segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A última do papagaio

Um britânico descobriu que sua namorada tinha um amante graças às indiscrições de seu papagaio. Chris Taylor, de 30 anos, um programador de computadores de Leeds, contou que, a cada vez que o telefone celular de sua namorada, Suzy Collins, tocava, Ziggy, o papagaio, dizia: "Oi, Gary". A princípio, ele pensou que Ziggy, emérito imitador, havia aprendido a frase pela TV. Suzy negava conhecer algum Gary, e Taylor não suspeitou de nada nem mesmo quando o pássaro começou a imitar o barulho de beijos ao escutar a palavra "Gary" no rádio ou na TV. Uma noite em que Taylor e Suzy beijavam-se no sofá, o pássaro disse, numa voz idêntica à da moça: "Eu te amo, Gary". Suzy confessou então que estava tendo um caso com um ex-colega chamado Gary. À mídia, ela declarou que a relação com Taylor não ia bem: "Ele passava mais tempo falando com o papagaio do que comigo". Taylor acabou vendendo Ziggy para uma loja de animais de estimação. Isso porque o programador de computadores não conseguiu desprogramar o papagaio do hábito de dizer, imitando sua ex-namorada, o nome do sujeito que foi o pivô do fim do romance.
Folha Online, 17 de janeiro de 2006
Ah, Ziggy, Ziggy. Viu o que você foi fazer? Como muitas pessoas, Ziggy, você repete bem aquilo que ouve, mas você não pensa no que diz. Ali estava você, com o Taylor, um dono exemplar, um dono que lhe adorava, tanto que preferia falar com você a falar com a namorada, Suzy. Ela, aliás, se queixava disso, e lá pelas tantas começou a ter um caso com um ex-colega. Sim, tratava-se de infidelidade, coisa condenável, mas de alguma maneira o arranjo funcionava; em termos de bigamia, a Suzy saía-se bem. Só que ela não contava com a sua indiscrição, Ziggy.
Você logo aprendeu o nome do namorado secreto dela. Coisa que aliás não deve ter sido difícil: "Gary", isto é fácil de pronunciar. E é também um nome comum, tanto que o Taylor pensou que você estava repetindo o que ouvia na televisão. Mas aí você foi mais longe, Ziggy. Você aprendeu também a imitar o som de beijos, e, beijando, você dizia, imitando a voz da Suzy: "Eu te amo, Gary". Mesmo um cara desligado como o Taylor acabaria se dando conta de que algo estava acontecendo. Lá pelas tantas ele rompeu com a moça.
Apesar disso, você continuava falando no Gary e na Suzy. Você praticamente obrigou o pobre Taylor a vender você para uma loja de bichos de estimação (duvido que a esta altura você ainda se enquadrasse, ao menos para ele, na categoria de bichos de estimação). Quer dizer: o Taylor acabou sozinho. Foi a sua última bobagem, Ziggy. A última do papagaio.
Uma pergunta se impõe, Ziggy: por que é que você fez isso? Você queria alertar o Taylor? Você queria debochar dele? Ou será que você estava apaixonado pela Suzy e queria se exibir para ela?
Mistério, Ziggy. Mistério. Temos de confessar: a alma dos papagaios continua sendo, para nós, humanos, território desconhecido. Se houvesse um psicanalista de aves, talvez o enigma fosse decifrado. Difícil, porém: você ficaria repetindo todas as interpretações do terapeuta.
Mas a gente pode dar um conselho a você, Ziggy. Se você puder fugir da gaiola, atravesse o Atlântico voando e venha para o Brasil. Aqui você se transformará num personagem de anedota. Ninguém levará você a sério. O que será melhor para você e para todo mundo.
Folha de São Paulo (São Paulo) 23/1/2006

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