segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Torpedos

1. O torpedo no vestibular
A polícia do Rio de Janeiro prendeu quatro estudantes que tentavam fraudar o vestibular de medicina da Universidade Gama Filho. Uma quadrilha teria cobrado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil pela transmissão do gabarito do exame por meio de mensagens de texto.
Folha Cotidiano, 31 de janeiro de 2006
Apesar do fracasso dos quatro vestibulandos que haviam tentado fraudar a prova mediante mensagens pelo celular, ela decidiu fazer a mesma coisa. Em primeiro lugar, porque morava numa cidade muito menor que o Rio, na qual as medidas de segurança não eram tão rigorosas. Depois, não recorreria a quadrilha nenhuma, coisa que, segundo imaginava, tornava a operação vulnerável. Em terceiro lugar, não tinha outra opção: não sabia quase nada, e era certo que seria reprovada. Por último, havia uma coincidência favorável: estava com o antebraço esquerdo engessado. Nada preocupante, e na verdade ela até poderia ter tirado o gesso, mas não o fizera e agora contava com um ótimo esconderijo para o celular. Quem mandaria o gabarito? O namorado, claro. Rapaz inteligente (já estava cursando a faculdade), ele só teria de perguntar as questões para alguém que tivesse terminado a prova e enviar o gabarito por torpedo. Quando ela fez a proposta ao rapaz, ele pareceu-lhe um tanto relutante, incomodado mesmo. E no dia do vestibular ela descobriu por quê. Quarenta minutos depois de iniciada a prova, ela recebeu o tão esperado torpedo. Para sua surpresa, não continha o gabarito, e sim uma mensagem: "Sinto muito, mas não posso continuar namorando uma pessoa tão desonesta. Considere terminada a nossa relação. PS: boa sorte no vestibular". Com o que ela foi obrigada a concluir: tão importante quanto o torpedo é aquele que dispara o torpedo.
2. O torpedo na literatura
Escritor transforma torpedos em gênero literário. Depois de tentar em vão moderar a paixão de seus compatriotas pelos celulares, o escritor francês Phil Marso, 43, se rendeu a essa onda e decidiu propor que as mensagens enviadas por esses aparelhos virem um gênero literário.
Folha Online, 30 de janeiro de 2006
Durante anos ele tentou, em vão, divulgar seus trabalhos literários. Procurou editoras, ofereceu-os a jornais e revistas. Nada. Ninguém queria saber de seus contos, e até aconselhavam-no a tentar outra coisa. Mas ele teimava. Tinha certeza de que um dia seria reconhecido como escritor, e baseava-se no exemplo de autores cujo talento não fora reconhecido em vida. Se pudesse, publicaria um livro por conta própria, vendendo-o depois em entradas de museus, de teatros. Mas, simples empregado de uma pequena loja, não tinha dinheiro para isso.
Foi então que leu sobre Phil Marso, o escritor francês que havia lançado a ficção como mensagem de celular. Aquilo deixou-o entusiasmado: era exatamente a solução que procurava. Seus contos - na verdade minicontos, alguns não passavam de uma frase - tinham o tamanho ideal para se transformarem em torpedos. E nada impedia que os leitores, entusiasmados, repassassem as mensagens literárias, que acabariam chegando a um grande crítico ou a um grande editor. Quando então o caminho do sucesso estaria aberto para ele.
Preparou cinco textos, que lhe pareciam os melhores. E aí chegou o grande dia, o dia em que o mundo tomaria conhecimento de seu talento. Apanhou o celular, respirou fundo...
Infelizmente, o aparelho estava sem bateria. Os torpedos não foram disparados. Foi dormir, convencido de que o Destino, e os celulares, não queriam que ele se transformasse em escritor.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/2/2006