segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Guerrilha capilar

A Polícia Federal (PF) apreendeu 250 kg de cabelos que entraram no Brasil ilegalmente em um hotel em Curitiba, na manhã deste domingo. O material havia sido trazido da Índia. Três pessoas foram presas. O contrabando foi descoberto por acaso: agentes da Polícia Federal estavam hospedados no mesmo hotel e suspeitaram quando a carga era descarregada de uma caminhonete. De acordo com a PF, todas as mechas de cabelo eram pretas e tinham entre 40 e 70 centímetros de comprimento. A carga seria revendida para salões de beleza.
Folha Online, 13 de março de 2006.
A Polícia Federal recolheu os 250 kg de cabelo a um depósito com o que o caso poderia ser encerrado. A não ser, como disse o vigia do lugar, que piolhos tentassem roubar a exótica mercadoria. O comentário se revelou profético: naquela mesma noite o lugar foi assaltado, e não por piolhos, mas por um bando de homens armados. Imobilizaram o vigia, transportaram os cabelos para uma van e se foram, não sem deixar um bilhete: "Esta é mais uma ação da Frente de Libertação dos Calvos. Lutamos contra a má distribuição de cabelos no mundo. Lutamos contra a propaganda enganosa dos xampus. Lutamos contra a excessiva valorização das bastas cabeleiras. Basta! De agora em diante o mundo sentirá a força de nossa justa ira".
A intenção da misteriosa Frente de Libertação dos Calvos (FLC) era usar os cabelos confiscados para confeccionar perucas, que seriam distribuídas, gratuitamente, a milhares de carecas. Mas, tão logo se reuniram, sob a presidência de um líder mascarado que se identificava apenas como Sansão, os problemas começaram a emergir. Constatou-se que, em primeiro lugar, os cabelos não eram nacionais - procediam da Índia. Além disto, eram todos escuros.
Isto provocou revolta na área mais radical do movimento. Os extremistas protestavam contra o fato de os cabelos serem procedentes da Índia e serem todos de cor preta, o que significaria a marginalização dos loiros, dos ruivos e dos grisalhos - um duro golpe na diversidade cultural que é a base mesmo da emancipação dos oprimidos. De sua parte, o setor mais moderado ponderava que, afinal, a Índia era, como o Brasil, um país emergente e que, portanto, os cabelos não traduziriam nenhum tipo de dominação imperialista. E o uso de perucas pretas por todos os membros da Frente poderia ser um símbolo de coerência ideológica e de disciplina revolucionária.
A discussão evoluiu rapidamente para a briga, e lá pelas tantas os adversários estavam atirando mechas de cabelos uns nos outros. Quando terminou a pancadaria, não dava para aproveitar mais nada da preciosa carga de cabelos. O cartaz com a divisa criada por Sansão, "Calvos unidos jamais serão vencidos", jazia rasgado no chão. Antes que as forças da lei e da ordem aparecessem, foram todos embora. Desiludidos, mas com uma esperança: a de que, no futuro, a Polícia Federal apreenda uma carga de tônicos capilares, desses que fazem crescer cabelo quase que por milagre.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/03/2006

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