.
Mas Satran vai mais além. Ela também sugere os assuntos sobre os quais se deve e não se deve falar. Menopausa, por exemplo, é assunto tabu. Doença também é. Idosos estão proibidos de falar sobre suas mazelas (diabetes, pressão alta) e sobre a quantidade de medicamentos que estão tomando, um tema aliás, preferencial. Mais: devem evitar conselhos, tipo "vai chover, leve o guarda-chuva".
Até aí ainda dá para aceitar. Mas há um outro assunto tabu: os netos. A dúvida inevitavelmente emerge: o que farão os avós corujas, que são praticamente todos os avós? Como conseguirão reprimir a vontade de contar a última do netinho ou da netinha, de mostrar as fotos, coisa que, aliás, ficou frequente, agora que todo o mundo têm cameras digitais?
Mas o livro chega ao clímax quando Sartran formula o seu conselho maior: "Não morra". Logo em seguida, porém, dá-se conta do absurdo - nem os membros da Academia Brasileira de Letras acreditam na imortalidade – e emenda: "Mas, se você morrer, escolha morrer como jovem, não como velho". Exemplo de morte jovem: perecer num desastre de moto. É uma coisa tristemente frequente, como a gente constata pelo noticiário, mas será que alguma pessoa, jovem ou idosa, deveria morrer assim?
O pior, porém, é o exemplo que a escritora dá de uma morte de velho: alguém que tem um enfarte fazendo sexo com uma mulher daquelas chamadas de "vida fácil" (espero que esta gíria ainda seja atual). Sartran vê isso como uma coisa vergonhosa e em muitos casos certamente é, mas, convenhamos, é algo que mostra um apego à existência, uma verdadeira celebração do instinto vital, que, sendo instinto, escapa à classificações moralistas.
Ao final do livro, a gente fica se perguntando: valem a pena todas essas precauções? Será que não é melhor assumir a idade que a gente tem, e que, apesar de tudo, traduz uma verdade? Será que os idosos terão de fingir para serem aceitos pelos mais jovens? Se a resposta for afirmativa, não podemos escapar à conclusão de que a autenticidade passou para um segundo plano. E isso não é uma boa. Que pessoas de idade aprendam a usar o computador, que façam esporte, que cuidem da aparência, que aprendam a andar de moto, tudo bem. Mas que renunciem à sua própria vida, à sua identidade, essa não. Os livros de autoajuda têm de arranjar um assunto melhor. Como diz a resenha do jornal Independent, a autora esqueceu só uma coisa: não existe nada mais velho do que ficar se preocupando em como evitar a aparência de velhice.
DONNA ZH