segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Nus ao telefone

*Um terço dos usuários de telefonia na Grã-Bretanha faz chamadas completamente nus, sendo os homens mais propensos a essa prática do que as mulheres, revelou um estudo divulgado pela agência de notícias Reuters. A pesquisa, de responsabilidade dos Correios da Grã-Bretanha, revelou que cerca de 40% dos homens admitiram conversar sem roupas, contra 27% das mulheres.
Folha Online, 28 de março de 2006
"Fale, John. Pode falar. Fale bastante, se quiser. Aproveite, diga tudo o que você tem a dizer. Esta, quero lhe avisar, é a última vez que você me liga: a nossa relação termina aqui, John. Por quê? Por que, você pergunta? Deus, John, como você é cínico. Mas tudo bem, vou lhe dizer. Você, John, está me desrespeitando. Como sempre me desrespeitou, aliás, mas agora você acrescentou ao desrespeito um requinte de perversidade. Você decidiu me ligar e, antes disso, você tomou uma providência muito típica de seu caráter. Você tirou toda a roupa, John. Você está pelado.
Como é que eu sei? Calma, eu não tenho videofone. Aliás, nem precisaria disso. Conhecendo você como conheço, sei de tudo o que você faz, mesmo à distância. Mas, no caso, fui ajudada por um amigo, um bom amigo. Você não o conhece, mas ele ontem estava no pub que você freqüenta, a seu lado inclusive. Você comentava esta pesquisa que foi feita pelos Correios, mostrando que cerca de 40% dos homens conversam ao telefone sem roupa. Você disse, muito orgulhoso, que jamais telefona para qualquer mulher - sua namorada, inclusive, você fez questão de ressaltar isso - sem antes tirar a roupa. Você disse que tal coisa, para você, funciona como um verdadeiro afrodisíaco. E você lamentou não ter videofone; se tivesse, você concluiu, às gargalhadas, elas saberiam o que estão perdendo.
De modo que você está me ligando pelado. Mas isso não é o pior, John. O pior é o lugar de onde você está me ligando. Você está sentado no vaso sanitário, John. Você, pelado, está sentado no vaso sanitário. Como é que eu sei? Não, eu não tenho videofone, John. Mas tenho ouvidos muito bons. Estou ouvindo o ruído da água enchendo a caixa, John. Você acabou de dar a descarga. Você fez o que tinha de fazer, você se limpou, você deu a descarga.
O que devo concluir disso? É muito simples, John. Com as outras, você fala nu ao telefone porque assim se excita; para mim, você telefona pelado para não perder tempo: fala e faz as necessidades ao mesmo tempo. Eu até ouvi você gemer, John. E sei que não era de paixão. Era a sua tenaz prisão de ventre.
Mas não tem importância, John. Eu também estou nua. E também estou no banheiro. Só que não estou sozinha. Estou acompanhada. Por aquele amigo que você não conhece, mas que ontem, no bar, estava na mesa ao lado da sua. Ele ouviu a conversa e logo em seguida me ligou. Ligou de roupa, bem entendido, porque não tem dessas fantasias. Eu pedi que viesse aqui e descobri que não apenas é leal, é também fora de série na cama.
Este barulho que você está ouvindo? É a água do chuveiro, correndo. Nós agora vamos tomar banho juntos. Fique aí pelado, fazendo suas ligações. Nós vamos nos divertir muito mais. E sem telefone."
Folha de S. Paulo (São Paulo) 03/04/2006

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