segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Falemos de feios famosos

Em época de Copa do Mundo, só se fala em futebol, visto inclusive pelos aspectos mais inusitados. Entrem, por exemplo, no site www.uglyfootballers.com e vocês encontrarão uma seleção dos jogadores mais feios do mundo. Ali estão, por exemplo, Carlos Valderrama, da Colômbia, e Diego Maradona, da Argentina. O Brasil está representado por dois craques: Sócrates (que nisto equivale a seu homônimo filósofo; ver mais adiante) e Ronaldo Nazário. Agora, a pergunta: mesmo que Maradona e Ronaldo sejam feios (e muitas mulheres discordarão disso) será que o detalhe tem importância?
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Provavelmente não. "As muito feias que me perdoem/ mas a beleza é fundamental", proclamou Vinicius de Moraes, que, no entanto, não escreveu nenhum poema dedicado aos feios, ou aos muito feios. Homem, aparentemente, não precisa ser bonito, homem, continua este raciocínio que não deixa de ter um componente machista, compensa uma aparência desagradável com inteligência, com energia, com iniciativa. De qualquer modo, porém, a história registra alguns personagens que ficaram conhecidos pela feiúra. O primeiro deles é o filósofo Sócrates. "Conhece-te a ti mesmo", dizia ele, mas isto certamente não incluía olhar-se no espelho, o que, no caso desse homem, certamente não seria uma coisa muito agradável. Um outro filósofo, este contemporâneo, que também ficou conhecido pela feiúra, foi Jean-Paul Sartre. Isto não impediu que ele conquistasse Simone de Beauvoir e várias outras fãs do existencialismo.
Na ficção, e sobretudo na ficção francesa, aparecem alguns personagens que se celebrizaram pela aparência desagradável. O primeiro deles é, naturalmente, o corcunda de Notre Dame. Quando a história de Quasímodo foi transposta para a tela pela primeira vez, vivida pelo grande ator Charles Laughton, foi necessária uma verdadeira façanha de maquiagem para mostrar a estranha figura. Mais fácil foi encenar Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, vivido por Gerard Depardieu. É que a feiúra de Cyrano estava no descomunal nariz, e nariz postiço, para o cinema, nunca foi problema.
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A peça de Rostand, escrita em 1897, baseava-se num personagem real, Savinien Cyrano de Bergerac, dramaturgo francês do século 17, que chegou até a ser imitado pelo famoso Molière. Os retratos da época mostram-no como um homem simpático, sorridente. O nariz é grande, mas não resta dúvida de que foi a imaginação de Rostand que o fez crescer até o nível do grotesco. E é exatamente este nariz que condiciona o destino do Cyrano personagem; para compensar a feiúra, ele se torna um poeta famoso pela agressividade dos versos, e, principalmente, um espadachim temível. Ele está convencido de que nenhum mulher o desejará. Isto não impede qus se apaixone por sua bela prima, Roxane, que, no entanto, se sente atraída pelo belo Christian de Neuvillette. Generosamente, Cyrano trata de aproximar os dois, inclusive escrevendo cartas de amor que Christian assina. Ao longo da peça, e do filme, Cyrano cresce como personagem e no fim estamos todos torcendo por ele. Feiúra ou não, pouco importa; ao menos neste caso, e também no caso de Ronaldo, a beleza não é fundamental. O importante é jogar com maestria. O importante é viver intensamente.
Zero Hora (Porto Alegre) 02/07/2006

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