segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A dança das cadeiras

A presidência da Câmara Municipal de Serra, no Espírito Santo, fez uma compra de material inusitado para os vereadores da Casa. São 17 poltronas de couro, anatômicas, reclináveis, dotadas de controle remoto que ativa um sistema eletrônico de massagem nas costas e na nuca. Foram gastos R$ 62.900. Folha Cotidiano, 21 de março de 2006.
A aquisição das 17 confortáveis poltronas provocou, como era de esperar, muita controvérsia no país. Por causa disso um grupo de cientistas resolveu testar a possível correlação entre as referidas poltronas e o desempenho dos parlamentares que nelas eventualmente tomassem assento. Cinco ex-vereadores dispuseram-se voluntariamente para servir como cobaias para a experiência. Como disse um deles: "Sempre tive costas largas, agora está na hora de massageá-las um pouco".
O objetivo dos cientistas era avaliar a produtividade dos ex-edis quando sentados nas cadeiras. Esta produtividade, por sua vez, seria expressa pelo número de projetos de leis formulados durante as várias fases do teste.
Os resultados foram surpreendentes. Verificou-se que o número de projetos de lei crescia na proporção direta da velocidade da vibração massageadora; ou, como observou espirituosamente um dos cientistas, quanto mais vibração, mais os ex-vereadores vibravam. Vibravam e tinham idéias. Um deles chegou a formular nada menos que oito projetos de lei em apenas 15 minutos de massagem com alta freqüência.
Surgia então um efeito paradoxal. A certa altura, indivíduos testados caíam no sono, dois ou três roncando sonoramente. Não chegava a ser um efeito inesperado; afinal, uma das coisas que acontecem para quem senta em poltrona confortável é exatamente isso, um sono profundo e reparador. Mas havia um detalhe curioso. Ao despertar, os voluntários relatavam que haviam sonhado. E o sonho era notavelmente igual: todos eles viam-se de volta à Câmara de Vereadores, ganhando polpudos salários e contando com a entusiástica aprovação dos eleitores.
Mas havia uma exceção. Um dos vereadores, o mais velho deles, chegou à conclusão de que a poltrona, embora perfeita, não era compatível com a função parlamentar. Afinal, disse, vereadores são pagos não para receber massagens ou para sonhar, mas para trabalhar. E para isto, argumentava, talvez seja melhor uma cadeira dura do que uma poltrona macia.
Os outros não estavam de acordo com tal idéia. E lembraram que o ex-vereador estava, na verdade, falando de barriga cheia: recentemente tinha casado de novo, com uma mulher muito mais jovem do que ele, uma conhecida massagista. Ou seja: o homem tinha massagem a domicílio. Não precisava de poltronas especiais para isto, podia contar com mãos suaves e macias.
Enfim, os ex-vereadores apoiaram totalmente a compra das poltronas. Um deles disse que, se fosse eleito, seu primeiro projeto de lei teria por objeto exatamente isso, a aquisição de poltronas similares. A democracia precisa de bases confortáveis.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/03/2006

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