segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A guerra dos narizes

Um "nariz eletrônico" desenvolvido por cientistas da Universidade de Manchester (Reino Unido) pode controlar remotamente o mau cheiro em depósitos de lixo. "Atualmente, não há nenhum outro acessório sensível o bastante para monitorar a concentração de cheiros e gases nestes locais. Geralmente, eles são analisados por voluntários que inalam amostras de ar", afirma o comunicado da universidade.
Folha Online, 10 de janeiro de 2005
Ele ficou simplesmente mortificado quando soube que a prefeitura da cidade ia adquirir o nariz eletrônico desenvolvido na Universidade de Manchester. Não que fosse contra a inovação tecnológica; mas é que, em matéria de nariz, ele desempenhava uma função importante. Tinha, desde criança, um olfato notável; onde outros não sentiam cheiro algum, ele era capaz de identificar o tipo de odor e, mais tarde, depois que se graduou na universidade, até a substância, ou substâncias, responsáveis pelo referido odor. A partir daí começou a ser chamado como perito; sempre que alguém se queixava de mau cheiro nas vizinhanças, era ele quem dava o veredicto final. Agora, porém, derrotava-o o progresso científico; com o nariz eletrônico, a sua atuação tornava-se desnecessária.
Uma decisão que não aceitaria passivamente, sem lutar. Conseguiu uma audiência com o próprio prefeito. Lembrou que sua fama já tinha ultrapassado as fronteiras do município, do Estado e do próprio país, e que era candidato até a figurar no "Livro dos Recordes" como a pessoa de olfato mais sensível na face da Terra. O prefeito reconhecia tudo isso, mas, dizia, a avaliação que ele fazia sempre seria de caráter subjetivo, sujeita a contestação judicial. Com o nariz eletrônico, imperaria a neutralidade científica. Ele então se dispôs a fazer um teste: se o nariz eletrônico detectasse melhor uma substância escolhida em segredo no laboratório da prefeitura, renunciaria à reivindicação de manter o cargo, aliás honorífico, mas do qual tinha muito orgulho.
O teste foi marcado para daí a três dias. Quando ele acordou, na manhã decisiva, teve um choque; sem saber como, sem nenhum sintoma prévio, tinha contraído um resfriado que o deixava de nariz entupido, com o olfato reduzido a praticamente zero. E agora? O que fazer? Se pedisse um adiamento, achariam que estava com medo de competir. Resolveu, pois, enfrentar o desafio.
A prova foi realizada no auditório da prefeitura, cheio de gente: a mídia estava toda ali. Um químico trouxe o frasco com a substância de teste. Que foi submetida primeiro ao nariz eletrônico.
Nada. O aparelho não acusou nada. O técnico responsável disse que um chip importante tinha queimado e que a troca tardaria umas duas semanas. Aí colocaram o frasco diante do nariz do desafiante. Gás metano, disse ele, sem hesitar, e, em meio a aplausos de todos, o prefeito proclamou-o vencedor.
É claro que ele não tinha sentido cheiro algum. Mas há algum tempo vinha namorando a química-chefe do laboratório. Que naturalmente lhe passou o segredo. O cheiro do amor chega a qualquer lugar.
Folha de São Paulo (São Paulo) 30/1/2006

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