segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Este lugar nunca vai dar certo

"Estimado senhor meu pai. Espero que esta vos encontre gozando da mais perfeita saúde bem como a todos os nossos familiares em Portugal. Seja-me permitido, senhor, prestar a vossência relatório acerca da importante missão que a mim foi por vós confiada: encontrar, neste país chamado Brasil, onde resido, um lugar onde pudésseis instalar um entreposto comercial, aplicando assim os recursos que nossa família auferiu no bem-sucedido comércio das especiarias. Destarte, dirigi-me ao lugar conhecido como São Paulo de Piratininga, que, segundo informações por mim obtidas, preencheria as condições requeridas por vós, a primeira das quais era evitar o trópico, por vós considerado região insalubre, de gente preguiçosa, indolente. O dito lugar, ao contrário, teria ares frios e temperados; seria uma terra mui sadia, fresca e de boas águas, situada entre dois rios, o Tamanduateí e o Anhangabaú. De Recife, onde resido, tomei um navio, e depois em lombo de mula, subi até o planalto, onde fica São Paulo de Piratininga. Quando lá cheguei, a 25 de janeiro do ano da graça de 1704, invadiu-me o desânimo.
É um lugarejo, meu pai. Um pequeno triângulo limitado por conventos: o de São Francisco, o de São Bento, o do Carmo.Tem foros de Vila, tem pelourinho, é considerada a principal localidade da capitania, mas vivem ali 5.000, 6.000 pessoas quando muito, a maioria índios e mamelucos. Muitos nem sabem falar português. Moram em casas de taipa, cobertas de sapé. Cultivam pequenas roças de milho, feijão e mandioca, da qual fazem a chamada farinha-de-pau; o solo não é da melhor qualidade. A vila fica longe do litoral, e, do ponto de vista de comércio, está completamente isolada. Para obter ganhos, são obrigados a sair dali; assim, organizam bandeiras, expedições que percorrem longuíssimas distâncias para aprisionar índios e procurar ouro e pedras preciosas. Ouro e pedras preciosas, que eu saiba, não encontram; um dos bandeirantes morreu pensando que tinha descoberto esmeraldas, e eram apenas pedras verdes. Quanto aos índios, são maus escravos.
Hospedei-me numa pousada suja e sem conforto e, tendo em mente vossa ponderação, segundo a qual o passado de um lugar dá preciosas indicações sobre seu futuro, saí a inquirir sobre a história de São Paulo de Piratininga, sobre figuras ancestrais que pudessem servir de orientação e exemplo, assim como os patriarcas de nossa família a vós serviram de modelo.
Falaram-me do padre José de Anchieta, guia espiritual e poeta. Indaguei acerca de sua poesia. Disseram que dela pouco sabiam, mas mencionaram um detalhe que consideravam interessante: por falta de papel e tinta, Anchieta escrevia na areia da praia; à medida que o fazia, as ondas iam apagando os versos. O que considerei insólito, para dizer pouco.
Todo poeta quer divulgar sua obra; quer vê-la impressa, sob a forma de livro, de modo que a vendagem possa proporcionar um retorno financeiro. Escrever na areia é, para mim, um desperdício da energia criadora. Acho que a vós parecerá o mesmo.
Falaram-me de um homem que não quis ser rei. Isso aconteceu, em 1640, quando Portugal libertou-se do jugo da Espanha; a notícia só chegou a Piratininga no ano seguinte, um exemplo da dificuldade de comunicação que se experimenta neste lugar remoto. Mas, quando chegou, provocou verdadeira convulsão: os habitantes decidiram que, a exemplo dos portugueses, também eles se tornariam independentes, governados por um rei: Amador Bueno da Ribeira, homem rico, digno, sábio. Foram à sua casa, pediram que aceitasse ser monarca. Para surpresa geral, Amador recusou e, diante da indignação provocada por sua atitude, teve de fugir daquela gente, refugiando-se no mosteiro de São Bento. Coisa que a mim surpreendeu. Ser rei é o sonho de todos nós, é o sonho que eu sempre alimentei desde a infância, baseado nas histórias contadas por vossência. Mas Amador Bueno da Ribeira não quis ser rei. Faltou-lhe, em meu entender, audácia, coragem, visão, enfim, todas as condições necessárias para quem quer subir na vida. Mas os habitantes deveriam ter escolhido outro rei. Não o fizeram. Por quê? Porque, no meu modesto entendimento, também são tímidos, carentes de arrojo e valentia.
Em suma, não considerei o passado do lugar inspirador. Mas e o futuro? Em busca de resposta para essa pergunta procurei uma mulher conhecida como Maria Adivinha, famosa na vila por acertar suas previsões. Tive de pagar, adiantado, uma boa quantia; e o que ouvi dela convenceu-me apenas de que não passa de uma mentirosa. No escuro aposento, em meio da fumaça de ervas que queimavam, ela fechou os olhos e disse que via ali, em São Paulo de Piratininga, uma gigantesca cidade, povoada por milhões e milhões de pessoas; prédios gigantescos, ruas imensas cheias de veículos que, detalhe inverossímil, deslocavam-se sem tração animal. Seria a maior cidade do Brasil e uma das maiores cidades do mundo, e nós faríamos bem em colocar ali o dinheiro de nossa família.
Constatando minha incredulidade, que logo se transformou em irritação, ofereceu-se para me prestar, por uma soma adicional, outros serviços, estes relacionados ao prazer carnal. Depois da longa viagem, depois de meses sem mulher, eu estava carente, como vós, meu pai, bem podeis imaginar. Fomos, pois, para a cama, e aí chegou ao auge minha frustração e meu desencanto. Porque, embora fosse bela, a Maria Adivinha, embora fosse mulher de amplas cadeiras e seios opulentos e embora o ímpeto dos meus 26 anos garantisse um bom desempenho, eu falhei, meu pai, falhei miseravelmente. Coisa que só posso atribuir aos maus eflúvios da região. Este lugar nunca vai dar certo. E eu, tendo concluído esta missiva, vou-me daqui antes que seja tarde demais, antes que me invada, para todo o sempre, o espírito do fracasso."
Folha de São Paulo (Revista Mais)(São Paulo - SP) em 25/01/2004

Felicidade não se compra. Nem mesmo pela internet

"Sofá de dois lugares, seminovo: produtos como esse podem sair de sua casa e serem vendidos com a ajuda da internet.".
Folha Informática, 23.mar.2005
Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living. Ele adorava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, se instalava para assistir a TV até altas horas. A mulher odiava o sofá de dois lugares que estava no living porque era ali que, todas as noites, o marido se instalava para assistir a TV até altas horas. E, vendo TV, o marido não queria fazer programas, não queria passear, não queria nem conversar. Em desespero, ela ameaça vender o sofá por qualquer preço.
O marido não acreditava. Porque a mulher não tinha jeito para negociar. Não sabia falar com as pessoas, não sabia apresentar seu produto. Se dependesse de sua habilidade para a venda, o sofá de dois lugares permaneceria no living por muitos e muitos anos. De modo que ele ficou muito surpreso quando, voltando do trabalho, não encontrou o sofá. Vendi, disse a mulher, triunfante. Ele não quis acreditar, achou que fosse brincadeira. Ela explicou: graças à internet, tinha vendido a uma pessoa que nem conhecia, que enviara um portador para entregar o dinheiro e levar o sofá.
Aquilo deixou-o furioso. Queria o seu sofá de volta e exigiu da mulher o nome do comprador. Ela simplesmente se recusou a revelar esse segredo.
Brigaram e, naquela noite, ele dormiu no outro quarto do apartamento, vazio desde que a filha tinha casado. De madrugada, uma idéia lhe ocorreu. Correu a verificar os e-mails da esposa e, de fato, ali estava a mensagem enviada pela compradora, com nome, endereço, telefone.
No dia seguinte, ligou para essa mulher, disse que precisava vê-la com urgência: assunto ligado à compra do sofá. Ela relutou, mas consentiu em recebê-lo. Ele foi até a casa, num bairro afastado. E ali estava a mulher, ainda jovem, a esperá-lo. No living, diante da TV, o sofá de dois lugares.
Que ele quis comprar de volta. Ela recusou; gostara do sofá, não o venderia. Ele recorreu a todos os argumentos, sem resultado, quis até pagar o dobro da quantia que ela havia despendido. Nada, ela mostrava-se irredutível, e ele acabou desistindo.
Antes de ir embora, porém, resolveu perguntar quem sentava ao lado dela no sofá.
Ninguém, foi a resposta. Divorciada, estava sozinha havia algum tempo. Comprara um sofá de dois lugares porque tinha esperança de, um dia, arranjar um companheiro.
Ele tem ido à casa da nova proprietária do sofá. Senta-se ao lado dela para ver TV, coisa que adora. No começo, ela gostava da companhia.
Mas agora já não acha o arranjo tão bom: o homem não quer fazer programas, não quer passear, não quer nem conversar.
Ela pensa seriamente em vender o sofá. Não é muito hábil nessas coisas, mas tem certeza de que, através da internet, resolverá o problema.
Folha de São Paulo (São Paulo) 28/03/2005

A volta do filho pródigo

"Cerca de 30 mil crianças e adolescentes fogem todo ano no Brasil. Oitenta por cento voltam para casa. Dificuldades com a família e busca de independência são as causas mais freqüentes das fugas. A volta é acompanhada de arrependimento".Folhateen, 28.mar.2005
Meus pais não me compreendem, ele pensava sempre. As brigas, em casa, eram freqüentes. Os pais reclamavam do som muito alto, das roupas estranhas, das tatuagens. Revoltado, decidiu fugir de casa. Sabia que, para seus velhos, aquilo seria uma dura prova: afinal, ele era filho único. Mas estava na hora de mostrar que não era mais criança. Estava na hora de dar a eles uma lição. Botou algumas coisas na mochila e, uma madrugada, deixou o apartamento. Tomou um ônibus e foi para uma cidade distante, onde tinha amigos.
Ali ficou por vários meses. Não foi uma experiência gratificante, longe disso. Os amigos só o ajudaram na primeira semana. Depois disso ficou entregue à própria sorte. Teve de trabalhar como ajudante de cozinha, morava num barraco, foi assaltado várias vezes, até fome passou. Finalmente resolveu voltar. Mandou um e-mail, dizendo que estaria em casa daí a dois dias. E, lembrando que a mãe era uma grande leitora da Bíblia, assinou-se como "Filho Pródigo".
Chegou de noite, cansado, e foi direto para o prédio onde morava. Como já não tinha chave do apartamento, bateu à porta. E aí a surpresa, a terrível surpresa.
O homem que estava ali não era seu pai. Na verdade, ele nem sequer o conhecia. Mas o simpático senhor sabia quem era ele: você deve ser o Fábio, disse, e convidou-o a entrar. Explicou que tinha comprado o apartamento em uma imobiliária:
- Seus pais não moram mais aqui. Eles se separaram.
A causa da separação tinha sido exatamente a fuga do Fábio:
- Depois que você foi embora, eles começaram a brigar, um responsabilizando o outro por sua fuga. Terminaram se separando. Seu pai foi para o exterior. De sua mãe, não sei. Parece que também mudou de cidade, mas não sei qual.
Fábio não agüentou mais: caiu em prantos. O homem se aproximou dele, abraçou-o. Entre aqui no seu antigo quarto, disse, tenho uma coisa para lhe mostrar. Ainda soluçando, Fábio entrou. E ali estavam, claro, o pai e a mãe, ambos rindo e chorando ao mesmo tempo. Tinha sido tudo uma encenação. Abraçaram-se, Fábio jurando que nunca mais sairia de casa.
A verdade, porém, é que não gostou da brincadeira, mesmo que ela tenha lhe ensinado muita coisa. Os pais, ele acha, não podiam ter feito aquilo. Se fizeram, é por uma única razão: não o compreendem. Um dia, ele terá de sair de casa. Mais tarde, naturalmente, quando for homem, quando tiver sua própria casa. Só que aí levará os pais junto. Pais travessos como os que ele tem precisam ser controlados.
Folha de São Paulo (São Paulo) 04/04/2005

Clocky, o implacável

Despertador se esconde de dorminhoco. Gauri Nanda, estudante do célebre Laboratório de Mídia do Instituto Tecnológico de Massachusetts, USA, inventou um despertador que obriga os dorminhocos a se levantarem para desligá-lo. Concebida para evitar o abuso da função "soneca" dos despertadores pelos preguiçosos, a engenhoca, batizada Clocky, cai no chão e anda. Para desligar o alarme, a pessoa precisa se levantar e procurar o despertador. Graças a um chip, a cada manhã ele vai parar num lugar diferente. (Folha Ciência, 9.abr.2005)Aí está a solução do meu problema, pensou, tão logo ouviu falar no fantástico despertador inventado nos Estados Unidos. Ele era daqueles que sempre querem dormir mais cinco minutos; só que estes cinco minutos facilmente transformavam-se em uma hora. Resultado: estava sempre chegando atrasado ao emprego, o que lhe valera não poucas repreensões do chefe. Mas um despertador que continuasse tocando, e mais, que tivesse de ser procurado, certamente resolveria o seu problema.
Conseguir o Clocky naturalmente não seria fácil, mas, com a ajuda de amigos que estudavam no Instituto Tecnológico de Massachusetts obteve uma cópia do projeto, com a promessa de mantê-lo em segredo. Já confeccionar o despertador não foi difícil: ele era técnico em eletrônica e tinha uma habilidade incrível. Assim, logo tinha em sua mesa de cabeceira a engenhoca.
Que funcionava muito bem. Na verdade, funcionava melhor que o esperado. A cada manhã ele acordava sobressaltado com o alarme e tinha de caçar o Clocky pelo apartamento, que não era grande, mas tinha milhares de esconderijos. Coisa exasperante, mas, ele o reconhecia, necessária: espantava completamente seu sono.
Uma manhã, contudo, Clocky ultrapassou todos os limites. Tocava como um demônio, e ia de peça em peça, seu dono correndo atrás. Finalmente conseguiu encurralar o maldito no pequeno terraço do apartamento, situado no segundo andar. E aí aconteceu o imprevisto; num gesto aparentemente desesperado, Clocky saltou pela amurada.
Lá embaixo a rua estava praticamente deserta. Só havia ali uma moça, aparentemente esperando um táxi. Ele desceu correndo as escadas, ainda de pijama, e dirigiu-se até ela. Ia perguntar pelo Clocky, mas não o fez. Era tão linda, a jovem, que ele esqueceu completamente o despertador e cumprimentou-a amavelmente. Ela sorriu, simpática...
Estão vivendo juntos, no apartamento dela. Mas de vez em quando, enquanto estão fazendo o amor, ele ouve o alarme. É o Clocky, certamente, o implacável Clocky. Escondido, mas ainda por perto.
Folha de São Paulo (São Paulo) 18/04/2005

Galopando para o sucesso

Galopando para o sucesso Moacyr Scliar
MEC acha até cavalo como veículo escolar. Levantamento divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais, ligado ao Ministério da Educação, mostra que até cavalos são usados para levar os alunos às escolas. Folha de São Paulo / Cotidiano, 20.abr.2005A escola era longe, ficava a mais de dez quilômetros da humilde casinha em que morava, mas nem por isso ele deixaria de ir às aulas. Como a mãe, viúva e pobre, costumava dizer, aquela era a única chance que teria de ir para a frente, de progredir na vida.
Além disso, poderia, como outros alunos, contar com o transporte escolar gratuito.
Foi procurar o encarregado e pediu um lugar na Kombi que fazia aquele trajeto. O homem disse que, infelizmente, o veículo já estava lotado. Mas havia uma alternativa:
- Você pode ir a cavalo.
O cavalo era um velho pangaré que atendia pelo nome de Espantoso. O garoto não ficou muito entusiasmado. Como todo morador de área rural, sabia andar a cavalo, mas Espantoso não era exatamente o corcel de seus sonhos. Argumentou que com aquele animal levaria horas para chegar à escola. O homem manteve-se irredutível: é pegar ou largar, disse. Ele acabou aceitando.
No começo foi, realmente, muito difícil. Espantoso andava a passo pela estrada; ele chegava constantemente atrasado às aulas e, pior, sob o deboche dos outros alunos. E aí ocorreu algo inesperado. De repente ele descobriu um jeito de fazer o Espantoso correr. Uma coisa complicada, que envolvia um tipo particular de assobio, e cutucões com os pés na barriga do pangaré, mas que, decididamente, funcionava: o antes lento cavalo passou a voar pela estrada e não raro até ultrapassava a Kombi.
O garoto estava muito contente: não chegava mais atrasado, os colegas não riam mais dele. O que ele não poderia imaginar era que aquilo mudaria sua vida.
Na estrada ele passava sempre pela fazenda Corisco, propriedade de um rico criador de cavalos de corrida. Certa manhã este homem avistou o garoto, galopando velozmente e num grande estilo. Logo se deu conta: ali estava um jóquei nato, capaz de ganhar grandes prêmios em hipódromos. Foi falar com a mãe do menino e se prontificou a encaminhá-lo.
Deu tudo certo. Hoje ele é um excelente jóquei, ganha muitos prêmios. Deixou o colégio, mas pode ser que, um dia, volte a estudar. De momento esta não é a sua prioridade. De momento ele está, segundo suas próprias palavras, galopando para o sucesso.
Folha de São Paulo (São Paulo) 25/04/2005

Câmeras e traição

As câmeras de segurança podem ajudar a polícia e proteger propriedades, mas também podem fazer as pessoas se sentirem violadas e incomodadas. Folha Informática, 27.abr.2005
Não era exatamente um trabalho muito excitante: ele supervisionava o funcionamento de cerca de 20 câmeras de segurança espalhadas numa área da cidade muito sujeita a assaltos (bancos, lojas elegantes). Sua tarefa era certificar-se de que as câmeras estavam captando e gravando adequadamente imagens que, eventualmente, poderiam servir de prova contra criminosos e delinqüentes.
A mulher, jovem e ambiciosa, achava esse trabalho um lixo. Como o marido ganhava pouco, tinham de morar num apartamento minúsculo e andar de ônibus, quando o sonho dela era ter uma mansão cheia de criados e desfilar pela cidade num carrão importado. Se isto não acontecia, era só por causa dele. "Você é um incompetente", dizia. "Você nunca serviu para coisa alguma, seus amigos de infância hoje são ricos executivos, enquanto você fica aí fazendo esse trabalho de voyeur."
Ele optava por ignorar as sarcásticas observações, mesmo porque tinha certeza de que, um dia, seu trabalho seria reconhecido. Um dia ocorreria um assalto espetacular a um dos bancos ou a uma das lojas. Ele identificaria os bandidos, seu nome apareceria nos jornais. E aí a mulher finalmente teria de admitir seu erro. Mas, enquanto isso, sucediam-se os bate-bocas e uma noite, irritado, ele acabou batendo nela. "Vou me vingar", ela prometeu, enxugando o sangue que corria do lábio partido.
Um mês depois um dos bancos vigiados pelas câmeras foi assaltado. De madrugada os ladrões entraram por uma loja ao lado e, muito profissionais, arrombaram o cofre, levando todo o dinheiro. Pela manhã ele foi chamado com urgência pelo chefe: precisava examinar as gravações feitas pelas câmeras. Certamente os bandidos apareciam ali.
Sem demora começou a trabalhar e, de fato, uma das câmeras captara o momento em que os criminosos, três, saíam do banco, carregando as sacolas com dinheiro. Mas seria difícil identificá-los: todos estavam com capuzes na cabeça. Que droga, ele resmungou, enquanto observava aquilo, mas então sentiu um baque no coração: junto com os assaltantes, havia uma mulher. Esta não usava capuz. Ao contrário, olhava fixamente para a câmera, sorrindo ironicamente. Ele imediatamente a reconheceu. Não tinha como não reconhecê-la: era sua mulher.
Deletou as imagens. Ao chefe, disse que algum problema acontecera com a câmera, e que nada fora registrado. A tecnologia é assim: quando menos se espera, ela nos trai.
Folha de São Paulo (São Paulo) 02/05/2005

Acidentes acontecem

Severino volta a chamar estupro de "acidente". Folha de São Paulo / Brasil, 4.mai.2005
"Acidentes acontecem, senhor juiz. Todo mundo sabe disso, especialmente o senhor, que é um homem culto, experiente, vivido. Acidentes acontecem, e acontecem especialmente comigo, que sou um homem muito azarado. Azarado, mas boa pessoa, esteja certo disso. Esta acusação que estão me fazendo, e que me trouxe a este tribunal, esta acusação, senhor juiz, não tem fundamento algum, tudo não passou de um acidente. Vou lhe contar como foi.Eu estava passeando pelo campo, senhor juiz. Sou um tipo romântico, gosto da natureza e gosto sobretudo de passear pelo campo. Então eu estava passeando pelo campo e cheguei ao rio, aquele rio muito bonito que tem lá, perto da minha propriedade. Ia caminhando pela beira desse rio, escorreguei e caí na água. Acidentes acontecem, senhor juiz. Caí na água e saí dali todo molhado, como costuma acontecer às pessoas que caem na água. Agora: eu sou muito sujeito a gripes, a resfriados. Portanto não podia ficar com aquelas roupas encharcadas, correndo o risco de ficar doente. O que fazer?
Não pensei duas vezes: tirei a roupa. Toda a roupa. Afinal, não havia ninguém ali por perto e, de mais a mais, não são poucas as pessoas que gostam de passear sem roupa -é só ir num acampamento de nudistas para constatá-lo. Tirei a roupa, coloquei numa árvore para secar e continuei caminhando.
De repente aconteceu aquela coisa perturbadora. Eu tive uma ereção, senhor juiz. Porque tive a ereção, não sei lhe explicar. Talvez o ventinho... Não sei. Mas só pode ser acidente. Sou um homem recatado e não costumo ter ereções nessas circunstâncias. Acidente, portanto. Acidentes acontecem.
Continuei a caminhar, nu e agora já no mato. Umas centenas de metros mais adiante, dei com a moça, essa mesma moça que me faz certas injustas acusações. Ela estava deitada, adormecida e suava muito. Concluí que estava com calor e, com pena da coitada, comecei a lhe tirar a roupa. Ela protestava, dizia que não era necessário, mas eu sou muito prestimoso e despi-a completamente. Quando terminei, já ia embora, mas então tropecei e caí. Um acidente, lógico. Acidentes acontecem, o senhor sabe. Caí e caí de cara em cima da moça. Ainda bem, porque se tivesse caído no chão poderia até ter me machucado feio. Esses acidentes às vezes têm conseqüências sérias, o senhor sabe. Continuando: caí em cima da moça. Agora, ela nua, eu nu... Tinha de acontecer o que aconteceu, o senhor não acha? Mas creia-me, senhor juiz: no fundo, no fundo, tudo não passou de acidente. Acidentes acontecem, o senhor sabe."
Folha de São Paulo (São Paulo) 09/05/2005

Suando frio

Suor masculino atrai homossexuais e mulheres, diz estudo. O suor masculino excita o cérebro dos homens homossexuais do mesmo modo como acende luzinhas no cérebro de mulheres heterossexuais, mas deixa insensíveis os homens heterossexuais. No experimento, o suor era colocado em frascos de vidro a 1 cm do nariz. Folha de São Paulo / Ciência, 10.05.2005
Ele era do tipo machão: alto, musculoso, ombros largos, cintura estreita. E, machão, fazia muito sucesso com as mulheres. Conquisto qualquer uma a qualquer hora, costumava dizer, e isto que poderia parecer gabolice não estava muito longe da realidade: de fato, ele trocava de namorada como quem troca de camisa. Já no mercado de trabalho não tinha tanto sucesso; apesar da excelente aparência, volta e meia estava desempregado e, embora morasse sozinho, tinha dificuldade até em arranjar grana para a comida. De modo que quando leu no jornal um anúncio pedindo homens para um estudo científico foi até o laboratório. O pagamento era modesto, mas quebraria o galho. E o que tinha a fazer era muito simples: cheirar o suor de homens e mulheres ao mesmo tempo em que um aparelho examinava a reação de seu cérebro ao odor.
Terminada a primeira rodada de testes a coordenadora da pesquisa, uma mulher ainda jovem e muito bonita mandou chamá-lo e perguntou-lhe qual era, mesmo, a sua preferência sexual. Gosto de mulheres, disse ele, meio surpreso. Estranho, disse ela, porque seu cérebro mostra que você reage ao suor de outros homens, que é o que acontece com homossexuais. Prometeu revisar o estudo e disse que entraria em contato.
Nos dias que se seguiram viveu um estado de permanente ansiedade. Da qual, no entanto, não falou a ninguém. O único que percebeu alguma coisa foi seu vizinho de prédio, um rapaz simpático, atencioso, que lhe perguntou o que estava acontecendo. Ele hesitou mas acabou desabafando: estou descobrindo que sou um homossexual enrustido, disse, entre lágrimas. O rapaz, condoído, consolou-o como pôde e disse que estaria sempre à disposição para ajudá-lo.
Dois dias depois recebeu um telefonema da coordenadora do projeto: precisavam falar com urgência. Ele foi até o laboratório. Muito cheateada, ela disse haviam lhe dado para cheirar um frasco com rótulo errado: não continha suor de homem, mas sim de mulher.
Na verdade, é o meu próprio suor. Não sei como isto aconteceu...
Perguntou se poderia lhe oferecer alguma compensação pelo transtorno, e, caso positivo, qual seria esta compensação.
Você disse ele, sem hesitar.
Estão vivendo juntos, na casa da pesquisadora. Ela até o sustenta. O melhor dos mundos, e veio na hora certa: o fato é que ele já estava começando a achar o vizinho muito, muito simpático.
Folha de São Paulo (São Paulo) 16/05/2005

Fim de jornada

1. No elevador
Já tem mais de 16 mil membros uma comunidade do Orkut chamada "Eu tenho medo do mesmo". A plaquinha que ilustra a página explica do que se trata: "Antes de entrar no elevador verifique se o mesmo encontra-se parado neste andar." Folha Ilustrada (Monica Bergamo), 17.mai.2005
Não sei como vocês imaginam a morte, mas uma possibilidade é esta:
Um homem vai tomar o elevador. É um homem de meia idade, obeso, fumante, sedentário, hipertenso, e portanto sujeito a riscos; de fato está saindo de um consultório médico, onde foi por causa de dores no peito e onde recebeu sérias advertências. Mas o homem não tem medo do coração; ele tem medo é do elevador, pois foi assim que seu pai morreu, caindo no poço de um elevador que não se encontrava parado no andar. Isto, claro, não acontece com o elevador que ele toma; o mesmo certamente encontra-se parado naquele andar.
Tão logo entra, porém, uma sensação de estranheza apossa-se dele. Não reconhece a cabine onde está; não é a mesma na qual subiu. Mais: como se tivesse vontade própria, o elevador começa a subir. Ele quer detê-lo, procura o painel dos botões, mas não há botões, não há painel. Nem porta existe mais. É uma espécie de caixa, agora nota, forrada de veludo vermelho. Como se fosse um caixão? É. Como se fosse um caixão.
A dor volta, intensa, avassaladora. O elevador sobe, sobe. Ele deveria estar muito angustiado, mas não está; sente-se resignado.
O que tinha de fazer, fez: certificou-se de que o mesmo estava parado no andar. Agora é ver o que acontece. Há certo consolo nisto: pelo menos vai encontrar o Grande Ascensorista. O único que decide quando o mesmo já não é mais o mesmo.
2. Na marcha
Sem-terra: fim da marcha separa casais de namorados. Folha Brasil, 19.mai.2005
Eles se conheceram durante a marcha. Ele, de Minas Gerais, ela de Pernambuco, foi um caso de amor à primeira vista. Daí em diante não se separaram mais: durante o dia, marchavam juntos, de mãos dadas. As noites, na precária barraca, eram de intensa paixão. Os outros sem-terra os miravam com admiração, com afeto, e até com alguma inveja: quem diria que amor assim ainda existe, comentavam.
Mas tudo chega ao seu fim, inclusive as marchas. Cada vez estavam mais próximos de Brasília, onde faria a demonstração final mas de onde cada um teria de voltar para sua terra.
Para ela esta separação era apenas transitória. Filha de um lendário líder camponês, herdara do pai uma confiança inabalável num mundo melhor, um mundo baseado no ideal e também nos sentimentos mais puros, como aquele que os unia. De modo que era otimista: haveriam de se encontrar na próxima marcha, e na seguinte, e na seguinte. Um dia o sonho da reforma agrária se realizaria; receberiam um pedaço de terra, onde construiriam uma casinha e onde, casados, seriam felizes para sempre.
Já ele não tinha tanta certeza disso. Achava que casamento não era nenhuma garantia; os seus próprios pais tinham se separado depois de muita briga. De modo que uma dúvida agora o assaltava: valia a pena trocar a paixão surgida durante a marcha pela rotina de um casamento insípido?
Decidiu que isso era mau negócio. Portanto, na próxima marcha não estaria presente. Veria os sem-terra na tevê do bar que freqüentava. Talvez avistasse sua amada. Talvez derramasse até uma furtiva lágrima.
Folha de São Paulo (São Paulo) 23/05/2005

Guerra nas Estrelas

Homem fantasiado de Darth Vader assalta cinema. Um homem com a máscara do vilão do filme "Star Wars" assaltou uma sala de cinema em uma cidade norte-americana. A polícia de Springfield (Illinois) informou que ele entrou no cinema, empurrou um funcionário e depois fugiu levando o dinheiro da bilheteria.
Folha Online, 24.05.2005
Muito tempo atrás em uma galáxia muito, muito longínqua... (da apresentação do filme "Star Wars", de George Lucas)
Ele era fã de "Guerra nas Estrelas". Fã só, não; ele era fanático por "Guerra nas Estrelas". Já tinha visto cada um dos filmes da série pelo menos umas 20 vezes. Sabia de cor a biografia do diretor George Lucas, colecionava fotos dos personagens, tinha games sensacionais, mostrando tanques Wookies lutando contra hordas de guerreiros Gungan. E por último, mas não menos importante, tinha as roupas dos principais personagens, Obi-Wan Kenobi, Palpatine e, claro, Darth Vader. Passava o dia em casa entretido com essas coisas.
O que até seria compreensível se fosse criança. Não era. Tinha 32 anos, estava casado há cinco e com um filho pequeno. Quem sustentava a casa era sua mulher, que, para isso, precisava manter dois empregos. Mulher reservada, trabalhava muito, sem se queixar. Um dia, porém, explodiu: foi quando ele usou o pouco dinheiro que restava do orçamento doméstico para comprar um sabre de luz. Você é um irresponsável, ela gritava:
- Mal temos o que vestir e o que comer e você gasta dinheiro nestas bobagens! Você não tem jeito, mesmo!
Sabre de luz na mão, ele ouvia, ressentido. Aquela mulher não o compreendia, não se dava conta de que "Guerra nas Estrelas" era a coisa mais importante na vida dele. Chegou a pensar em ir embora. Só não o fez por duas razões. Primeiro, porque não tinha para onde ir. Segundo, porque acabou dando-se conta de que a mulher não deixava de ter razão. De que lhe adiantava ganhar a guerra nas estrelas, se estava perdendo a guerra que, como marido e pai, deveria travar aqui na Terra? "Guerra nas Estrelas" deixara-o transtornado, estragara sua vida.
Precisava fazer alguma coisa. E aí lhe ocorreu assaltar um cinema. Com o que mataria dois coelhos com uma só cajadada (ou golpe de sabre de luz). Em primeiro lugar, estaria se vingando daquela diabólica arte que, no escuro das salas de projeção, corrompia corações e mentes. Ao mesmo tempo, arranjaria uma grana que, considerando as multidões atraídas pelo sucesso do filme, não deveria ser pouca.
Só que, para proceder ao assalto, precisaria estar disfarçado. Disfarçado como? Enquanto buscava uma resposta, seu olhar caiu sobre a fantasia de Darth Vader. Ali estava a resposta. Como Darth Vader assaltaria o cinema. E, depois do assalto ao cinema, outros se seguiriam. A mulher não se queixaria mais da falta de dinheiro. E ele poderia viver em paz, sonhando com o dia em que, numa nave espacial, seguiria viagem para uma galáxia muito, muito longínqüa.
Folha de São Paulo (São Paulo) 30/05/2005

Continente e conteúdo

Uma frase pronunciada pelo presidente Lula durante um jantar na embaixada do Brasil em Tóquio quase provocou outra tensão diplomática entre Brasil e Argentina. O principal jornal do país vizinho, o "Clarín", reproduziu informações da coluna do jornalista Fernando Rodrigues, na Folha, de que o presidente brasileiro disse a interlocutores que "temos de ter saco para aturar a Argentina". A frase, entretanto, foi traduzida pelo diário como "hay que tener bolas para bancar a los argentinos", o que pode ser interpretado não no sentido que tem a expressão em português, de ter paciência, mas sim algo parecido com "temos de ser machos para agüentar os argentinos". Folha Brasil, 31.05.2005
Como atesta qualquer tratado de embriologia, os testículos nascem em um recôndito lugar do abdome, mais precisamente junto aos rins. Ali poderiam ficar, desempenhando tranqüilamente sua função de gerar os espermatozóides que darão continuidade à espécie. Mas, por alguma razão, os testículos (e nisso, como no resto, embora sendo dois estão sempre de acordo) não se resignam com tal posição anatômica, por eles considerada incompatível com a dignidade de órgãos que, afinal, representam a masculinidade. Junto aos rins, junto às tripas? Jamais. De modo que trataram de migrar. Num movimento tipo invasões bárbaras, começaram a descer abdome abaixo. Queriam mais luz. Queriam visibilidade, queriam exposição. Queriam criar uma imagem própria, porque, como se sabe, imagem é tudo.
Para desagradável surpresa de ambos, contudo, não ficaram à mostra como acontece com os seios. Foram dar, literalmente, num "cul-de-sac", num fundo de saco, e, pior ainda, num engelhado saco de pele conhecido como escroto, palavra de óbvia conotação pejorativa.
A fúria de ambos foi enorme, e eles a despejaram no alvo mais próximo e mais inerme, exatamente o tal saco escrotal. Você é um saco, diziam sem cessar, você não passa de um medíocre desmancha-prazeres. O pobre escroto nada respondia. Estava acostumado a um papel subsidiário na anatomia; apenas obtinha algum consolo quando o seu dono -mas só quando não tinha o que fazer -coçava-o distraidamente (e nisso, ao contrário do que diziam os testículos, parecia obter certa satisfação).
De dentro do seu modesto invólucro, os testículos continuam se gabando: somos muito machos, repetem a todo instante, não temos paciência com os perdedores. E prometem que um dia virão à luz, proclamando ao mundo seu poder hegemônico sobre o continente.
Haja saco para aturar esses caras, pensa o escroto. Pensa, apenas. Saco, como se sabe, não fala.
Folha de São Paulo (São Paulo) 06/06/2005

Desempenho

"Reality show" testa performances sexuais. Dezenove pessoas têm suas performances sexuais testadas em busca de um prêmio de cerca de R$ 610 mil. Dos participantes, três homens são casados. Folha Online, 05.06.2005
Quando ela chegou em casa, às 10h da noite, o marido não estava. O que nela não despertou nenhuma suspeita; sabia que estava trabalhando. O emprego, modesto, exigia longas horas, uma obrigação que ele cumpria sem reclamar e que ela também tinha de aceitar. Mas nessa noite a ausência do cônjuge era até providencial. Ela queria assistir a um novo programa de TV e queria fazê-lo sozinha. Porque o novo programa, um "reality show", tinha como mote o desempenho sexual. Os anúncios garantiam que os pares fariam proezas incríveis na cama, animados pela perspectiva de um polpudo prêmio.
Era justamente isso que faltava ao casamento deles. Em matéria de sexo, o esposo era absolutamente rotineiro: papai-mamãe, e estamos conversados. Inovações, aventuras? Nem pensar. Para isso ela só podia contar com a imaginação e, agora, com o "reality show".
Que não a decepcionou. De fato, em matéria de desempenho, os casais enfiariam o Kama Sutra no bolso do colete, se estivessem de colete, claro. As mais incríveis posições, as mais audazes manobras. Ela chegava a gemer de desejo.
Havia um homem que era especialmente bom e que a direção do programa identificava apenas como o Senhor X -ele fizera questão do anonimato. Apresentava-se de máscara e com uma espécie de capa, mas isso em nada atrapalhava o seu desempenho, ao contrário: o cara era soberbo. E compreensivelmente não se identificava: seria perseguido por mulheres até na rua.
De repente ela deu um salto na cadeira. A câmera mostrava agora o Senhor X de costas, e em seu dorso ela via algo que conhecia muito bem: uma cicatriz de curioso formato. A cicatriz que resultara da drenagem de um abscesso na infância. Ela reconhecia a cicatriz, reconhecia as costas, reconhecia o homem: era seu marido.
Esperou-o chegar e nem se deu ao trabalho de fazer perguntas: começou logo a puteá-lo de cima a baixo. O argumento final reservara para o fim:
- Se pelo menos você guardasse um décimo dessas habilidades para mim! Mas não, nem isso mereço!
Ele ouvia em silêncio, impassível. Finalmente ela se calou, ofegante, e ele então começou a falar. Disse que sim, que aceitara participar do "reality show", como aliás participava em muitas coisas desse gênero: dali tiraria o dinheiro para ajudar nas despesas da casa. Uma pausa e aí veio a revelação surpreendente:
- Mas a grande aventura eu vivo em casa. Com você.
Ela não podia acreditar no que estava ouvindo: grande aventura, com ela? De que jeito? E ele então explicou: para ele, posições arrojadas, manobras inusitadas, tudo isso era rotina, coisa que lhe cansava e lhe dava dor na coluna. O que realmente lhe era gratificante, que o comovia até as lágrimas, era o papai-mamãe com a mulher. Uma grande, emocionante aventura.
Ela não sabe se este argumento é sincero ou não, verdadeiro ou não. Mas tem de reconhecer: foi, no mínimo, uma hábil manobra, um audaz posicionamento. Desempenho para esposa alguma botar defeito.

Folha de São Paulo (São Paulo) 13/06/2005

Os dilemas da Fortuna

Uma americana de 55 anos ganhou duas vezes na loteria no espaço de cinco meses no Estado da Pensilvânia -uma coincidência cuja chance de acontecer é de 1 em 419 milhões. Donna Goeppert ganhou US$ 1 milhão (R$ 2,43 milhões) em cada vez que foi premiada pela loteria da Pensilvânia. Folha Online, 16.06.2005
Dizem que um raio não cai duas vezes no mesmo lugar, mas a chance de acertar duas vezes na loteria não deve ser muito maior. Quando isso aconteceu, ela ficou simplesmente estarrecida, mesmo porque não era uma pessoa particularmente afortunada: ao contrário, ela e o marido levavam uma vida modesta, no interior, lutando com dificuldades. Agora, porém, tudo mudava: 1 milhão de dólares, e mais 1 milhão de dólares -duas vezes milionária ela podia pensar em se aposentar, em deixar de trabalhar, em passar o resto de seus dias gozando a vida.Não era o que pensava o marido.
Logo depois da notícia do prêmio ele ficara muito contente. Em seguida, porém, começou a se mostrar inquieto. Homem dado a certas especulações esotéricas, acreditava que aquilo não era acaso, mas sim um desígnio do Destino. Há um recado aí, repetia constantemente à mulher. Um claro recado, para ele: a mulher deveria apostar de novo. Quem tinha ganhado duas vezes seguramente ganharia uma terceira vez. Mais: ele passou a acreditar que a mulher, para quem aliás nunca dera muito bola, era uma criatura especial. Aquele tom meio esverdeado de sua pele, aqueles olhos esbugalhados, os cabelos que - por causa do curioso penteado - pareciam duas antenas, aquilo não apontaria para uma certa origem misteriosa? Não seria ela uma alienígena, uma Supermulher, deixada ainda bebê na maternidade do lugarejo, em lugar de outra menina qualquer? Ela deveria jogar na loteria, sim. Jogaria e ganharia. Mesmo porque, como ele deixava claro, não se tratava só de dinheiro. Ganhando três vezes na loteria ela deixaria de ser apenas uma pessoa de sorte, passaria a ser uma mulher abençoada, prodigiosa. E aí mil possibilidades surgiriam: ela poderia, por exemplo, dar início a uma nova seita (para a qual ele já tinha até um nome: a Falange dos Afortunados). Poderia fornecer franchising para videntes e adivinhos. Poderia começar uma carreira política, chegando, sem dúvida, à Presidência da República: quem deixaria de votar numa mulher capaz de prever o resultado de qualquer guerra?
Os argumentos do marido deixavam-na apreensiva. Por ela, nunca mais chegaria sequer perto de uma lotérica. Mas sabe que ele ainda dá as cartas. Não escapará, portanto: um dia terá de apostar de novo. Se isso for realmente inevitável, sabe o que fazer: usará seus 2 milhões de dólares para comprar bilhetes de loteria. Um deles forçosamente terá de ser premiado. O Destino não pode ser tão ruim assim.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/06/2005

Monkey Business

Pinturas de macaco alcançam R$ 61 mil. Três quadros feitos pelo chimpanzé Congo foram arrematados em leilão pelo norte- americano Howard Hong. Mundo, 22.06.2005
Ao saber da compra feita por Hong (Hong! Só Hong! Nem era o King Kong!), ele teve um ataque de fúria. Há anos pintava, há anos dedicava-se integralmente à arte -e não conseguia vender quadro algum, ainda que seus quadros fossem (como os de Congo, aliás) fortemente abstratos. É o fim da arte, disse à mulher:
- Até um chimpanzé vende quadros. Os verdadeiros artistas não contam, não têm vez. Para os macacos, dinheiro. Para os pintores como eu, uma banana. Banana podre, ainda por cima.
Mas aquilo acabou dando-lhe uma idéia. Porque também tinha um macaco em casa. Não um chimpanzé, para o qual não haveria espaço; seu macaco era um mico chamado Cafuá, um macaquinho pequeno e muito esperto, que chamava a atenção dos raros visitantes do ateliê. Na verdade, era muito mais conhecido como o dono do Cafuá do que como artista. Por que não tirar proveito disso? Por que não repetir o caso Congo?
Procurou um jornalista conhecido e contou uma história. Disse que, no dia anterior, ao chegar em casa, encontrara o mico macaqueando o dono: pincel e paleta nas mãos, pintava um quadro. Um quadro abstrato, naturalmente, mas que nada ficava a dever às obras do Congo. O jornalista, sem assunto, resolveu fazer uma matéria a respeito, com fotos de Cafuá e do quadro.
No dia seguinte choveram telefonemas no ateliê. Muitas pessoas, que sabiam da história do chimpanzé Congo, e acreditando num bom investimento, queriam comprar o quadro. Que foi vendido por uma boa quantia.
A partir daí ele não teve mãos a medir. Qualquer quadro que Cafuá supostamente pintasse tinha comprador. Mais que isso, uma galeria especializada organizou, em parceria com uma cadeia de pet shops, uma grande exposição chamada "Arte Macaca", que até foi levada a Miami, onde recebeu o título, mais conveniente, segundo o empresário americano que se encarregou da operação, de "Monkey Business", negócio de macaco.
O artista poderia ter mantido esta situação durante muito tempo, não fosse uma infeliz idéia que, numa tarde, lhe ocorreu. Resolveu dar pincel e tinta a Cafuá para ver se o macaco sabia mesmo pintar. Sem vacilar, o mico correu para uma tela e ali, em questão de horas, retratou seu dono ao estilo renascentista, com uma perícia e uma sensibilidade que deixariam Leonardo da Vinci boquiaberto.
O artista agora vive um grande dilema. Se mostrar o quadro, ninguém acreditará que a obra é de Cafuá. E se não o mostrar privará o mundo de um grande talento.
Poderia, claro, assumir ele próprio a autoria das obras; mas isso não seria justo para com o talentoso mico. E, de qualquer jeito, ninguém lhe daria importância -como importância alguma lhe haviam dado no passado. Só lhe resta alimentar Cafuá com as melhores bananas que encontra no super. E pedir-lhe desculpas diariamente.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/06/2005

Falso. Verdadeiro. Falso. Verdadeiro

Uma mulher pode até conseguir enganar seu parceiro fingindo um orgasmo, mas pesquisadores holandeses afirmam ter conseguido flagrar o falso clímax com a ajuda da tomografia computadorizada. Áreas ligadas a emoções ficam "desligadas" no orgasmo verdadeiro, mas ativas no falso. Folha Ciência, 21.06.2005
Estavam casados há mais de 20 anos, e nesses anos jamais -jamais!- ela tivera um orgasmo.Isso não queria dizer que o casamento fosse infeliz. Não era. Ela amava o marido, homem bom, compreensivo, carinhoso, que satisfazia suas vontades e lhe dera três filhos lindos. O único problema era aquele, do orgasmo. Problema de que ele, aliás, não se dava conta porque, na cama, a mulher era uma verdadeira artista. Fingia chegar ao clímax com uma perfeição de dar inveja a qualquer atriz de filme pornográfico. A verdade é que ela conhecia o orgasmo verdadeiro; experimentava-o com o amante, o dono de uma loja próxima à sua casa, com quem se encontrava uma vez por semana. Não eram encontros agradáveis; tratava-se de um homem grosseiro, brutal mesmo, dado a piadinhas de mau gosto e que, além disso, bebia. Mas continuavam juntos porque ela fazia questão do orgasmo.
Foi aí que leu no jornal a nota pedindo voluntários para a pesquisa. Um detalhe chamou-lhe a atenção: teriam preferência as mulheres capazes de fingir um orgasmo.
Decidiu ir até lá. Porque o fez, não saberia dizer. Talvez quisesse viver uma aventura diferente, diferente daquela que vivia com o amante, diferente daquela que vivia com o marido. Foi. Introduziram-na em um laboratório cheio de aparelhos e pediram-lhe que fingisse um orgasmo. Foi o que ela fez, impressionando os cientistas que nunca haviam visto um clímax tão realista. Depois, mostraram-lhe as tomografias de seu cérebro. Ela ficou impressionada com as áreas brilhantemente iluminadas que via ali. A que se devia tal fenômeno?
- O orgasmo pode ser falso - disse um dos pesquisadores, sorrindo. - Mas a emoção é verdadeira.
Ela saiu dali pensando naquelas palavras. Com que então, havia emoções verdadeiras, profundas no sexo que fazia com o marido. Era uma possibilidade que nunca lhe ocorrera.
Naquela noite o casal fez sexo. E, pela primeira vez em 20 anos, ela teve um orgasmo verdadeiro. Tão verdadeiro que, para espanto do marido, ela pôs-se a chorar convulsivamente.
É o ápice do amor. Mas há um problema: não sabe o que fazer com o amante. Se pudesse, ela o abandonaria. Mas ele já a ameaçou de morte se ela fizer isso.
Continuam se encontrando. Ela já não tem prazer algum, não tem orgasmo algum. Mas não perdeu a antiga habilidade: finge como ninguém. Em seu cérebro acendem-se luzes. Tristes, brilhantes luzes.
Folha de São Paulo (São Paulo) 04/07/2005

Emoções na balança

Acampamentos para jovens obesos se propagam nos EUA: por US$ 7.500, instituições prometem amparo emocional e reeducação alimentar. Folha Mundo, 3.07.2005
A princípio ela não queria ir para o acampamento de obesos. Sim, estava bem gordinha e sofria com isso, mas não tinha a menor esperança de melhorar. Além disso, achava que iriam rir dela. A mãe, contudo, insistiu:
- Você vai, sim. E eu tenho a certeza de que esse acampamento mudará sua vida.
Palavras que se revelaram proféticas. Porque o acampamento mudou mesmo a vida dela. Não no sentido que a mãe esperava, mas mudou. Algo inesperado aconteceu quando ela chegou ao local, um belo vale perto de um lago e próximo a altas montanhas.
Ela se apaixonou.
Apaixonou-se perdidamente por um rapaz chamado Peter. Peter, alto, forte e bonito, era o coordenador do acampamento. Muitas outras garotas estavam apaixonadas por ele, claro. Mas ela tinha certeza de que conquistaria o seu coração. Afinal de contas, podia ser obesa, mas não era feia. E era simpática, era inteligente, era culta...
Na primeira vez que ficaram a sós, declarou o seu amor. Ele, de maneira delicada mas firme, recusou a proposta amorosa. Explicou que aquilo poderia prejudicá-lo:
- Você vê, faz parte da propaganda de nosso acampamento prometer que as garotas ficarão esbeltas, com uma bela silhueta. Pela minha experiência, esse não será o seu caso: você dificilmente perderá peso. E namorar uma garota obesa comprometerá seriamente minha imagem.
Ela ficou tão chateada que abandonou o acampamento. Voltou para casa e, para consternação da mãe, passava os dias chorando. Perdeu o apetite, não comia mais nada. Resultado: emagreceu. Emagreceu espantosamente. Tornou-se esbelta, com uma bela silhueta.
Não tardou a arranjar um namorado, um rapaz alto, forte e bonito. Mas não está feliz. O que ela queria era vingar-se de Peter, humilhá-lo como fora humilhada. Chegou a traçar um plano para isso. Novamente se inscreveria no acampamento, novamente apareceria diante dele, agora com sua nova e elegante figura. E quando ele, arrependido, declarasse sua paixão, ela o rejeitaria.
Mas essa vingança não é possível. Por uma simples razão: as regras do acampamento excluem terminantemente as magras. Ela não foi sequer aceita na seleção prévia. Claro, sempre resta a possibilidade de engordar de novo. O atual namorado, que é fã de gordinhas, gostaria disso. Mas aí, mais uma vez, ela seria esnobada por um tal de Peter. Coisa que, na sua balança emocional, representaria um peso insuportável.
Folha de São Paulo (São Paulo) 11/07/2005

Divisão de tarefa

São mesmo os maridos que mais atrapalham a inserção da mulher no mercado de trabalho. Mesmo em tempos de igualdade entre os sexos, a divisão das tarefas ainda sobrecarrega as mulheres. Folha Cotidiano, 11.07.2005
Quando ela disse para o marido que seu sonho era ser empresária, ele caiu na gargalhada. Riu, riu até engasgar. Ora, faça-me o favor, disse, quando, ofegante, finalmente conseguiu conter o riso:
- Você, empresária? Você não dá para essas coisas, mulher. Você é humilde demais para isso. Seu lugar é em casa. Você cozinha muito bem, você é ótima na limpeza. Além disso, não esqueça: já estamos casados há três anos, está na hora de ter filhos. Eu sou antigo, sou metido a patriarca, quero família grande.
Ela não disse nada. O que poderia dizer? O marido era um autoritário, era do tipo falou-tá-falado. De modo que optou por ficar calada. Mas não desistiria da idéia.
Que era, basicamente, abrir uma pequena loja de roupa feminina num bairro próximo. Capital inicial não lhe faltaria; recebera de herança uma pequena soma que, ignorada pelo marido, continuava depositada no banco. Ajudada por uma amiga, foi em frente com seu plano. Abriu a loja. A amiga, na qualidade de gerente, tocava o negócio, mas quem supervisionava tudo era ela. Fazia-o sob os pretextos mais variados: médico, dentista, chá com amigas... O marido, felizmente, não desconfiava de nada.
Outros suspeitariam de um amante; não ele. Confio em minha mulher, dizia a quem quisesse ouvir, e com isso ela podia prosseguir em seu empreendimento. Que ia de vento em popa. Porque ela tinha um verdadeiro faro para moda, sabia detectar tendências. A loja cresceu extraordinariamente. Logo abriu uma filial, e depois uma segunda, e depois uma terceira, e em seguida começou a vender franchisings. Sempre anônima, sempre mantendo o seu modesto estilo de vida. Uma notícia de jornal até falava na "misteriosa senhora" que, nos bastidores, dirigia com fantástica eficiência uma cadeia de lojas. Notícia que o marido até comentou, verdade com certo despeito: de vez em quando as mulheres até funcionam como empresárias.
Já ele não ia tão bem de negócios. A sua loja, uma ferragem, começou a afundar. Atolado em dívidas, não teve outra solução senão pedir falência. Humilhado, contou para a mulher que agora teria de procurar um emprego.
Chegara o momento. No dia seguinte ela mostrou ao marido um anúncio: a cadeia de lojas procurava alguém experiente para o cargo de supervisor de vendas. Conseguiu convencê-lo de que aquela era a sua chance.
Ele foi lá. Entrevistaram-no, contrataram-no. E aí levaram-no para ser apresentado à chefe. Quando ele viu a mulher sentada no amplo escritório, teve uma dupla reação: de incrédula surpresa, naturalmente, e de fúria: então era você, você me enganou.
Ali mesmo pediu demissão. Que ela não aceitou. Contratou-o como diretor-presidente, com um polpudo salário. É verdade que ele não faz muita coisa. Mas dá ordens. E como, de vez em quando, a esposa ainda arruma a casa e passa o aspirador, sente que sua auto-estima está preservada. Afinal, a divisão de tarefas continua a ser feita da maneira como ele sempre quis.
Folha de São Paulo (São Paulo) 18/07/2005

A ponte

Pontes são símbolo de desperdício no país.Folha Cotidiano, 18.07.2005
A administração queria se consagrar com uma obra monumental, uma obra que fosse vista de longe, que passasse para a história do país como uma maravilha arquitetônica. Muitos projetos foram examinados, mas optou-se por uma ponte, uma grande e moderna ponte. Custou quase o orçamento inteiro, mas ao fim de dois anos estava pronta, aquela coisa gigantesca, com vários vãos e uma altura superior a 30 metros.
Só que não passava rio algum sob a ponte e isso de imediato começou a ser criticado pela oposição. "Não pode se dizer que muita água passará sob esta ponte", escreveu o líder oposicionista em artigo de jornal, "pela simples razão de que a ponte foi construída no seco". Reconhecendo o erro, a administração tratou de saná-lo. Um rio próximo teve seu curso desviado, de modo a passar sob a ponte. Os pescadores locais gostaram muito, porque podiam pescar da amurada, mas logo outro problema apareceu: rio já havia, mas nenhuma estrada chegava à ponte, nenhuma estrada saía dela. O líder oposicionista voltou à carga: "É como aquelas famosas pontes que unem o nada a coisa nenhuma". De novo, o erro foi reconhecido, e começou imediatamente a construção de uma estrada, que não era muita longa, mas tinha duas pistas, canteiro no meio e, claro, um pedágio. A estrada foi inaugurada com muita festa, mas já no dia seguinte um terceiro problema era trazido à baila: tanto ao norte como ao sul a estrada terminava abruptamente, no meio do deserto descampado. O líder oposicionista disse que não usaria a expressão "unindo o nada a coisa nenhuma", para não se repetir, mas não deixou de assinalar o absurdo. Diante disso, dois conjuntos habitacionais foram construídos, um em cada ponta da estrada, para serem entregues à população.
Só que ninguém foi morar ali. Afinal, não havia qualquer local de trabalho na região, nenhuma fábrica, nada. As casas acabaram sendo demolidas. A estrada, esburacada, desapareceu, engolida pelo mato. O rio, para desgosto dos pescadores, secou.
Mas a ponte, muito bem construída, continua no lugar. E agora, sim, tem uma função. Debaixo dela moram pelo menos umas dez famílias. Acham o lugar um pouco apertado, mas pelo menos não pegam chuva. E morar sob a ponte não deixa de ser romântico. Não tão romântico quanto certos sonhos grandiosos, mas romântico mesmo assim.
Folha de São Paulo (São Paulo) 25/07/2005

As estranhas vozes da fama

Cantor vende suas ações "antes da fama". Um jovem de origem indiana que mora em Londres conseguiu arrecadar dinheiro suficiente para dar o pontapé inicial em sua carreira ao vender ações de suas futuras royalties no site de leilões e vendas eBay. Shayan, de 27 anos, insiste que o esquema serviu para evitar a tradicional rota de envio de fitas de demonstração às gravadoras. "A coisa mais difícil é chamar a atenção das pessoas", disse. Em entrevista à BBC, o cantor contou que precisava de dinheiro para comercializar as suas músicas, que são "ótimas". Folha Online, 19.07.2005
Quando ouviu a história do cantor Shayan, ele achou que ali estava um exemplo a ser seguido. Também ele se considerava um bom cantor; também ele estava começando, e achava que não tinha tido chances suficentes. Falou com um amigo, promotor cultural, que se comprometeu a ajudá-lo. Traçaram o plano. Convidariam investidores para um espetáculo em que ele se apresentaria, interpretando canções de sua própria autoria e outras. Ao final, abririam uma subscrição para ações de seu próximo CD.
O amigo, que conhecia gente na mídia, conseguiu uma boa cobertura para o evento. E aí começaram a prepará-lo, em meio a uma ansiosa expectativa. O jovem cantor confessou a amigos que estava com um mau pressentimento. Não deu outra: na véspera do espetáculo acordou completamente afônico.
E agora? O que fazer? Suspender a apresentação seria um desastre; numa segunda vez não conseguiriam o apoio da mídia, e muito menos o de investidores. Mas então o promotor lembrou-se de um amigo que poderia quebrar o galho.
Esse homem tinha duas habilidades: em primeiro lugar era ventríloquo, ou seja, conseguia falar por outros (em geral um boneco, mas nada impediria que o fizesse também com um ser humano). Depois, era um razoável cantor. Já tinha até se apresentado em alguns shows.
Não havia alternativa: era aquilo ou nada, de modo que foram em frente. E a verdade é que a coisa funcionou. O rapaz apareceu frente ao público, disse algumas palavras (ou melhor, o ventríloquo disse algumas palavras por ele) e depois cantou (ou melhor, o cantor cantou por ele). Foi um sucesso. Os investidores aplaudiram, entusiasmados, subscreveram as ações e assim levantou-se a quantia necessária para o lançamento do CD, que está programado para breve.
Quanto ao ventríloquo, recebeu seu pagamento e continua fazendo seus espetáculos num pequeno teatro. Mas já está decidido: breve iniciará uma carreira como cantor. Um amigo, promotor cultural, comprometeu-se a ajudá-lo. Já traçaram o plano. Convidarão investidores para um espetáculo em que ele se apresentará, interpretando canções de sua própria autoria e outras. Ao final, abrirão uma subscrição para ações de um CD.
O único problema que pode ocorrer é uma rouquidão inesperada antes do show. Mas sempre existem ventríloquos para quebrar esse galho.
Folha de São Paulo (São Paulo) 01/08/2005

Casa de boneca

"Casa de boneca" abriga morador de rua. Os abrigos, de cerca de um metro e meio de altura, foram construídos por entidade assistencial de São Paulo. FOLHA Cotidiano, 02.08.2005
O luxuoso automóvel passou pelo local em regular velocidade, mas isso não impediu que a menina, sentada no banco traseiro, avistasse as duas pequenas casas azuis, com pouco mais de um metro e meio de altura. Curiosa, ordenou ao motorista que parasse, mas este não obedeceu:
- Seu pai mandou que eu levasse a senhorita para casa -disse, respeitoso, mas firme e é isso que vou fazer.
Ela entrou furiosa na luxuosa mansão e imediatamente foi dizendo aos pais: quero aquela casinha de boneca que vi lá perto do shopping.
O pai tentou dizer a ela que aquilo não era casinha de boneca, que casinha de boneca a gente compra em lojas de brinquedos e que, ademais, ela já tinha duas casinhas de boneca; mas foi inútil. A menina, mimada como sempre, insistia: queria aquela de boneca e nenhuma outra. O pai, suspirando, tomou o carro e foi até lá. No caminho, comprou uma pequena casa pré-fabricada, desmontável; com uma boa argumentação, conseguiu convencer o morador da casinha, um homem de seus cinqüenta anos, a fazer a troca, que aliás seria vantajosa.
Voltou para casa, trazendo a casinha azul. Mas aquilo não deixou a menina satisfeita. Ela queria o boneco.
- Que boneco? -perguntou o pai, surpreso.
- O boneco grande que estava dentro da casinha -replicou ela. - Pensa que não vi? Tinha, sim, um boneco aí dentro. Quero a casinha com o boneco.
O pai disse que não era um boneco, que era um homem de verdade. O que não serviu de argumento:
- Então quero o homem. Quero que ele fique morando aqui.
O pai ia dizer que aquilo era um absurdo, mas a filha simplesmente não admitia ser contrariada. Atirou-se no chão, chorando e gritando. Chorou e gritou tanto que ele não teve outra alternativa: tomou o carro e voltou para o local. Felizmente o homem ainda estava ali, terminando de montar a pequena casa pré-fabricada. Não foi muito difícil convencê-lo a fazer a mudança: ganharia um salário para não fazer nada, só ficar à vista da menina quando esta o quisesse.
A casinha azul foi instalada junto à piscina. O homem passa ali os dias, sentado à porta. De vez em quando varre o jardim e recolhe as folhas que caem na piscina. Não é obrigação dele. Mas precisa fazer alguma coisa, para se convencer que não virou um simples habitante de casa de boneca.
Folha de São Paulo (São Paulo) 08/08/2005

A Maior Mulher do Mundo

Maior calcinha do mundo ajuda a divulgar feira de lingerie. A Fevest (Feira de Lingerie de Nova Friburgo) decidiu chamar a atenção dos consumidores com uma lingerie nada discreta: uma calcinha gigante de 12 metros de largura por 9,5 metros de altura. Ela foi pendurada no centro de Nova Friburgo para divulgar o trabalho do pólo de moda íntima da região. Folha Online, 10.08.2005
Na rodinha de bar, a foto da calcinha gigante fez o maior sucesso. Isso é o sonho de qualquer fetichista, dizia um dos amigos, e outro perguntava:
- Vocês já pensaram quantos dólares dá para levar numa calcinha dessas? Esta vai ser a calcinha do "mensalão"!
Só Márcio mantinha-se em silêncio. Porque a calcinha mobilizava nele uma fantasia que o acompanhava desde a infância.
A Maior Mulher do Mundo.
Só a Maior Mulher do Mundo poderia usar uma calcinha daquelas. E que mulherão seria a Maior Mulher do Mundo! Suas dimensões explodiriam todos os padrões convencionais de beleza feminina. Para começar, seu corpo não seria apenas um corpo, seria um território que ele exploraria vagarosamente, com o deslumbramento de um astronauta chegando a um planeta desconhecido (e belíssimo). Percorreria o vale entre as coxas, caminharia pela enorme planície do ventre, chegaria aos seios suaves -colinas que ele escalaria até chegar ao ápice tão desejado, os delicados mamilos.
A Maior Mulher do Mundo seria uma grande amante, uma fêmea estuante de desejo. Com esta fêmea ele faria amor, entregando-se por completo ao ato, transformando-se, graças à sua pequena estatura (sim, Márcio era baixinho), no equivalente humano de um "dildo", de um objeto fálico, de um vibrador animado, não por pilhas comuns, mas por seu incontido desejo. Muito aplicado, faria com que ela chegasse ao orgasmo repetidamente, cada orgasmo equivalendo a um tremor de terra de sete e meio graus na escala Richter. A Maior Mulher do Mundo retribuiria sua paixão; não apenas o amaria, como o protegeria, brincaria com ele como se fosse um bonequinho. Aninhado em sua basta cabeleira, ele parafrasearia Napoleão chegando ao cume da pirâmide do Egito: "Do alto desta Mulher, séculos de paixão vos contemplam".
Os amigos notaram o arrebatamento dele, debocharam: bem que você gostaria de estar dentro daquela calcinha, Márcio. Ele respondeu com um sorriso amarelo, levantou-se, e foi para casa.
Onde encontrou sua mulher. Que não era a Maior Mulher do Mundo: tinha um metro e sessenta de altura. Mas era gordinha, comia bastante, e naquele momento estava fazendo exatamente isso, traçando um enorme prato de arroz, feijão e carne gordurosa.
- Isso mesmo -ele disse-, continue comendo desse jeito. Sabe o que você vai virar daqui a alguns tempos? Sabe? Você vai virar a maior mulher do mundo. Isso mesmo: a maior mulher do mundo.
E, tendo-se vingado da vida que não realizava seus sonhos, foi para o quarto dormir.
Folha de São Paulo (São Paulo) 15/08/2005

Personal

Terceirizar a vida privada. A lógica do mercado atinge a vida íntima: há um "personal" para praticamente qualquer atividade cotidiana. Folha Equilíbrio, 18.08. 2005
Ela já ouvira falar de "personal trainer", o professor de ginástica que atende individualmente. Também já ouvira falar de "personal dancer", "personal dieter", "personal shopper" (este, alguém que se encarrega de fazer compras). Mas ficou absolutamente fascinada quando uma amiga lhe falou do "personal husband", o marido personalizado. Era uma coisa da qual, a propósito, estava precisando: o marido, alto executivo de uma grande corporação, viajava muito; e, mesmo quando estava em casa, as relações entre ambos -depois de tantos anos de matrimônio- eram no máximo formais. Ela se entediava, passava longos períodos de tempo sozinha: os filhos, já adultos, moravam em outra cidade.
Cautelosamente, falou do assunto ao esposo; disse que gostaria de ter companhia, mas a companhia de uma pessoa que fizesse isso em caráter estritamente profissional. O homem, naquele momento absorto na leitura do jornal, não deu muita importância à solicitação. Vá em frente, disse. Ela foi em frente. Entrou em contato com a empresa que fornecia os profissionais e assim recebeu seu marido personalizado.
Era um homem de meia-idade, alto, elegante, bonito. E muito culto; no passado, tinha sido professor universitário, trabalho que deixara por causa dos baixos salários. Agora dedicava-se por completo a exercer a condição marital. A primeira coisa que fez, logo depois de se apresentar, foi entregar o contrato de prestação de serviços, minuciosamente descritos. Serviços que, entre parênteses, ele fazia questão de prestar com a maior competência e boa vontade, como ela constatou nas semanas que se seguiram. O "personal husband" vinha todos os dias; saíam para passear, para almoçar, iam ao teatro. Conversavam muito. Era um grande papo, ele, um homem versado numa imensa variedade de assuntos.
E ah, sim, sexo. Isso não estava previsto no contrato; como dissera a amiga, "personal husband" não era a mesma coisa que amante, mesmo porque amantes fazem exigências emocionais, amantes têm ciúmes -coisas absolutamente incompatíveis com uma relação essencialmente profissional. Se ela quisesse, claro, ele poderia prover isso também, mediante um acréscimo no pagamento. Mas ela não queria; pretendia apenas a companhia que o marido verdadeiro não lhe dava, e isso o homem provia muito bem.
A verdade, porém, é que ela se sentia curiosa: quem seria, afinal, aquele estranho personagem? Teria família, mulher, filhos? Ele nunca falava sobre si próprio (não estava no contrato), de modo que, para descobrir alguma coisa a respeito, ela resolveu segui-lo. Uma noite, quando ele saiu da casa em seu modesto carro, ela tomou um táxi e foi atrás. Andaram muito tempo, chegaram até um bairro distante. Diante de uma casa pequena, modesta, ele estacionou e entrou.
Do táxi, ela podia vê-lo, no living, ao lado da esposa, os dois diante da tevê. Não falavam. A mulher, um tipo comum, parecia resignada com sua condição - como ela própria estivera durante muito tempo.
Lá pelas tantas ele se levantou, saiu da sala; estava na hora de dormir, decerto, o dia seguinte seria de trabalho. A esposa ficou sentada, diante da tevê agora desligada, o olhar perdido.
Sem dúvida estava pensando num "personal husband".
Folha de São Paulo (São Paulo) 22/08/2005

Biocombustível

Cientistas de Cingapura criaram uma bateria que gera eletricidade a partir da urina. Folha Online, 17 de agosto de 2005.
Quando leram sobre a bateria inventada pelos cientistas de Cingapura, os quatro ficaram alvoroçados. Cientistas amadores, eles se reuniam há anos para discutir projetos e inventos que em geral nunca saíam do papel. Mas a idéia da bateria de urina parecia sensacional. Como disse um deles, o mais entusiasta do grupo, tal invento revolucionaria o nosso mundo: uma fonte de energia completamente alternativa que poderia figurar com destaque ao lado do biodiesel e do álcool. Seria também uma colaboração para o saneamento básico. Por último, e não menos importante do ponto de vista simbólico, recuperaria um produto do organismo sempre desprezado. "Sai na urina" era uma frase que ninguém mais diria. Lançaram-se, pois, ao trabalho.
A bateria de Cingapura na verdade era um microchip, para uso em equipamento médico miniaturizado. A bateria que eles pretendiam era outra, uma fonte de energia capaz de mover um carro elétrico, por exemplo, assim ajudando a acabar com a crise do petróleo. Depois de muita pesquisa e depois de muitos esforços conseguiram fabricar a tal bateria. Com uns 50 centímetros de altura e outros tantos de largura não era pequena; além disso, tinha acoplado um tanque onde seria depositada a urina que, através de uma reação química, produziria a eletricidade.
Os primeiros testes se revelaram satisfatórios e eles estavam muito contentes, mas aí se depararam com um problema. Como era de esperar, a bateria consumia urina. Mas não era pouca urina. Para mantê-la funcionando, os quatro tinham de fazer generosas contribuições, e mesmo assim não era suficiente. De modo que se viram diante de uma questão - como aumentar a produção de sua própria urina? Foi aí que um deles se lembrou da cerveja, da qual todos gostavam. Cerveja, como se sabe, faz urinar; e graças às enormes quantidades que tomavam, urinavam muito. Ficaram alegrinhos, também, mas isso só fazia aumentar o otimismo deles.
Logo se deram conta de que cerveja não era suficiente. Precisavam de mais urina. Há substâncias que fazem urinar, os diuréticos, mas aí eles teriam de correr a toda a hora para o banheiro e corriam o risco da desidratação. Isso sem falar na relação custo-benefício: com o que já tinham gasto em cerveja e com o que gastariam em diuréticos, provavelmente a bateria deixaria de ser rentável.
Acabaram abandonando o projeto. A bateria ainda está lá, no banheiro do escritório que eles partilham. Cada vez que um deles entra para fazer xixi, a geringonça solta umas faíscas. É, por assim dizer, uma manifestação de esperança, de confiança na imaginação criativa dos cientistas amadores.
Folha de São Paulo (São Paulo) 29/08/2005

Quero meu peso de volta

Justiça manda empresa indenizar funcionária chamada de "gordinha". O nome do trabalhador está incorporado ao seu patrimônio moral e, por isso, ele não pode ser chamado pelo chefe por um apelido pejorativo, segundo o entendimento dos juízes da 2ª Turma do Tribunal Regional do Trabalho da 2ª Região (São Paulo). Os juízes condenaram a empresa Control Tower Assessoria Empresarial Ltda. a pagar indenização de R$ 8.000 a uma ex-empregada chamada de "gordinha" pelo diretor da empresa. Folha Online, 29 de agosto de 2005.
"Senhor juiz: estou entrando na Justiça porque li a notícia sobre a funcionária que foi indenizada porque o diretor da empresa chamou-a de "gordinha". É que comigo aconteceu a mesma coisa, senhor juiz. Há cerca de dois anos fui contratada para trabalhar numa empresa aqui na capital. Parecia um bom emprego e eu estava muito animada. Entreguei-me às minhas tarefas, que não eram poucas, com a melhor das boas vontades. Devo dizer que sempre fui uma funcionária dedicada e nessa empresa pretendia ser mais dedicada ainda.
Infelizmente, senhor juiz, meu propósito foi frustrado. E foi frustrado por ninguém menos que o diretor da empresa, a pessoa que supostamente deveria me dar apoio. Lá pelas tantas ele começou a me chamar de "gordinha". Sei, este é um termo comum, e pode ser até carinhoso; eu tinha um namorado que só me chamava assim. Mas no caso desse diretor era diferente. Ele queria me ofender. Fazia comparações: dizia que eu era gorda como uma baleia, gorda como um elefante. Que no ônibus eu deveria ser um transtorno para a pessoa sentada a meu lado. E que se eu continuasse engordando acabaria pesando uma tonelada.
Senhor juiz, devo lhe dizer que reconheço: sou gordinha, mesmo. Tenho um 1,60 m e peso 75 quilos. Mas sempre fui gordinha. Desde criança. Na minha família -pai, mãe, cinco irmãos- todos eram magros. A única rechonchuda era eu. E eles me adoravam por causa disso. Todos me chamavam de "minha fofinha". Eu me sentia orgulhosa, eu me sentia amada. Por isso nunca dei importância quando outras pessoas chamavam a atenção para meu peso.
Mas diretor é diretor, senhor juiz. Diretor tem autoridade. Tanto aquele homem falou que acabou me incomodando. Já não podia me concentrar no trabalho, saía-me mal nas tarefas que ele me delegava. As brigas entre nós aumentaram e acabei pedindo demissão. Agora vejo que fui precipitada, senhor juiz. Deveria ter feito como a moça da notícia. Deveria ter entrado na Justiça e pedido uma indenização.
Porque aquele homem me prejudicou, senhor juiz. Aquele homem me prejudicou muito.
Desde que saí da empresa simplesmente perdi o apetite. Eu, que antes devorava um generoso prato de macarronada com a maior facilidade, agora tenho de fazer força para engolir um simples chá com torradas. Estou perdendo peso rapidamente e já sou considerada magra pelas minhas amigas. Uma delas até acha que eu estou sofrendo de anorexia nervosa. Se continuar assim, vou virar um palito.
E isso não é justo, senhor juiz. Eu sofri uma perda tanto na minha auto-estima quando na minha auto-imagem. Por isso estou acionando a empresa, senhor juiz, porque quero meu peso de volta. Ou então quero uma indenização. E que deve ser, se o senhor me permite a sugestão, proporcional à perda que tive: tantos quilos, tantos reais. Espero que meus argumentos pesem na balança da Justiça."
Folha de São Paulo (São Paulo) 05/09/2005

A mão no metrô

Metrô: Pesquisa aponta que 66% dos passageiros acham muito ruim ou ruim a prevenção contra as investidas nos vagões. As queixas femininas mais comuns envolvem as "encoxadas" e a "mão-boba". Folha Cotidiano, 05.09.2005
Assim que o metrô chegou ela preparou-se para incomodação. Porque o vagão estava cheio, completamente lotado, e ela já sabia o que a esperava tão logo embarcasse: sem demora, algum homem, ou vários homens, encostariam nela, tentando tirar proveito da situação. Mulher ainda jovem, bonita, estava sujeita a essas situações, que a deixavam indignada. Mas, como outras usuárias na mesma situação, resignava-se. Era, achava, o preço que tinha de pagar por ser pobre, por não ter carro, como outras colegas de escritório.
Pensou em não entrar, em esperar outro metrô mais vazio. Mas já era tarde, e ela precisava ir para casa. Num impulso, entrou, e imediatamente viu-se na clássica posição de sardinha em lata, imprensada entre corpos, vários deles masculinos. Só faltava a mão.
Que não tardou a se fazer presente. Aos poucos, suavemente, ela sentiu a pressão de dedos sobre seu corpo.
Mas, surpreendentemente, aquilo não a enojou, não a alarmou. Porque era diferente, o contato daquela mão. Não se tratava de uma "mão-boba"; não havia malícia naqueles dedos, não havia safadeza. Para começar, eles estavam em lugar neutro, não nas nádegas, não nas coxas, mas nas costas, as costas que ela tinha doloridas depois de um dia de árduo trabalho. E a mão não estava em busca de prazer, de sacanagem; estava simplesmente pousada, quieta. Como se dissesse estou em busca de contato humano, é só isso que eu quero.
Ela poderia olhar ao redor, tentar descobrir quem, daqueles homens e mulheres à sua volta, estava a tocá-la. Mas não queria fazer isso. A verdade é que a gentil mão não a incomodava. Pelo contrário, fazia com que lembrasse uma passagem na infância, o dia em que o pai a levara à escola pela primeira vez. Tinham também ido de metrô; ela estava assustada, chorosa. O pai então colocara-lhe a mão nas costas, como a ampará-la, dizendo qualquer coisa do tipo "não chore, a escola é boa, você vai gostar". E ela se acalmara, não tanto por causa das palavras, mas pelo contato da mão paterna. E era a mesma sensação que tinha agora: a sensação de amparo, de conforto.
Estava chegando, precisava descer. Como se houvesse percebido, a mão, discretamente, retirou-se de seu dorso. A porta se abriu e ela saiu do vagão. Ainda teve a tentação de olhar para trás, mas resistiu. Não queria associar nenhum dos rostos que ali estavam com a mão que a tocara. Queria, isto sim, guardar a lembrança dessa mão como uma entidade misteriosa que, de algum modo, a fizera viver uma estranha e perturbadora aventura.
Folha de São Paulo (São Paulo) 12/09/2005

Como vencer o jogo da corrupção

Corrupção na política vira jogo. Empresário lança "Escândalo!", que traz parlamentares como personagens. É um jogo recheado de fraudes e chantagens. Brasil, 15.09.2005
Um novo jogo está sendo lançado no país e, ao que tudo indica, logo terá muitos aficcionados. Não é fácil de disputar, mas está na ordem do dia. Aqui vão algumas dicas para aqueles que estão interessados. Veja como vencer o jogo da corrupção:
1. Posicione-se adequadamente na estrutura política. Para dirigir o tráfico de influências, é imprescindível estar por cima. Quanto maior a altura, maior o tombo? Talvez. Mas também quanto maior a altura, maiores as oportunidades.
2. Descoberto, negue. Negue com veemência, com convicção, com indignação, se possível. Fale em armação, fale em provas forjadas, fale até em conspiração. Descreva-se como vítima, como perseguido, como mártir.
3. Aperfeiçoe sua cara-de-pau. Você deve ter completo e absoluto domínio sobre seus músculos faciais. É preciso, por exemplo, olhar fixamente para a câmera de TV. Não pisque. Qualquer bater de pálpebras pode ser uma evidência contra você.
4. Crie suspense. Anuncie que você tem um documento secreto, sensacional -mas que só vai exibi-lo no momento adequado. Enquanto todos ficam aguardando o momento adequado, você aproveita o tempo para ganhar fôlego e pensar em algum outro truque.
5. Não confie em ninguém. A corrupção não gera amigos, gera sócios -e é uma sociedade transitória, pronta para ser desmanchada quando as tramóias vêm à luz.
6. Se nada mais der certo, parta para a solução extrema: defenda a corrupção. Isto mesmo: defenda a corrupção. Você dirá que para tanto é preciso uma boa dose de cinismo, mas às vezes o cinismo é a única alternativa que resta a quem está contra a parede. Sustente que a corrupção não passa da continuação dos negócios por outros meios, que é o único recurso contra a pesada burocracia estatal, que tantos problemas tem causado à economia. Descreva a corrupção como uma espécie de lubrificante social, criado exatamente para facilitar as coisas àqueles que têm o senso de oportunidade. Retorne ao argumento do "rouba mas faz", evocando políticos que enriqueceram ilicitamente mas que não deixavam de ser grandes empreendedores. Descreva a propina e a comissão como retribuição informal de serviços prestados, muitas vezes por pessoas cujos salários não estão à altura de seu talento e de sua esperteza. Pondere que no orçamento de uma obra que custa, digamos, R$ 100 milhões, 1 milhão a mais ou a menos não fará muita diferença; o importante é que a obra seja realizada (e inaugurada). Enfim, tenha convicção. E confie no inesperado. É um elemento sempre presente no jogo da corrupção.
Folha de São Paulo (São Paulo) 19/09/2005

O amor supera o calendário

Vovós tiram a roupa por hospital infantil. Doze senhoras decidem posar nuas em calendário para levantar recursos destinados a um hospital de câncer infantil. O grupo de voluntárias inspirou-se no filme "Garotas do Calendário", do diretor Nigel Cole, e decidiu tirar a roupa para levantar fundos para a instituição. Nuas e segurando flores, fizeram fotos para o calendário. Folha Cotidiano, 25.09.2005
Convidada por amigas para posar sem roupa para um calendário beneficente, dona Isadora hesitou muito. Educada numa tradição de severo moralismo, desaprovava fotos desse tipo, que considerava "baixaria". Além disso, aos 70 anos, não era exatamente um modelo desses que desfilam em passarela, embora conservasse ainda muitos traços de sua passada beleza e tivesse, graças à ginástica diária e a uma dieta controlada, um corpo até razoável para a idade.De outro lado, a causa era boa; tratava-se de ajudar um hospital especializado em câncer infantil, que precisava muito do dinheiro. Ao longo dos anos dona Isadora sempre participara com entusiasmo em campanhas desse tipo, mesmo que algumas, como a do calendário, fossem um tanto inusitadas, por assim dizer. O certo é que ninguém a recriminaria por sua atitude. O marido, que poderia fazê-lo - era um homem de rígida moral-, falecera há muitos anos, e os dois filhos moravam no exterior; dificilmente tomariam conhecimento do tal calendário. Mesmo que isso acontecesse, talvez até a apoiassem; eram jovens modernos, ousados mesmo. De modo que resolveu ir em frente, e no dia lá estava ela, sem roupa mas atrás de flores, posando para o fotógrafo. A princípio sentiu-se constrangida, mas lá pelas tantas estava até gostando, e foi muito sorridente que apareceu na foto.
O calendário foi um sucesso; muita gente o adquiriu. Então, um dia, dona Isadora recebeu um telefonema. Do outro lado, uma voz masculina cumprimentava-a pela foto:
- Vejo que você continua bela como sempre. Parabéns.
Era o Belmiro, o seu primeiro namorado. Haviam se conhecido no bairro em que moravam; tinham ambos 18 anos e por uns meses viveram uma tórrida paixão. Mas então o pai dele, militar, levara a família para o Norte, o que acabara por interromper o namoro. Por décadas não se tinham visto; agora, no entanto, Belmiro, de volta à cidade, por acaso comprara o calendário e, pressionado pela saudade, resolvera telefonar. Como Isadora, estava viúvo; e, como ela, recordava com saudades os tempos de namoro.
Estão morando juntos e vivendo muito felizes. Belmiro só fez uma exigência: Isadora jamais posará para um calendário de novo.
Folha de São Paulo (São Paulo) 03/10/2005

Em defesa da barba

Alemanha realiza encontro internacional de barbudos. Barbudos com visual exótico se reuniram em Berlim, na Alemanha, para participar do Campeonato Mundial de Barbas e Bigodes. Os pêlos faciais são bastante apreciados por alemães, tanto que o país tem a Federação Nacional dos Clubes de Barba, que reúne diversos grupos deste tipo. Em 1996, por exemplo, foi criado o Clube da Barba de Berlim, que tem como lema a frase "deixe a barba crescer". Este grupo tem 22 membros que se encontram uma vez por mês para discutir as melhores formas de cuidar de suas barbas e de organizar eventos. Folha Online, 1º de outubro de 2005.
Eles eram considerados por todos o casal ideal. Nunca brigavam, viviam na maior harmonia, estavam sempre rindo um para o outro e trocando carícias. Mas aí tudo mudou.De repente, ele resolveu deixar crescer a barba. Por que tomou essa decisão não estava bem claro. Parece que tinha encontrado o retrato de um bisavô, muito parecido com ele, e que usava uma bela barba negra. O exemplo o encorajou, e lá pelas tantas ele estava virando barbudo também. Não se tratava de um discreto cavanhaque, ou de uma bem cultivada barba. Não, era uma barba de patriarca, de eremita, uma barba longuíssima, que lhe chegava ao peito.
Muita gente estranhou. Os amigos, naturalmente, e também o diretor da loja de departamentos onde era chefe de seção: aquilo espantava os fregueses. Mas ninguém reclamou mais do que a esposa. Para começar, ela não gostava de homens barbudos; depois, queixava-se, era uma coisa desagradável, que lhe irritava a pele do rosto. Chegou a ameaçá-lo com uma greve de sexo se o marido não fosse ao barbeiro raspar a face.
Escusado dizer que nem as críticas nem as ameaças o convenceram. Estava simplesmente encantado com a barba, cuidava dela, penteava-a cuidadosamente; porque, segundo dizia, agora sim, tinha descoberto a sua verdadeira personalidade. E foi então que leu no jornal sobre o Campeonato Mundial de Barbas e Bigodes, a se realizar na Alemanha. De imediato, decidiu participar. Não tinha dúvidas de que sua barba seria a vencedora e que ele traria para o Brasil um grande título. Já sabia até que tipo de penteado faria, dando aos pêlos o formato de lanças guerreiras. Coisa para entusiasmar o júri.
Quando a esposa soube desse plano, ficou por conta. Já não bastava o vexame que ele dava na cidade, precisava ir para o exterior? Discutiram longamente, mas ele não quis nem saber: iria e pronto; já estava até com a passagem comprada.
Vendo que não conseguiria convencê-lo, ela partiu para a ação. Na noite antes da partida colocou um comprimido para dormir na comida dele, e enquanto o marido estava ferrado no sono, cortou-lhe a barba.
Mas ele foi assim mesmo. Com uma barba postiça, que era uma cópia exata de sua barba verdadeira. Não ganhou prêmio algum, mas voltou contente: pelo menos tinha reafirmado, perante o mundo e a mulher, o direito à barba.
Folha de São Paulo (São Paulo) 10/10/2005

Contra a pirataria

Dupla assalta joalheria e escolhe marcas de relógio para levar. Um dos ladrões abordou uma vendedora de uma joalheria que inspecionava a vitrine; o assaltante levantou sua blusa, mostrando uma arma à vendedora. Dentro da loja, outras vendedoras foram rendidas e obrigadas a recolher relógios das marcas Breitling, Omega e Mont Blanc da vitrine.Folha Online, 18 de outubro de 2005
Os dois assaltantes, um alto e robusto, outro baixo e magrinho, eram experientes e organizados. Sabiam exatamente as marcas de relógio que queriam; coisa fina, nada de despertadores baratos. Examinavam cada relógio que era trazido da vitrine pelas vendedoras, antes de colocá-los numa valise. Lá pelas tantas surgiu um problema. Olhando um caríssimo relógio Breitling, o alto e robusto, que aparentemente era o chefe, teve uma súbita suspeição:
- Acho que este aqui é falso.
Mostrou ao colega, que ficou em dúvida: podia ser falso ou não. Na dúvida chamaram a vendedora-chefe. Que ficou indignada:
- Falso, em nossa relojoaria? A loja mais famosa da cidade? Uma loja que está há 30 anos no ramo, que tem clientes famosos? Ora, façam-me o favor, amigos. Assalto, sim; ofensa, não. Levem tudo, mas nos respeitem.
Os assaltantes não se deixaram impressionar pela retórica. Afinal, como disse o baixinho, a pirataria campeava. Se CDs eram pirateados, por que não relógios, mercadoria mais valiosa e cobiçada? Queriam provas de que o Breitling era verdadeiro. A vendedora-chefe pediu licença, foi até o escritório e voltou com um documento escrito em inglês. - O que é isto, perguntou o alto.
- É um certificado de autenticidade. Acompanha o relógio.
Os dois miraram o papel com desconfiança. Não sabiam inglês; além disso, quem lhes garantia que o certificado de autenticidade era autêntico, e não uma falsificação? Resolveram convocar o dono da relojoaria para esclarecer a questão. A vendedora-chefe resistiu o quanto pôde, mas, com um revólver encostado no crânio, não teve outro jeito: ligou para o dono, que aliás morava ali perto, pediu que viesse para atender "dois clientes muito importantes". Vinte minutos depois o homem chegava, esbaforido. Apesar da visível perturbação das vendedoras, não desconfiou de nada, mesmo porque os assaltantes, bem vestidos, e com as armas agora ocultas, pareciam mesmo clientes, e clientes muito cordiais.
- Eu tenho este relógio Breitling -disse o alto- que estou pretendendo trocar. Queria sua valiosa opinião: é falso ou verdadeiro?
Para o dono da loja, um veterano no ramo, bastou um olhar: é falso, proclamou. E aí mostrou o relógio que tinha no pulso:
- Este, sim, é verdadeiro.
Escusado dizer que os assaltantes levaram o Breitling verdadeiro. E o fizeram com absoluta tranqüilidade. Deve-se confiar na palavra de quem entende do assunto.
Folha de São Paulo (São Paulo) 24/10/2005

Para mais ou para menos

Hoje, 45% dos brasileiros votariam em Serra no segundo turno e 41% em Lula, no limite do empate técnico -a margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos.Folha Brasil, 23 de outubro de 2005
O estatístico acordou e, como sempre o fazia, espiou pela a janela. Céu nublado. Deveria levar o guarda-chuva? Com base em sua experiência pregressa, avaliou a possibilidade de chuva em 38%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais, para mais ou para menos. Decidiu não levar o guarda-chuva, mesmo porque já havia esquecido três ou quatro no escritório.
A mulher dormia ainda e ele decidiu não acordá-la; professora universitária, ela tinha ficado até a meia-noite corrigindo trabalhos. Merecia o descanso. E de repente uma pergunta lhe ocorreu: será que ainda se amavam? Qual era a possibilidade de que isso acontecesse depois de 15 anos, três meses e oito dias de casamento, depois de dois filhos, um com 13 anos, seis meses e sete dias, outro com dez anos, dois meses e 20 dias? Poderia arriscar uma cifra, mas decidiu não fazê-lo, mesmo porque estava atrasado. Engoliu rapidamente o café (frio: cerca de 32 graus, concluiu, e não costumava errar: sua chance de acertar a temperatura dos líquidos era de cerca de 91%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos). Desceu para a garagem do prédio e entrou no carro, um velho Gol. O motor não quis pegar e por um momento ele temeu que o automóvel o deixasse na mão. Mas as chances de que isso acontecesse eram de apenas 12%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e logo ele estava no trânsito, congestionado como sempre. Estimou a sua chance de chegar no horário em 72%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. De fato, às nove em ponto estava sentando na sua mesa.
Tinha várias pesquisas para examinar naquele dia. As chances de uma marca de sabão ser preferida em relação a outra, as chances de um candidato a presidência de empresa ser eleito em relação a outro. Um trabalho a que estava habituado e que em geral transcorria com facilidade; as chances de concluir a análise de uma pesquisa em duas horas e 38 minutos eram de 83%, com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. O fato, porém, é que uma pergunta o atormentava: será que ainda amava a esposa? Na semana anterior a empresa havia admitido uma nova estatística, moça simpática e linda que fizera balançar o seu coração.
Naquele momento o telefone tocou. Era a mulher: só queria dizer que o amava. E ele, jubiloso, concluiu que também a amava. As chances eram de 100%. Com uma margem de erro de dois pontos percentuais para mais, só para mais.
Folha de São Paulo (São Paulo) 31/10/2005

A ópera dos camundongos

Camundongo pode cantar, afirma estudo. Os camundongos machos se põem a vocalizar quando as fêmeas estão presentes. Emitem melodias relativamente complexas, que parecem variar de indivíduo para indivíduo. Folha Ciência, 1º de novembro de 2005
Tão logo constatou-se a surpreendente habilidade dos roedores, foi organizada - mediante a colaboração de cientistas e músicos - uma espécie de companhia lírica, formada só de ratos de laboratório. E o espetáculo que apresentam tem feito sucesso no mundo inteiro. O mesmo sucesso que faziam Mickey e Minnie nos velhos tempos.
Trata-se de uma ópera em três atos. Depois da abertura, surge no pequeno palco o personagem principal, o jovem Pancrácio, vivido por um elegante camundongo branco. Pancrácio entoa a bela ária "Por um Pedaço de Queijo". O título, aliás, é um pouco enganador; pensamos que o jovem está atrás do alimento classicamente preferido pela rataria, mas o que em verdade ele nos diz é que "...Não há queijo, por maior que seja seu calórico valor/ que possa ser comparado/ às delícias do amor". Pancrácio está apaixonado por Lucinda, uma linda e meiga ratinha. Que corresponde por inteiro à sua paixão: do balcão do palácio, ela responde com a canção "O Focinho do Meu Amado É a Imagem da Beleza".
Este romance, porém, encontra um obstáculo. Dom Ratone, o tirânico pai de Lucinda, não gosta de Pancrácio, que é de origem humilde. Quer que a filha case com alguém da mais alta estirpe murina; para isto, contudo, é preciso acabar com a paixão dos jovens. Dom Ratone chama seus asseclas e determina-lhes que espalhem ratoeiras ao redor do palácio, para assim capturar aquele que considera como intruso. O feitiço vira contra o feiticeiro. Inadvertidamente o próprio Dom Ratone cai em uma das armadilhas. Ali corre risco de vida, porque os camponeses da região estão determinados a exterminá-lo: Dom Ratone é um conhecido assaltante de celeiros. Um homem o avista e corre em direção à ratoeira para liquidar o bicho -mas no último momento Pancrácio aparece e consegue salvar o pai de sua amada. Arrependido, Dom Ratone concede-lhe a mão (ou a pata, melhor dizendo) de sua filha e a ópera termina com o belo coral "Como É Belo o Amor dos Camundongos".
Como foi dito, o espetáculo tem atraído enorme público. Mas há um problema: cada vez que aparece um gato na platéia a companhia lírica inteira desaparece do palco. E aí o jeito é devolver os ingressos para o público.
Folha de São Paulo (São Paulo) 07/11/2005

O carro com paixão

Garagem na sala. Pode até parecer loucura, mas alguns motoristas cobiçam tanto um veículo que, quando conseguem comprá-lo, colocam-no dentro de casa. Classificados/Veículos, 6 de novembro de 2005
A paixonado por carros ele era, e desde criança. Sabia tudo sobre automóveis antigos. O Ford modelo A? Dizia em que ano havia sido projetado, quantos automóveis haviam sido vendidos na primeira leva. O Oldsmobile Ninety-Eigth 1957? Descrevia a grade do motor, o painel, o estofamento. O Chevrolet 1937? Sabia até a potência do motor e onde, exatamente, ficava o botão do arranque.
Se pudesse, ele se tornaria colecionador. Compraria lendários modelos, levaria para sua casa, montaria uma exposição permanente. Mas isso não podia fazer. Em primeiro lugar, porque não tinha dinheiro. Auxiliar de escritório, mal ganhava para sustentar a si próprio e à mulher. Em segundo lugar, não tinha espaço para tais carrões: morava numa casinha de subúrbio, sem garagem, sem quintal.
Mas aí o destino interveio. Através de um amigo ficou sabendo do falecimento de um famoso colecionador - cuja esposa, que detestava a paixão do marido, estava se desembaraçando dos carros por preços relativamente acessíveis. Esperançoso, foi até lá. Mas chegou tarde: todos os antigos modelos haviam sido comprados. Com exceção de uma enorme limusine, daquelas usadas em Nova York para transportar celebridades e que ninguém comprara, exatamente por causa do tamanho.
- Sabe de uma coisa? - disse a senhora. - Se você quiser, pode levar esse trambolho de graça. Já estou farta dessa coisa.
Quase sem acreditar no que ouvia, ele entrou na limusine e deu a partida. A mulher abanou para ele e entrou na casa, aliás um palacete. Tripulando o carrão (e chamando a atenção de todo mundo) foi para casa.
A mulher se desesperou. Onde colocariam aquilo? Dentro de casa, disse ele. Naquele fim de semana demoliu a parede da frente, introduziu a limusine no recesso do lar e tornou a edificar a parede. Mas o veículo era tão grande que tiveram de retirar todos os móveis da sala-quarto, inclusive a cama. O que não seria um problema: ele deu o jeito de transformar a limusine em quarto e em sala. A esposa, que nunca reclamava de nada, aceitou o arranjo. E, assim, realizaram um sonho dele: moravam num automóvel, aliás com bastante conforto.
Poderiam ter sido felizes para todo o sempre, se não fosse o mecânico que ele chamou para consertar um pequeno defeito no carro. A mulher se apaixonou pelo homem, aliás muito bonito, e fugiu com ele.
O colecionador viu os dois saindo, ela de mala na mão. Pensou em ir atrás deles, na limusine. Mas para isso teria de usar o carrão para demolir a parede da frente. E ele jamais arranharia uma pintura tão bem conservada.
Folha de São Paulo (São Paulo) 14/11/2005

Prato raro

Uma trufa branca foi vendida por 95 mil euros (R$ 240 mil) em um leilão na Itália. A trufa branca é um tipo de cogumelo raro que cresce abaixo da superfície e é muito valorizada por gourmets do mundo inteiro. Foi adquirida pelo telefone por um comprador em Hong Kong. Folha Online, 14 de novembro de 2005
Depois de insistentes pedidos, o comprador da trufa finalmente concordou em saborear a iguaria em público. O salão de um refinado restaurante foi locado especialmente para isso; no dia, diante de convidados especiais e de jornalistas, o homem tomou assento, sozinho, à mesa onde faria a tão esperada refeição.
Antes que esta fosse servida, colocou-se à disposição da mídia para perguntas. Estas vieram em rápida sucessão, e a todas o anfitrião respondia gentilmente; finalmente, um repórter mais contestador perguntou-lhe como se sentia depois de ter gasto na trufa uma quantia que poderia sustentar várias famílias por um longo período, na África ou na América do Sul.
Outro talvez se irritasse com a questão, mas o homem, um conhecido milionário, apenas sorriu. Disse que um prato famoso equivale a uma obra de arte. Se outros podem pagar fortunas por quadros ou esculturas, argumentou, eu também posso gastar o dinheiro, que afinal é meu, numa lendária trufa branca. O repórter quis prosseguir no debate, mas o mestre-de-cerimônias anunciou que a bandeja estava sendo trazida e que a histórica refeição teria início. Outras perguntas ficariam para o final.
Um garçom de luvas brancas trouxe uma travessa de prata. Ali estava a famosa trufa, uma espécie de massa branca, informe. Antes de começar a refeição, o milionário fez um pequeno discurso. Contou que era filho de gente muito pobre e que, com muito trabalho e persistência, tinha conseguido subir na vida. A trufa que estava diante dele era o símbolo de seu triunfo. Nunca tinha comido aquilo, mas sempre ouvira dizer que as trufas estavam para a culinária como os diamantes para as pedras preciosas. Aquele prato era, portanto, o ápice de seu triunfo, que agora seria presenciado por todos. Educadamente, perguntou se alguém estava servido. Todos agradeceram e ele, diante das lentes dos fotógrafos e dos cinegrafistas, empunhou o garfo e a faca, ambos de prata. Cortou um pequeno pedaço da trufa, levou-o à boca e por uns segundos mastigou-o concentradamente, todos ao redor observando-o com ansiedade.
E aí o inesperado: o homem fez uma careta e cuspiu no prato os restos de trufa.
- Que coisa ruim! -gemeu. - Nunca provei comida pior em toda minha vida!
Voltou-se para o garçom:
- Faz favor, traz um cachorro-quente e um refrigerante diet.
E antes que o homem se afastasse para atender ao pedido, completou:
- O cachorro com bastante mostarda.
Folha de São Paulo (São Paulo) 21/11/2005

Namoro e vestibular

Namorados disputam vaga na USP. Fuvest leva casais a testarem não só o conhecimento mas também sua relação afetiva. Fovest, 22 de novembro de 2005.
Esta história aconteceu há muito tempo, numa época em que a fiscalização da prova não era muito rigorosa. E só porque não era rigorosa que a história pôde acontecer.
Júlio e Francesca foram fazer vestibular para medicina. Eles eram namorados, amavam-se muito e, porque se amavam, tinham decidido seguir a mesma profissão, que ambos, aliás, admiravam muito. Naturalmente, estudaram juntos para o exame; mas aí havia uma diferença. Francesca, que era inteligente, aprendia as coisas com facilidade. Júlio, que tinha um raciocínio mais lento, não conseguia acompanhá-la. Mas, afinal, eram namorados e Francesca tratava de ajudá-lo como podia, garantindo que no fim tudo correria bem e que seriam ambos aprovados.
Veio o dia da prova, realizada no salão nobre da faculdade de medicina local, que funcionava num antigo e majestoso prédio. O local não era grande e as mesas não ficavam muito separadas. Júlio e Francesca sentaram-se juntos para realizar a primeira prova, que era então a de química. Foram distribuídas as questões. Todos puseram-se a trabalhar.
Júlio estava apavorado. Ele não sabia nada do que fora perguntado. Era como se o conhecimento tivesse sumido de repente de sua cabeça. Notou então que o único fiscal da prova olhava distraidamente pela janela. Aproveitou e, em voz baixa, perguntou a Francesca qual era a resposta da primeira questão. Sem nem sequer olhá-lo, ela respondeu, em tom baixo, mas firme, que colar no vestibular era proibido.
Júlio não podia acreditar no que estava ouvindo. Francesca, a sua Francesca, negava-se a ajudá-lo naquele instante de angústia? Aquilo representava um duplo choque e ele ficou ali, imóvel, atarantado, sem saber o que fazer ou o que pensar.
Ao lado dele estava sentada Luciana. Amiga de ambos, ela nutria por Júlio uma paixão secreta. Percebendo o que acontecia, e num impulso, sussurrou ao rapaz a resposta da primeira questão. E depois a resposta da segunda, e a resposta da terceira.
Júlio e Francesca foram aprovados, Luciana não -muito boa em química, ela era fraca em física, e este exame acabou por excluí-la. Seu único consolo era ter ajudado o amado.
Júlio e Francesca formaram-se há vários anos. Ambos são cirurgiões. Ah, sim, e estão casados. O trabalho no campo operatório acabou por reaproximá-los. São muito felizes. E nunca mencionam o dia em que fizeram o exame de química no vestibular.
Folha de São Paulo (São Paulo) 28/11/2005

Anjos fumantes

Mulher tenta abrir porta de avião durante vôo para fumar. Uma francesa admitiu em um tribunal da Austrália ter tentado abrir a porta de um avião em pleno vôo para fumar um cigarro do lado de fora. A mulher de 34 anos, que tem medo de voar de avião, havia bebido álcool e tomado remédio para dormir antes do vôo entre Hong Kong e Brisbane, na Austrália. Foi vista andando em direção à porta do avião da Cathay Pacific com um cigarro e um isqueiro na mão. Começou a tentar abrir a saída de emergência quando foi impedida por uma aeromoça. Folha Online, 21 de novembro de 2005
Ao juiz ela contou que era fumante há muito tempo, desde criança. E fumante contumaz, dessas que não podem ficar sem cigarro mais de uma hora ou duas, sob pena de se sentirem mal. Principalmente num vôo -se havia coisa da qual tinha medo, era viajar de avião. Mas fumar em aeronaves não é permitido. Como resolver o problema?
Optou por dormir, com a esperança de que, ao acordar, já tivesse chegado ao destino -e aí a primeira coisa que faria era acender o seu cigarro. De fato, chegou a conciliar o sono, mas duas horas depois acordou, trêmula, com uma vontade irresistível de fumar. Olhou ao redor: todo mundo dormindo. E se acendesse disfarçadamente um cigarro? Movida por um impulso incontrolável, sacou o maço do bolso. Nesse momento, e sem querer, espiou pela janela. E aí viu aquela cena incrível.
A noite estava belíssima. Céu claro, com poucas e redondas nuvens. Numa delas, iluminada pela lua esplêndida, estavam sentados quatro anjos. Ela arregalou os olhos. Anjos? Sim, eram anjos. Não anjinhos rechonchudos, querubins; não, anjos adultos, dois deles com barba. Vestiam alvas túnicas, calçavam sandálias. E os quatro estavam fumando.
Ah, que inveja ela sentiu. Os quatro fumando, sem nenhum problema. Mais: os quatro abanando-lhe amistosamente. Num impulso, ela mostrou-lhes o maço de cigarros e o isqueiro, como que a dizer: eu aqui também posso fumar. Mas então um dos anjos ergueu um cartaz que dizia: "De acordo com a disposição das autoridades, o fumo é proibido em aeronaves". Com o que ela se deu conta: eles só podiam fumar porque estavam ao ar livre, porque não estavam transformando pessoa alguma em fumante passivo. Que inveja dos quatro anjos. Que inveja. Foi tamanha a inveja que ela, num impulso, levantou-se e dirigiu-se à saída de emergência situada ali perto. Era uma coisa complicada de abrir, aquela porta, mas ela já estava quase conseguindo quando foi impedida pela aeromoça. Que, nervosa, lhe perguntou o que estava fazendo.
Vou dar uma saidinha para fumar com os anjos, ela ia dizer, mas, nesse momento, espiando pela janela, viu que não havia anjo algum sobre a nuvem. Deu-se conta de que ninguém acreditaria em sua história. Anjos aparecendo para uma passageira? Na classe econômica? Ninguém acreditaria.
Folha de São Paulo (São Paulo) 05/12/2005

Homem não chora

Peruana finge ser homem e fica em prisão masculina na Argentina. Carla Aguilar, imigrante ilegal, foi presa por agentes argentinos. Ela disse que era homem e as autoridades acreditaram. O mais curioso é que Carla passou por vários exames e nenhum funcionário descobriu seu sexo verdadeiro, até que, um mês depois, uma ligação anônima alertou a Procuradoria Penitenciária. Folha Online, 5 de dezembro de 2005
A verdade é que não lhe foi difícil passar por homem. Tinha cabelo curto, feições enérgicas, uma voz grave, seios pequenos. Além disso, tinha o cuidado de colocar dentro da calça justa um pano, de modo a formar uma saliência que passava por respeitável genitália. Todas as manhãs fazia a barba, ou fingia fazer a barba. Os poucos detentos que se aproximavam, movidos pela curiosidade ou por outra intenção qualquer, eram prontamente repelidos: exímia lutadora de caratê, sabia aplicar golpes demolidores. Passou a ser temida e respeitada.
Mas não queria só ser temida e respeitada. Queria fazer amizades. Queria namorar. Namorar, sim. Apesar da aparência, era uma fêmea insaciável. E agora ali estava, no meio de tantos homens, vários dos quais bonitos -mas a eles não se poderia entregar.
Havia um rapaz que a atraía particularmente. Chamava-se Celso, era esbelto, elegante, com feições delicadas. Um tipo feminino, quase. O que, para ele, era um problema. Outros assediavam-no constantemente e a eles o pobre Celso, tipo franzino, não poderia resistir.
Quem o salvava era ela, a mulher que passava por homem. Depois de surrar sem piedade três ou quatro atrevidos, espalhou-se na prisão a notícia de que Celso lhe pertencia. E, de fato, desenvolveu-se entre os dois uma forte amizade, tão forte que, a certa altura, ela resolveu contar-lhe o segredo que tinha guardado tão cuidadosamente. Fez isso num dia em que ambos arrumavam o almoxarifado da prisão. Ali estavam, sozinhos, e certamente não seriam importunados. Não era o melhor cenário para uma declaração de amor, mas era o cenário possível. Sou mulher, ela disse, amo você, quero ser sua.
A reação dele foi extraordinária. Arregalou os olhos, apavorado, e antes que ela pudesse fazer alguma coisa, antes que tirasse a roupa, como pretendia, ele fugiu dali. Obviamente não acreditara na confissão. Obviamente acha que seria violentado, como o fora mais de uma vez.
No dia seguinte Celso foi, graças a uma ordem judicial, libertado. Da janelinha de sua cela ela o viu sair, feliz, abraçado à sua namorada de muitos anos. Quase derramou sentidas lágrimas. Só não o fez porque homem não chora. Sobretudo na prisão.
Folha de São Paulo (São Paulo) 12/12/2005

Desistindo de Natal

Segundo pesquisa do instituto Ipsos, encomendada pela Associação Comercial de São Paulo, 32% dos consumidores não pretendem fazer compras neste Natal. Folha Dinheiro, 9 de dezembro de 2005
"Prezado Papai Noel: há uma semana eu lhe mandei uma carta com a lista dos meus pedidos para o Natal. Agora estou mandando esta outra carta para dizer que mudei de idéia. Não vou querer nada. Ontem o papai nos avisou que não tem dinheiro para as compras do fim de ano. Papai está desempregado há mais de um ano. A gente mora numa cidade pequena do interior, muito pobre. No Natal passado, o prefeito anunciou que tinha um presente para a população: uma grande fábrica viria se instalar aqui, dando emprego para muitas pessoas. Meu pai ficou animado. Ele é um homem trabalhador, sabe fazer muitas coisas e achou que com isso o nosso problema estaria resolvido. Agora, porém, o prefeito teve de dizer que a fábrica não vem mais. Não entendo dessas coisas, mas parece que a situação está difícil.
Portanto, Papai Noel, peço-lhe desculpas se o senhor já encomendou as coisas, mas infelizmente vou ter de desistir. Para começar, não quero aquela bonita árvore de Natal de que lhe falei -até mandei um desenho, lembra? Nada de pinheirinho, nada de luzinhas, nada de bolinhas coloridas. A verdade, Papai Noel, é que essas coisas só gastam espaço e, como disse a mamãe, gastam muita luz.
E nada de ceia de Natal, Papai Noel. Nada de peru. Como eu lhe disse, nunca comi peru na minha vida, mas acho que não vai me fazer falta. Se tivesse peru, eu comeria tanto que decerto passaria mal. Portanto, nada de peru. Aliás, se a gente tiver comida na mesa, já será uma grande coisa.
Nada de presentes, Papai Noel. Não quero mais aquela bicicleta com a qual sonho há tanto tempo. Bicicletas custam caro. E além disso é uma coisa perigosa. O cara pode cair, pode ser atropelado por um carro... Nada de bicicleta.
Nada de DVD, Papai Noel. Afinal, a gente já tem uma TV (verdade que de momento ela está estragada e não temos dinheiro para mandar consertar), mas DVD não é coisa tão urgente assim.
Também quero desistir da roupa nova que lhe pedi e dos sapatos. A minha roupa velha ainda está muito boa, e a mamãe vai fazer os remendos nos rasgões. E sapato sempre pode dar problema: às vezes ficam apertados, às vezes caem do pé... Prefiro continuar com meus tênis e o meu chinelo de dedo.
Ou seja: nada de Natal, Papai Noel. Para mim, nada de Natal. Agora, se o senhor for mesmo bonzinho e quiser nos dar algum presente, arranje um emprego para o meu pai. Ele ficará muito grato e nós também. Desejo ao senhor um Feliz Natal e um próspero Ano Novo."
Folha de São Paulo (São Paulo) 19/12/2005

Sorrir para a vida

"A Organização Mundial da Saúde define saúde como 'o estado do mais completo bem-estar físico, mental e social, e não apenas a ausência de enfermidade'. Os veteranos da área costumam dizer que essa é, na realidade, a definição de felicidade.
Pode ser. Mas a verdade é que os estudos científicos apontam, cada vez mais, para uma estreita relação entre saúde e a condição de ser feliz. O que não é de surpreender. No mundo em que vivemos, as doenças dependem muito de nosso estilo de vida.
Estilo de vida que, por sua vez, é resultado de uma cultura que nos pressiona a consumir mais, a comer mais, a ficar sentados diante da tela da TV, a fumar, a consumir álcool e drogas. Tudo isso, paradoxalmente, traduz-se em insatisfação, porque esse tipo de apelo não tem limites. A insatisfação leva à tristeza, à depressão, associada com várias doenças, como diabetes ou acidente vascular cerebral.
Um estudo realizado na Universidade do Texas, em Galveston, com cerca de 4 mil pacientes, mostrou que pessoas idosas que se consideram felizes têm menor probabilidade de ser vítimas de acidente vascular cerebral. Outro estudo, desta vez na Universidade de Pittsburgh, mostrou que mulheres deprimidas estão mais propensas a ter o endurecimento das artérias, conhecido como aterosclerose.
Pergunta: por que isso acontece? É a felicidade uma poção mágica, uma panacéia contra doenças? Claro que não.
O que acontece é que as pessoas infelizes tendem a adotar, como compensação, o estilo de vida acima citado, que, este sim, causa doença.
O inverso também é verdadeiro: se felicidade traz saúde, saúde também traz felicidade. Um estudo realizado na Holanda, em 2004, com pessoas de 18 anos de idade ou mais, procurou correlacionar felicidade com vários fatores: renda, situação social e outros. A saúde ganha longe.
Um quarto das pessoas que não se consideram sadias também não se considera feliz; mas, das pessoas sadias, apenas 8% declaram-se infelizes.
Quanto ao dinheiro, faz diferença nos países muito pobres, porque aí pode ser condição de sobrevivência. Mas, quanto mais afluente é o país, menos pesa a renda em termos de felicidade. Um levantamento feito com os cem americanos mais ricos mostrou que eles são apenas um pouco mais felizes que a média da população.
'Sorria' pode ser, portanto, um bom conselho, na medida em que o sorriso, atributo caracteristicamente humano, possa ser um indicador do sentimento de felicidade.
A propósito, recentemente pesquisadores da Universidade de Amsterdã examinaram o famoso sorriso da Mona Lisa, de Leonardo da Vinci, com a ajuda de um programa de computador capaz de correlacionar expressões faciais com emoções e sentimentos. Resultado: 83% do sorriso resulta de felicidade (e 9% de desdém - afinal, Mona Lisa também tem direito a desdenhar).
Mas a conquista da felicidade não depende só da pessoa. Se a angústia é demasiada, a ajuda profissional pode ser necessária. E todos têm direito a ela.
Razão tem a Constituição americana de 1776, quando inclui, entre os direitos fundamentais, o pursuit of happiness, a busca da felicidade.
Se temos direito à saúde - e a Constituição brasileira de 1988 isso nos garante -, por que não teríamos direito à felicidade - ao sorriso?"
Revista Época (Rio de Janeiro) 2/1/2006

O segundo dia do novo ano

2 de janeiro de 2006 (data que figura na Folha e em vários outros jornais no dia de hoje).
Até o Juízo Final, os dias continuarão se sucedendo, o amanhecer seguindo-se à noite. Portanto, se hoje não for dia 2 de janeiro de 2006, desconsidere a epígrafe aí em cima e prepare-se para colocar nos braços da Grande Balança os seus pecados e suas virtudes. Mas, se como quase todos esperam, o calendário seguiu seu curso, chegamos ao segundo dia do ano.
Que é, como se sabe, muito diferente do primeiro dia do ano, tão diferente como é a segunda-feira do domingo. Esta coincidência, aliás, torna 2006 particularmente interessante. E, como dizem os chineses, Deus nos livre dos anos interessantes. Os chineses devem saber das coisas; afinal, não é por nada que crescem 9% ao ano.
O primeiro dia do ano é um clímax. Aquela festança, as taças de champanhe se elevando no ar, a alegria esfuziante, os beijos apaixonados. O segundo dia é um anticlímax: dia de voltar ao trabalho, dia de enfrentar a realidade: salários baixos, juros altos, ameaça de desemprego, CPIs. O primeiro dia do ano é ficção, e ficção hollywoodiana: tudo dá certo, o amor é belo, o final é feliz. O segundo dia é a realidade: as manchetes de jornais anunciando os acidentes, as violências. O primeiro dia do ano nos dá presentes; o segundo, cobra a conta.
O segundo dia do ano lembra uma clássica historinha. Trata-se de um rapaz solteiro que voltou de uma festa completamente bêbado. Quando acorda, deitado numa cama que não é a sua, num apartamento que não é o seu, leva um tremendo susto: deitada a seu lado está uma moça, profundamente adormecida. Uma moça bonita, até - só que ele não sabe de quem se trata. Durante alguns minutos ele hesita: será que deve se mandar, sair disfarçadamente? Mas isso não seria delicado, nem justo. Além disso, ele é dos que acreditam nos desígnios do Destino. De modo que desperta a jovem e pergunta-lhe o que aconteceu. Surpresa, ela diz que se conheceram numa festa, na noite anterior, que se apaixonaram instantaneamente e que vão casar justamente neste dia que começa. E aí está a questão: será que foi este o melhor desfecho para a festa? Ou teria sido melhor para ele acordar na sua estreita cama de solitário?
Dúvida semelhante apossa-se de muitos de nós no dia 2 de janeiro. Ainda bem que existe um dia 3, não é mesmo? Ainda bem.
Folha de São Paulo (São Paulo) 2/1/2006

Memórias póstumas de um cadáver em Ipanema

m cadáver vindo do mar ficou ontem por cerca de seis horas na praia de Ipanema, a principal da zona sul do Rio. O cabo Renatti, do Corpo de Bombeiros, que trabalhou na retirada do homem do mar, diz que o cadáver deve ter sido lançado da favela do Vidigal, próxima de Ipanema. "A cabeça dele estava com marcas de violência. Pelo visto, ele pode ser sido morto e lançado ao mar por traficantes do Vidigal", disse Renatti. Apesar da cena inusitada e do mau cheiro causado pelo cadáver em decomposição, a rotina da praia praticamente não mudou. O trecho é freqüentado por jovens da zona sul.
Folha Cotidiano, 14 de janeiro de 2006
"Realmente , não posso me queixar do Destino: acabei realizando meu sonho. É verdade que isto só aconteceu depois da morte, mas a maioria das pessoas nem isto consegue.O meu sonho? A praia de Ipanema. Nasci e cresci na favela do Vidigal, ali perto. Muitas vezes passei pela praia, cheia de gente bonita, elegante, famosa. Nesses momentos eu entendia por que Ipanema é famosa em todo o mundo. O que só fazia aumentar minha admiração. Desde criança eu sabia cantar "Garota de Ipanema". Cantava tanto que meus pais me mandavam parar.
Minha mãe sabia de meu sonho e me aconselhava: desista, meu filho, aquilo lá não é para seu bico, quem nasceu no Vidigal nunca chega a Ipanema. Contente-se com o que você tem, estude e trabalhe bastante e, quem sabe um dia, Deus ajudando, você vai melhorar de vida.
Mas eu não desistia. Ao contrário, sempre que podia, corria para Ipanema. O Brasil pelo menos tem disso: as praias são públicas, qualquer um pode freqüentá-las. Claro que eu ali destoava, mas dava um jeito de ficar vendendo sanduíche natural ou refrigerantes, ou mesmo pedindo esmola.
Só que com isso não dava para ganhar a vida. E eu precisava ajudar minha gente: meu pai paralítico, minha mãe diabética... Acabei no tráfico. O que é que eu ia fazer? Era a maneira mais fácil de arranjar dinheiro. Mas até nisso tive azar: a gangue da qual eu fazia parte se desentendeu com uma outra. Na briga que se seguiu fui morto a pauladas. Quando jogaram meu corpo no mar, eu ainda estava agonizando e me lembro que pensei: ah, se pelo menos eu terminasse em Ipanema.
Minha prece foi ouvida e agora estou aqui, estendido na areia. É verdade que cobriram meu corpo com um plástico, mas, considerando que estou sem protetor solar, até que não foi má idéia. E, por outro lado, sinto-me feliz pelo fato de que minha presença não incomoda ninguém. As pessoas continuam ao sol, jogando bola, conversando, tomando banho de mar. Ainda há pouco disse um rapaz, perto de mim: "Fazer o quê? As férias são curtas e temos de nos divertir de qualquer jeito". Você está certo, meu jovem amigo. Não só as férias são curtas, a vida também. Agora, Ipanema sempre é um consolo. E um bom assunto para memórias póstumas."
Folha de São Paulo (São Paulo) 16/1/2006

A última do papagaio

Um britânico descobriu que sua namorada tinha um amante graças às indiscrições de seu papagaio. Chris Taylor, de 30 anos, um programador de computadores de Leeds, contou que, a cada vez que o telefone celular de sua namorada, Suzy Collins, tocava, Ziggy, o papagaio, dizia: "Oi, Gary". A princípio, ele pensou que Ziggy, emérito imitador, havia aprendido a frase pela TV. Suzy negava conhecer algum Gary, e Taylor não suspeitou de nada nem mesmo quando o pássaro começou a imitar o barulho de beijos ao escutar a palavra "Gary" no rádio ou na TV. Uma noite em que Taylor e Suzy beijavam-se no sofá, o pássaro disse, numa voz idêntica à da moça: "Eu te amo, Gary". Suzy confessou então que estava tendo um caso com um ex-colega chamado Gary. À mídia, ela declarou que a relação com Taylor não ia bem: "Ele passava mais tempo falando com o papagaio do que comigo". Taylor acabou vendendo Ziggy para uma loja de animais de estimação. Isso porque o programador de computadores não conseguiu desprogramar o papagaio do hábito de dizer, imitando sua ex-namorada, o nome do sujeito que foi o pivô do fim do romance.
Folha Online, 17 de janeiro de 2006
Ah, Ziggy, Ziggy. Viu o que você foi fazer? Como muitas pessoas, Ziggy, você repete bem aquilo que ouve, mas você não pensa no que diz. Ali estava você, com o Taylor, um dono exemplar, um dono que lhe adorava, tanto que preferia falar com você a falar com a namorada, Suzy. Ela, aliás, se queixava disso, e lá pelas tantas começou a ter um caso com um ex-colega. Sim, tratava-se de infidelidade, coisa condenável, mas de alguma maneira o arranjo funcionava; em termos de bigamia, a Suzy saía-se bem. Só que ela não contava com a sua indiscrição, Ziggy.
Você logo aprendeu o nome do namorado secreto dela. Coisa que aliás não deve ter sido difícil: "Gary", isto é fácil de pronunciar. E é também um nome comum, tanto que o Taylor pensou que você estava repetindo o que ouvia na televisão. Mas aí você foi mais longe, Ziggy. Você aprendeu também a imitar o som de beijos, e, beijando, você dizia, imitando a voz da Suzy: "Eu te amo, Gary". Mesmo um cara desligado como o Taylor acabaria se dando conta de que algo estava acontecendo. Lá pelas tantas ele rompeu com a moça.
Apesar disso, você continuava falando no Gary e na Suzy. Você praticamente obrigou o pobre Taylor a vender você para uma loja de bichos de estimação (duvido que a esta altura você ainda se enquadrasse, ao menos para ele, na categoria de bichos de estimação). Quer dizer: o Taylor acabou sozinho. Foi a sua última bobagem, Ziggy. A última do papagaio.
Uma pergunta se impõe, Ziggy: por que é que você fez isso? Você queria alertar o Taylor? Você queria debochar dele? Ou será que você estava apaixonado pela Suzy e queria se exibir para ela?
Mistério, Ziggy. Mistério. Temos de confessar: a alma dos papagaios continua sendo, para nós, humanos, território desconhecido. Se houvesse um psicanalista de aves, talvez o enigma fosse decifrado. Difícil, porém: você ficaria repetindo todas as interpretações do terapeuta.
Mas a gente pode dar um conselho a você, Ziggy. Se você puder fugir da gaiola, atravesse o Atlântico voando e venha para o Brasil. Aqui você se transformará num personagem de anedota. Ninguém levará você a sério. O que será melhor para você e para todo mundo.
Folha de São Paulo (São Paulo) 23/1/2006

A guerra dos narizes

Um "nariz eletrônico" desenvolvido por cientistas da Universidade de Manchester (Reino Unido) pode controlar remotamente o mau cheiro em depósitos de lixo. "Atualmente, não há nenhum outro acessório sensível o bastante para monitorar a concentração de cheiros e gases nestes locais. Geralmente, eles são analisados por voluntários que inalam amostras de ar", afirma o comunicado da universidade.
Folha Online, 10 de janeiro de 2005
Ele ficou simplesmente mortificado quando soube que a prefeitura da cidade ia adquirir o nariz eletrônico desenvolvido na Universidade de Manchester. Não que fosse contra a inovação tecnológica; mas é que, em matéria de nariz, ele desempenhava uma função importante. Tinha, desde criança, um olfato notável; onde outros não sentiam cheiro algum, ele era capaz de identificar o tipo de odor e, mais tarde, depois que se graduou na universidade, até a substância, ou substâncias, responsáveis pelo referido odor. A partir daí começou a ser chamado como perito; sempre que alguém se queixava de mau cheiro nas vizinhanças, era ele quem dava o veredicto final. Agora, porém, derrotava-o o progresso científico; com o nariz eletrônico, a sua atuação tornava-se desnecessária.
Uma decisão que não aceitaria passivamente, sem lutar. Conseguiu uma audiência com o próprio prefeito. Lembrou que sua fama já tinha ultrapassado as fronteiras do município, do Estado e do próprio país, e que era candidato até a figurar no "Livro dos Recordes" como a pessoa de olfato mais sensível na face da Terra. O prefeito reconhecia tudo isso, mas, dizia, a avaliação que ele fazia sempre seria de caráter subjetivo, sujeita a contestação judicial. Com o nariz eletrônico, imperaria a neutralidade científica. Ele então se dispôs a fazer um teste: se o nariz eletrônico detectasse melhor uma substância escolhida em segredo no laboratório da prefeitura, renunciaria à reivindicação de manter o cargo, aliás honorífico, mas do qual tinha muito orgulho.
O teste foi marcado para daí a três dias. Quando ele acordou, na manhã decisiva, teve um choque; sem saber como, sem nenhum sintoma prévio, tinha contraído um resfriado que o deixava de nariz entupido, com o olfato reduzido a praticamente zero. E agora? O que fazer? Se pedisse um adiamento, achariam que estava com medo de competir. Resolveu, pois, enfrentar o desafio.
A prova foi realizada no auditório da prefeitura, cheio de gente: a mídia estava toda ali. Um químico trouxe o frasco com a substância de teste. Que foi submetida primeiro ao nariz eletrônico.
Nada. O aparelho não acusou nada. O técnico responsável disse que um chip importante tinha queimado e que a troca tardaria umas duas semanas. Aí colocaram o frasco diante do nariz do desafiante. Gás metano, disse ele, sem hesitar, e, em meio a aplausos de todos, o prefeito proclamou-o vencedor.
É claro que ele não tinha sentido cheiro algum. Mas há algum tempo vinha namorando a química-chefe do laboratório. Que naturalmente lhe passou o segredo. O cheiro do amor chega a qualquer lugar.
Folha de São Paulo (São Paulo) 30/1/2006

Roda dos expostos

"Roda dos expostos" recebia bebês rejeitados até o final dos anos 40. Feitas de madeira, eram geralmente um cilindro oco que girava em torno de seu próprio eixo e tinha uma portinha voltada para a rua. Sem ser identificada, a mãe deixava seu bebê e rodava o cilindro 180 graus, o que fazia a porta ficar voltada para o interior do prédio, onde alguém recolhia a criança rejeitada. Em São Paulo, bastava a campainha soar no meio da noite para as freiras da Santa Casa terem a certeza de que mais uma criança acabava de ser rejeitada.
Folha Cotidiano, 2 de fevereiro de 2006
Ele foi provavelmente um dos últimos bebês colocados na roda dos expostos, o que aconteceu há exatamente 65 anos. Mas a vida compensou-o devidamente. Entregue a uma família de classe média alta, gente sensível e carinhosa, teve uma infância feliz, com os irmãos, com brinquedos, com livros. Estudou, entrou na universidade, formou-se em medicina, tornou-se um neurocirurgião famoso, respeitado no país e no exterior. Os pais adotivos faleceram quando ele tinha 40 anos. Pouco antes de morrer, a mãe revelou-lhe a história da roda dos expostos. Chorou muito, mas não por ter sido abandonado; chorou pelos pais, a quem amava profundamente.
A verdade, porém, é que a revelação abalou-o. Fez psicoterapia por algum tempo, acabou deixando, e por fim achou sua própria maneira de lidar com esse trauma da infância: mandou construir uma roda dos expostos. Não é uma roda pequena, para bebês; é algo grande, onde ele, homem robusto, cabe facilmente. E a partir daí imaginou uma espécie de ritual.
Todos os anos, no dia de seu aniversário, a porta da luxuosa mansão em que mora é aberta, e, no vão, os empregados colocam a grande roda dos expostos. Ele entra ali. A roda gira, uma campainha soa, e logo ele se vê dentro de sua casa, onde a família, uma grande família, esposa, filhos, filhas, netos, recebe-o entre abraços e exclamações de júbilo. Cantam o "parabéns a você", a roda é retirada e a festa tem início, agora com a presença de amigos e familiares.
Nos primeiros anos as pessoas achavam estranho este costume. Depois, deram-se conta de que aquilo correspondia a uma necessidade emocional e aceitaram-no. Até o cumprimentam pela idéia, simbólica e generosa.
O que não lhe perguntam, e nem ele fala a respeito, é em que pensa no momento que a roda está girando, transportando-o do exterior para o interior, do abandono para o acolhimento. Dura poucos segundos, este intervalo, e nem há tempo para refletir muito. Mas é então, certamente, que ele descobre os segredos de sua vida.
Folha de São Paulo (São Paulo) 6/2/2006

O seqüestro das galinhas

Grupo armado rouba galinhas em Ituverava. Seis homens encapuzados, armados com um revólver, roubaram todas as 50 galinhas do sítio Serra Azul.
Folha Cotidiano, 4 de fevereiro de 2006
No passado, a expressão "ladrão de galinhas" designava um transgressor humilde, freqüentemente esfaimado, que invadia galinheiros roubando aves para comer. Não mais. O progresso chegou também a esta área, e hoje o roubo de galinhas é uma operação em larga escala, levada a cabo por grupos organizados e armados, que não temem sequer a gripe aviária.A pergunta que cabe é: por que tanto esforço para roubar galinhas, mesmo em número elevado? A galinha não é exatamente uma raridade culinária, como o caviar ou as trufas. É verdade que pobre só come galinha quando está doente, segundo o antigo ditado, mas à exceção daqueles que estão colocados muito em baixo na pirâmide social, a maioria da população consegue saborear uma coxinha de vez em quando.
Talvez se trate de outra coisa. Talvez se trate de seqüestros. Galinhas muito prezadas por seus donos, por serem de estimação ou de rara qualidade, seriam alvo tentador para seqüestradores. E aí começariam os bilhetes. Um deles, viria acompanhado de um ovo: "Por enquanto suas galinhas ainda estão vivas e botando ovos. Mas se vocês querem evitar que elas se transformem em fricassê, mandem de imediato a quantia pedida, etc.etc."
Como evitar os seqüestros de galinhas? A medida mais óbvia é reforçar a segurança nos galinheiros. Mas isto talvez não seja suficiente. No sítio em questão, o caseiro foi até feito refém pelos assaltantes. Não, a solução melhor, mais eficaz, será treinar as galinhas para a auto-defesas. Tão logo o galinheiro seja invadido, elas correrão para suas posições, e ao comando do galo de plantão, precipitar-se-ão sobre os invasores, agredindo-os a bicadas. Talvez os seqüestradores reajam; talvez uma ou outra heróica ave, mártir da resistência, seja baleada; mas por fim os fora-da-lei terão de bater em retirada. E o galinheiro será o que sempre foi, o reduto em que aves há milênios domesticadas, esperam a hora para, felizes, nutrirem a humanidade.
Folha de São Paulo (São Paulo) 13/2/2006

Torpedos

1. O torpedo no vestibular
A polícia do Rio de Janeiro prendeu quatro estudantes que tentavam fraudar o vestibular de medicina da Universidade Gama Filho. Uma quadrilha teria cobrado entre R$ 10 mil e R$ 15 mil pela transmissão do gabarito do exame por meio de mensagens de texto.
Folha Cotidiano, 31 de janeiro de 2006
Apesar do fracasso dos quatro vestibulandos que haviam tentado fraudar a prova mediante mensagens pelo celular, ela decidiu fazer a mesma coisa. Em primeiro lugar, porque morava numa cidade muito menor que o Rio, na qual as medidas de segurança não eram tão rigorosas. Depois, não recorreria a quadrilha nenhuma, coisa que, segundo imaginava, tornava a operação vulnerável. Em terceiro lugar, não tinha outra opção: não sabia quase nada, e era certo que seria reprovada. Por último, havia uma coincidência favorável: estava com o antebraço esquerdo engessado. Nada preocupante, e na verdade ela até poderia ter tirado o gesso, mas não o fizera e agora contava com um ótimo esconderijo para o celular. Quem mandaria o gabarito? O namorado, claro. Rapaz inteligente (já estava cursando a faculdade), ele só teria de perguntar as questões para alguém que tivesse terminado a prova e enviar o gabarito por torpedo. Quando ela fez a proposta ao rapaz, ele pareceu-lhe um tanto relutante, incomodado mesmo. E no dia do vestibular ela descobriu por quê. Quarenta minutos depois de iniciada a prova, ela recebeu o tão esperado torpedo. Para sua surpresa, não continha o gabarito, e sim uma mensagem: "Sinto muito, mas não posso continuar namorando uma pessoa tão desonesta. Considere terminada a nossa relação. PS: boa sorte no vestibular". Com o que ela foi obrigada a concluir: tão importante quanto o torpedo é aquele que dispara o torpedo.
2. O torpedo na literatura
Escritor transforma torpedos em gênero literário. Depois de tentar em vão moderar a paixão de seus compatriotas pelos celulares, o escritor francês Phil Marso, 43, se rendeu a essa onda e decidiu propor que as mensagens enviadas por esses aparelhos virem um gênero literário.
Folha Online, 30 de janeiro de 2006
Durante anos ele tentou, em vão, divulgar seus trabalhos literários. Procurou editoras, ofereceu-os a jornais e revistas. Nada. Ninguém queria saber de seus contos, e até aconselhavam-no a tentar outra coisa. Mas ele teimava. Tinha certeza de que um dia seria reconhecido como escritor, e baseava-se no exemplo de autores cujo talento não fora reconhecido em vida. Se pudesse, publicaria um livro por conta própria, vendendo-o depois em entradas de museus, de teatros. Mas, simples empregado de uma pequena loja, não tinha dinheiro para isso.
Foi então que leu sobre Phil Marso, o escritor francês que havia lançado a ficção como mensagem de celular. Aquilo deixou-o entusiasmado: era exatamente a solução que procurava. Seus contos - na verdade minicontos, alguns não passavam de uma frase - tinham o tamanho ideal para se transformarem em torpedos. E nada impedia que os leitores, entusiasmados, repassassem as mensagens literárias, que acabariam chegando a um grande crítico ou a um grande editor. Quando então o caminho do sucesso estaria aberto para ele.
Preparou cinco textos, que lhe pareciam os melhores. E aí chegou o grande dia, o dia em que o mundo tomaria conhecimento de seu talento. Apanhou o celular, respirou fundo...
Infelizmente, o aparelho estava sem bateria. Os torpedos não foram disparados. Foi dormir, convencido de que o Destino, e os celulares, não queriam que ele se transformasse em escritor.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/2/2006

A traição dos confetes

Nem só de confete e serpentina é feito o Carnaval. Para quem quer aproveitar o primeiro feriado prolongado do ano, mas não está nem um pouco interessado em enfrentar multidões, calor, barulho e ambientes geralmente embalados a muita bebida alcoólica e pouca moderação, o melhor mesmo é se manter bem longe da folia.
Folha Equilíbrio, 9 de fevereiro de 2006
Longe da folia: este era o lema de dona Francelina. Ela era dessas pessoas que detestam Carnaval, por causa da zoeira, da confusão e, claro, da imoralidade. Muito religiosa, dona Francelina desaprovava o relaxamento de costumes que acompanha o chamado tríduo momesco, uma época de vício e de pecado. Se pudesse, sairia da cidade, iria para a serra, para um spa, ou mesmo para a pacata cidadezinha do interior em que nascera. Mas não podia, por uma simples razão: ela e o marido, Ernesto, eram muito pobres. Ele, auxiliar de escritório, ela, costureira, mal ganhavam para se sustentar, e isso que não tinham filhos. O jeito, portanto, era ficar na capital e agüentar o barulho, que não era pouco.
Diferente da esposa, seu Ernesto era um carnavalesco nato. Desde criança participara em bailes infantis, sempre fantasiado; adorava desfiles, gostava de sambar. Mas não podia fazê-lo, claro, por causa da mulher. Ela jamais o admitiria. De modo que seu Ernesto carregou esta frustração por muitos anos. Até que a própria Francelina, por assim dizer, resolveu o problema.
Ela se queixava de que não podia dormir nas noites de Carnaval, por causa do barulho, e assim começou a tomar soporíferos. Caía num sono profundo, tão profundo que o marido tinha de sacudi-la por muito tempo até que acordasse. E isso lhe deu uma idéia: começou a aproveitar a oportunidade para sair de mansinho e ir a um salão não muito distante, onde caía no samba. Quando voltava para casa, tomava todas as precauções para que a esposa de nada desconfiasse: banhava-se, botava o pijama, deitava-se, fingia-se profundamente adormecido.
Isso poderia ter durado muito tempo, não fosse o fato de Ernesto enxergar mal. E como enxergava mal, não viu dois confetes em sua camisa. Mas dona Francelina, que tinha boa visão, viu os tais confetes e perguntou a respeito. O marido explicou que aquilo nada tinha a ver com bailes, que uns garotos lhe tinham jogado confetes na rua quando voltava para casa.
Não se sabe se dona Francelina acreditou ou não. O fato é que Ernesto está disposto a ir a um baile de Carnaval -mas realizado em um salão onde não se use confetes. Que, como se sabe, têm uma natural vocação para a traição.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/2/2006

As provas da conspiração

Rato Jerry é pró-judeu, conclui especialista do Ministério da Educação do Irã. Para Hassan Bolkhari, especialista em comunicação de massa, o desenho animado Tom e Jerry é uma conspiração para favorecer a imagem dos ratos - apelido pejorativo associado aos judeus. Folha Mundo, 25 de fevereiro de 2006.
Confrontado com a esmagadora evidência de sua culpa, Jerry, o rato, não teve outro remédio senão admitir a verdade: sim, disse ele, eu não passo de um agente secreto a serviço de uma conspiração criada para melhorar a imagem judaica no mundo. Soluçando, disse que relutara muito antes de aceitar a proposta, mas que esta se tornara irrecusável quando lhe foi feita uma inesperada oferta: pelo resto de sua vida teria queijo na quantidade que quisesse.Ah, sim, e poderia escolher a variedade: brie, camembert, cream cheese, feta, gorgonzola, gruyère, mussarela, pecorino, provolone, roquefort, qualquer uma destas variedades estaria à sua disposição (acompanhada ou não de bolachinhas e torradas), bastando apenas que ele telefonasse e dissesse sua senha. Encontraria o queijo em certa secreta despensa, que aliás serviria de base de operações para outros ratos famosos envolvidos na conspiração. E que eram muitos: por exemplo, o camundongo Mickey e sua namorada, Minnie: como Jerry, figuras simpáticas, amáveis. Mas devidamente cooptadas.
Mas as revelações não ficaram por aí. Descobriu-se que Tom, o próprio Tom, o gato valoroso que perseguira Jerry em tantos desenhos animados, também estava sob o controle dos mentores da conspiração, coisa que demandara várias providências. Capturado, Tom fora submetido a uma lavagem cerebral, da qual saíra com característicos de autômato. Nos desenhos animados, ele poderia continuar correndo atrás de Jerry, mas sem jamais alcançá-lo. Com isso, estaria confirmando a superioridade dos ratos (e do grupo que eles metaforicamente representam). Tom seria vigiado de perto pelo enorme cão que existia na casa e que também era parte da conspiração.
Enfim, a revelação chocou muita gente. Mas ela deve servir de alerta. Será que outras figuras dos desenhos animados não estão envolvidas na conspiração? Será que o Pato Donald não está nessa? Ou a Branca de Neve? Ou o Bob Esponja? O inimigo é insidioso e está por toda a parte. É melhor, portanto, não ir ao cinema, não assistir à TV, não ler livros, revistas ou jornais. Ah, sim, e não esqueçam de olhar debaixo da cama: será que o Jerry não está ali, escondido, à espera do momento propício para atacar?
Folha de São Paulo (São Paulo) 06/03/2006

O juiz no divã

A maioria dos juízes precisa de tratamento psicológico. A Federação Paulista de Futebol encomendou ao Incor estudo inédito e de resultado revelador: 58% dos árbitros de São Paulo apresentam algum problema, sobretudo por estresse. Folha Esporte, 5 de março de 2006.Tudo começou quando ele notou que, ao entrar em campo, ele ficava trêmulo, suava abundantemente, tinha a impressão de que ia desmaiar. Isto é dos nervos, disse a mulher, que entendia dessas coisas. E era verdade. Juiz de futebol há mais de 20 anos, ele enfrentara numerosos conflitos e até agressões. Sempre se saíra bem.
Agora, porém, a situação mudara e comprometia até o seu trabalho. Tinha, portanto, de tomar alguma providência. Recomendaram-lhe psicanálise. Lembrou-se de um vizinho que, depois de exercer o magistério, tornara-se analista, meio que por conta própria. Foi procurá-lo e começou o tratamento. Melhorou, mas mesmo assim, cada vez que entrava em campo era aquele pavor. Acabou por decidir: só apitaria uma partida acompanhado por seu terapeuta. Que, embora relutante, concordou em aceitar a proposta. Convencer a federação foi igualmente difícil, mas, considerando que se tratava de um juiz veterano e dedicado, resolveram abrir uma exceção. Mais confortado, ele se sentiu preparado para enfrentar o desafio. Que ocorreria no domingo seguinte e não seria pequeno: tratava-se de uma partida entre dois times importantes, clássicos rivais.
Tudo correu bem, até que, aos 40 minutos do segundo tempo, ele apitou um pênalti. Duvidoso, na verdade, até para ele: achava que tinha visto o zagueiro fazer falta no centroavante adversário, mas o time inteiro protestava em altos brados contra o que consideravam uma injustiça. Sentindo o estresse crescer de maneira perigosa, interrompeu o jogo e mandou chamar o analista. Um divã foi colocado na pequena área e de imediato teve início a sessão: ele queixando-se do zagueiro, um homem brutal. Sim, disse o analista, mas há um detalhe que você não está levando em consideração. Qual, perguntou o juiz intrigado.
Ele tem o mesmo nome de seu pai.
Era verdade, como o juiz constatou, surpreso. O analista prosseguiu: eu acho que no fundo você está agredindo o homem com quem você sempre teve um conflito.
O juiz quis saber a causa de tal conflito. O analista respondeu que isso demandaria uma longa investigação, de anos, talvez.
Anos? Dificilmente a partida poderia ser suspensa por tanto tempo. O juiz manteve o pênalti. Ouviu as ofensas habituais, mas resignou-se. Um dia ele entenderia e aceitaria, aquelas coisas. E aí poderia trilar o apito final, dando por encerrado o tratamento.
Folha de São Paulo (São Paulo) 13/03/2006

Guerrilha capilar

A Polícia Federal (PF) apreendeu 250 kg de cabelos que entraram no Brasil ilegalmente em um hotel em Curitiba, na manhã deste domingo. O material havia sido trazido da Índia. Três pessoas foram presas. O contrabando foi descoberto por acaso: agentes da Polícia Federal estavam hospedados no mesmo hotel e suspeitaram quando a carga era descarregada de uma caminhonete. De acordo com a PF, todas as mechas de cabelo eram pretas e tinham entre 40 e 70 centímetros de comprimento. A carga seria revendida para salões de beleza.
Folha Online, 13 de março de 2006.
A Polícia Federal recolheu os 250 kg de cabelo a um depósito com o que o caso poderia ser encerrado. A não ser, como disse o vigia do lugar, que piolhos tentassem roubar a exótica mercadoria. O comentário se revelou profético: naquela mesma noite o lugar foi assaltado, e não por piolhos, mas por um bando de homens armados. Imobilizaram o vigia, transportaram os cabelos para uma van e se foram, não sem deixar um bilhete: "Esta é mais uma ação da Frente de Libertação dos Calvos. Lutamos contra a má distribuição de cabelos no mundo. Lutamos contra a propaganda enganosa dos xampus. Lutamos contra a excessiva valorização das bastas cabeleiras. Basta! De agora em diante o mundo sentirá a força de nossa justa ira".
A intenção da misteriosa Frente de Libertação dos Calvos (FLC) era usar os cabelos confiscados para confeccionar perucas, que seriam distribuídas, gratuitamente, a milhares de carecas. Mas, tão logo se reuniram, sob a presidência de um líder mascarado que se identificava apenas como Sansão, os problemas começaram a emergir. Constatou-se que, em primeiro lugar, os cabelos não eram nacionais - procediam da Índia. Além disto, eram todos escuros.
Isto provocou revolta na área mais radical do movimento. Os extremistas protestavam contra o fato de os cabelos serem procedentes da Índia e serem todos de cor preta, o que significaria a marginalização dos loiros, dos ruivos e dos grisalhos - um duro golpe na diversidade cultural que é a base mesmo da emancipação dos oprimidos. De sua parte, o setor mais moderado ponderava que, afinal, a Índia era, como o Brasil, um país emergente e que, portanto, os cabelos não traduziriam nenhum tipo de dominação imperialista. E o uso de perucas pretas por todos os membros da Frente poderia ser um símbolo de coerência ideológica e de disciplina revolucionária.
A discussão evoluiu rapidamente para a briga, e lá pelas tantas os adversários estavam atirando mechas de cabelos uns nos outros. Quando terminou a pancadaria, não dava para aproveitar mais nada da preciosa carga de cabelos. O cartaz com a divisa criada por Sansão, "Calvos unidos jamais serão vencidos", jazia rasgado no chão. Antes que as forças da lei e da ordem aparecessem, foram todos embora. Desiludidos, mas com uma esperança: a de que, no futuro, a Polícia Federal apreenda uma carga de tônicos capilares, desses que fazem crescer cabelo quase que por milagre.
Folha de São Paulo (São Paulo) 20/03/2006

Os genes de Romeu e Julieta

A trajetória do evolucionismo mostra como é difícil rotular, do ponto de vista político ou ideológico, idéias que nascem da ciência, da cultura ou da arte. Certamente não era em rótulos que Charles Darwin pensava quando escreveu "A Origem das Espécies". Mas uma teoria tão revolucionária inevitavelmente teria seu papel no choque de conceitos que emergia com toda sua força no século 19, o século que marcou a ascensão do capitalismo e também dos movimentos sociais que a ele se opunham. Esquerda e direita eram então categorias estanques, como o eram progressista e reacionário.E o evolucionismo? Era de esquerda ou era de direita? Era progressista ou era reacionário?Aparentemente a teoria de Darwin colocava-o como um pensador progressista, um esquerdista até. Afinal de contas, ele se opunha às concepções religiosas, e a religião era então o ópio do povo, segundo a expressão de Marx, aliás seu contemporâneo e admirador. "É notável como Darwin reconhece, nos seres naturais, as características da sociedade inglesa, com a divisão de trabalho, a competição, a luta pela sobrevivência", escreveu um entusiasmado Marx, que quis até dedicar o segundo tomo de "O Capital" ao naturalista. Este recusou a oferta, provavelmente porque já tinha dores de cabeça demais com a religião estabelecida.
Darwinismo socialA verdade, porém, é que as idéias darwinianas não se ajustavam exatamente à causa do socialismo; afinal, incluíam a sobrevivência do mais apto, concepção compatível com a economia de mercado e com o capitalismo. Surgiu daí o darwinismo social, que, apoiado nos trabalhos do filósofo inglês Herbert Spencer e de seus seguidores, procurava justificar a desigualdade social como resultado da evolução natural.Daí para o racismo, para a exclusão dos "inferiores", era apenas um passo, e este foi dado por meio da eugenia, corrente de filosofia social criada por sir Francis Galton (primo de Darwin, a propósito) que visava o "aperfeiçoamento da espécie", mediante aconselhamento genético e controle da natalidade, mas que acabou chegando, no caso do nazismo, à esterilização forçada e, por fim, ao genocídio.
A revelação dos crimes cometidos nos campos de concentração tornou a eugenia politicamente incorreta e, de alguma forma, afetou também o darwinismo.
Além disso, na primeira metade do século 20, o comunismo estava em plena ascensão. Ao stalinismo, as idéias de Darwin interessavam sobretudo por seu caráter "materialista", anticriacionista. Mas os teóricos comunistas queriam provar que havia um aperfeiçoamento contínuo da espécie humana (culminando com o socialismo) resultante, não da seleção natural e da sobrevivência do mais apto, e sim das condições sociais favoráveis: "nurture" seria mais importante que "nature", o social prevaleceria sobre o biológico.
Essas mudanças se transmitiriam de geração em geração, por meio da transmissão hereditária dos caracteres adquiridos, defendida pelo naturalista francês Jean-Baptiste Lamarck, um precursor de Darwin, em 1809. O regime comunista via a genética como coisa burguesa, reacionária, e criou o seu próprio guru científico, Trofim Lysenko, graças a quem a agricultura soviética simplesmente afundou.
Propagação dos genes
O darwinismo continua enfrentando a resistência de correntes religiosas, sobretudo nos EUA, onde o criacionismo ressurgiu com a teoria do "design inteligente", segundo a qual as características dos seres vivos são complexas demais para serem explicadas pela seleção natural e devem ser atribuídas a uma inteligência superior: Deus.
Mas ganhou prestígio crescente em meios intelectuais alheios à discussão esquerda-direita. Surgiu assim o evolucionismo sociocultural, que reconhece o peso dos fatores biológicos no comportamento social. A relação entre homens e mulheres já não é só vista como algo romântico ou, como querem algumas feministas, algo opressivo; não, machos e fêmeas, ansiosos pela reprodução, continuam presentes mesmo sob aparências refinadas. Exemplo: por que homens gostam de mulheres com cadeiras largas? Porque uma bacia ampla facilita o parto e, portanto, a preservação da progênie.Propagar genes é, do ponto de vista da espécie, a grande prioridade. Daí a paixão de Romeu por Julieta, daí o ciúme de Otelo, daí o adultério de Madame Bovary: nos personagens literários refletem-se as pulsões evolutivas, garantem David P.Barash e Nanelle R.Barash em "Os Ovários de Madame Bovary" (ed. Relume-Dumará).Não só a ficção mas até a mentira propriamente dita pode estar a serviço de injunções biológicas, sustenta David Livingston Smith em "Por Que Mentimos" (ed. Campus). São apenas dois exemplos da enorme literatura que surgiu, nos últimos anos, partindo da teoria evolucionista. Um sucesso com o qual Darwin provavelmente nunca sonhou.
Folha de São Paulo (São Paulo) 26/03/2006

A dança das cadeiras

A presidência da Câmara Municipal de Serra, no Espírito Santo, fez uma compra de material inusitado para os vereadores da Casa. São 17 poltronas de couro, anatômicas, reclináveis, dotadas de controle remoto que ativa um sistema eletrônico de massagem nas costas e na nuca. Foram gastos R$ 62.900. Folha Cotidiano, 21 de março de 2006.
A aquisição das 17 confortáveis poltronas provocou, como era de esperar, muita controvérsia no país. Por causa disso um grupo de cientistas resolveu testar a possível correlação entre as referidas poltronas e o desempenho dos parlamentares que nelas eventualmente tomassem assento. Cinco ex-vereadores dispuseram-se voluntariamente para servir como cobaias para a experiência. Como disse um deles: "Sempre tive costas largas, agora está na hora de massageá-las um pouco".
O objetivo dos cientistas era avaliar a produtividade dos ex-edis quando sentados nas cadeiras. Esta produtividade, por sua vez, seria expressa pelo número de projetos de leis formulados durante as várias fases do teste.
Os resultados foram surpreendentes. Verificou-se que o número de projetos de lei crescia na proporção direta da velocidade da vibração massageadora; ou, como observou espirituosamente um dos cientistas, quanto mais vibração, mais os ex-vereadores vibravam. Vibravam e tinham idéias. Um deles chegou a formular nada menos que oito projetos de lei em apenas 15 minutos de massagem com alta freqüência.
Surgia então um efeito paradoxal. A certa altura, indivíduos testados caíam no sono, dois ou três roncando sonoramente. Não chegava a ser um efeito inesperado; afinal, uma das coisas que acontecem para quem senta em poltrona confortável é exatamente isso, um sono profundo e reparador. Mas havia um detalhe curioso. Ao despertar, os voluntários relatavam que haviam sonhado. E o sonho era notavelmente igual: todos eles viam-se de volta à Câmara de Vereadores, ganhando polpudos salários e contando com a entusiástica aprovação dos eleitores.
Mas havia uma exceção. Um dos vereadores, o mais velho deles, chegou à conclusão de que a poltrona, embora perfeita, não era compatível com a função parlamentar. Afinal, disse, vereadores são pagos não para receber massagens ou para sonhar, mas para trabalhar. E para isto, argumentava, talvez seja melhor uma cadeira dura do que uma poltrona macia.
Os outros não estavam de acordo com tal idéia. E lembraram que o ex-vereador estava, na verdade, falando de barriga cheia: recentemente tinha casado de novo, com uma mulher muito mais jovem do que ele, uma conhecida massagista. Ou seja: o homem tinha massagem a domicílio. Não precisava de poltronas especiais para isto, podia contar com mãos suaves e macias.
Enfim, os ex-vereadores apoiaram totalmente a compra das poltronas. Um deles disse que, se fosse eleito, seu primeiro projeto de lei teria por objeto exatamente isso, a aquisição de poltronas similares. A democracia precisa de bases confortáveis.
Folha de São Paulo (São Paulo) 27/03/2006

Nus ao telefone

*Um terço dos usuários de telefonia na Grã-Bretanha faz chamadas completamente nus, sendo os homens mais propensos a essa prática do que as mulheres, revelou um estudo divulgado pela agência de notícias Reuters. A pesquisa, de responsabilidade dos Correios da Grã-Bretanha, revelou que cerca de 40% dos homens admitiram conversar sem roupas, contra 27% das mulheres.
Folha Online, 28 de março de 2006
"Fale, John. Pode falar. Fale bastante, se quiser. Aproveite, diga tudo o que você tem a dizer. Esta, quero lhe avisar, é a última vez que você me liga: a nossa relação termina aqui, John. Por quê? Por que, você pergunta? Deus, John, como você é cínico. Mas tudo bem, vou lhe dizer. Você, John, está me desrespeitando. Como sempre me desrespeitou, aliás, mas agora você acrescentou ao desrespeito um requinte de perversidade. Você decidiu me ligar e, antes disso, você tomou uma providência muito típica de seu caráter. Você tirou toda a roupa, John. Você está pelado.
Como é que eu sei? Calma, eu não tenho videofone. Aliás, nem precisaria disso. Conhecendo você como conheço, sei de tudo o que você faz, mesmo à distância. Mas, no caso, fui ajudada por um amigo, um bom amigo. Você não o conhece, mas ele ontem estava no pub que você freqüenta, a seu lado inclusive. Você comentava esta pesquisa que foi feita pelos Correios, mostrando que cerca de 40% dos homens conversam ao telefone sem roupa. Você disse, muito orgulhoso, que jamais telefona para qualquer mulher - sua namorada, inclusive, você fez questão de ressaltar isso - sem antes tirar a roupa. Você disse que tal coisa, para você, funciona como um verdadeiro afrodisíaco. E você lamentou não ter videofone; se tivesse, você concluiu, às gargalhadas, elas saberiam o que estão perdendo.
De modo que você está me ligando pelado. Mas isso não é o pior, John. O pior é o lugar de onde você está me ligando. Você está sentado no vaso sanitário, John. Você, pelado, está sentado no vaso sanitário. Como é que eu sei? Não, eu não tenho videofone, John. Mas tenho ouvidos muito bons. Estou ouvindo o ruído da água enchendo a caixa, John. Você acabou de dar a descarga. Você fez o que tinha de fazer, você se limpou, você deu a descarga.
O que devo concluir disso? É muito simples, John. Com as outras, você fala nu ao telefone porque assim se excita; para mim, você telefona pelado para não perder tempo: fala e faz as necessidades ao mesmo tempo. Eu até ouvi você gemer, John. E sei que não era de paixão. Era a sua tenaz prisão de ventre.
Mas não tem importância, John. Eu também estou nua. E também estou no banheiro. Só que não estou sozinha. Estou acompanhada. Por aquele amigo que você não conhece, mas que ontem, no bar, estava na mesa ao lado da sua. Ele ouviu a conversa e logo em seguida me ligou. Ligou de roupa, bem entendido, porque não tem dessas fantasias. Eu pedi que viesse aqui e descobri que não apenas é leal, é também fora de série na cama.
Este barulho que você está ouvindo? É a água do chuveiro, correndo. Nós agora vamos tomar banho juntos. Fique aí pelado, fazendo suas ligações. Nós vamos nos divertir muito mais. E sem telefone."
Folha de S. Paulo (São Paulo) 03/04/2006

Vivendo nas alturas

Passar dias em cima de uma árvore. Comer, dormir, realizar todas as atividades, e necessidades, da vida cotidiana, sem colocar os pés no chão.
Ilustrada, 2 de abril de 2006
Contestadora era ela, e desde criança. Brigava por qualquer coisa, o que não era de admirar: menina mimada, filha de pais ricos, não estava acostumada a ver seus desejos contrariados. E assim chegou aos 20 anos, uma garota irritadiça, ainda que muito bonita e inteligente. Àquela altura, todos os professores, amigos, parentes estavam de acordo que ela estava precisando de limites. A gota d'água foi o caso que começou a ter com um conhecido traficante de drogas. O pai, próspero e culto empresário, deu-se conta de que aquele era o momento de dar o basta. Mesmo assim, procurou fazê-lo com habilidade. Na conversa que teve com a jovem, recorreu a uma frase lapidar e cuidadosamente ensaiada: "Você sempre viveu no ar. Agora está na hora de colocar os pés no chão".
Assim que ela ouviu essas palavras, decidiu que faria exatamente o contrário. Nunca mais poria os pés no chão. Romperia com o traficante, sim, mesmo porque o cara era muito chato, mas não faria qualquer concessão aos pais. Assim, anunciou que estava indo embora de casa.
E foi. Tomou o rumo da região amazônica. O seu plano era viver na floresta, mas não no solo: construiria uma casa numa árvore e ali viveria para sempre. Alimentos? Os frutos das árvores ao redor, ovos de pássaro, pequenos répteis. Água, a da chuva. Os pais, naturalmente, ficaram desesperados. Mas, com a ajuda de investigadores particulares, conseguiram refazer a trajetória dela. E acabaram por descobrir o lugar em que vivia, na mata amazônica.
A conselho dos próprios investigadores, foram sozinhos até lá. Caminhando pela selva, chegaram à árvore. E ali estava, entre os galhos, a pequena cabana. Chamaram pela jovem. Ela apareceu e não se mostrou surpresa; aparentemente, até esperava aquela visita. Do chão, pai e mãe lhe dirigiam apelos angustiados: desce daí, minha filha, volta com a gente para casa.
Para isso, ela tinha uma resposta preparada: Só desço - disse - se vocês subirem.
O que era absolutamente impossível. Não havia qualquer escada, nem mesmo cordas, nada que os ajudasse. Eles imploraram e imploraram. Por fim desistiram e foram para o precário hotel da cidadezinha próxima. No dia seguinte voltaram, e esta rotina tem se repetido: pedem que a filha desça, ela insiste para que eles subam. O impasse está criado, mas isso não é o pior. O pior é o grande macaco que eles acreditam ter visto diante da cabana. Pode, claro, ser um bicho de estimação. Mas e se ele é o substituto do namorado traficante?
Folha de S. Paulo (São Paulo) 10/04/2006

Parada obrigatória

"1.000 Lugares para Conhecer Antes de Morrer", best-seller mundial da americana Patricia Schulz lançado no Brasil pela Sextante, traz cerca de 20 paradas obrigatórias no país. Mônica Bergamo, 23 de abril de 2006
Tão logo ele tomou conhecimento dos mil lugares imperdíveis no mundo, decidiu: seria o primeiro brasileiro a conhecê-los todos. Homem muito rico, recursos para isso não lhe faltariam. Pretendia, inclusive, realizar este périplo em tempo recorde, em primeiro lugar para dar à façanha ainda maior destaque e depois porque, pela idade, já não podia fazer planos a longo prazo. Assim, tudo o que faria era entrar nos lugares mencionados na obra, tirar uma foto e seguir adiante. Consultou um amigo, dono de uma grande agência de turismo. Sim, era possível fazer aquilo em um ano, desde que ele alugasse um jatinho particular. O que sem demora foi feito, e assim ele partiu, disposto a visitar pelo menos três lugares por dia. Era difícil, mas ele o conseguiu e assim pouco a pouco foi riscando os lugares de sua lista.
Deixou o Brasil para o fim. Em nosso país eram cerca de 20 lugares, a maioria deles em São Paulo, cidade onde nascera e onde morava. Os amigos esperavam que ali se encerrasse a gloriosa trajetória, mas seus planos eram diferentes. Queria terminar com o Copacabana Palace, no Rio.
Havia uma razão para isso, uma razão muito especial. Anos antes ele se apaixonara por uma mulher, uma jovem e linda carioca. Paixão tão fulminante, tão avassaladora, que ele decidira largar tudo, esposa, filhos, empresas e viver com a moça no Rio. Para tanto, haviam marcado um encontro no Copacabana Palace.
Encontro ao qual ele não compareceu. Chegou a viajar para o Rio e, no aeroporto, tomou um táxi para ir ao famoso hotel, mas no meio do caminho desistiu: não, não abandonaria tudo que havia conquistado por causa de uma aventura amorosa. Voltou a São Paulo sem ir ao Copacabana Palace -no qual, aliás, nunca entrara.
Agora, finalmente, adentraria o hotel. Não mais para uma aventura, mas para gozar seus 15 minutos de fama. Seus assessores haviam avisado a imprensa, que lá estaria para registrar o clímax da aventura, a chegada ao último dos mil lugares.
Já era noite quando o jatinho pousou no aeroporto. Ele tomou um táxi. Nervoso: já estava atrasado. E, para cúmulo do azar, havia um congestionamento em Copacabana. Decidiu completar o trajeto a pé, apesar das advertências do motorista.
Já estava a uns 200 metros do famoso prédio da avenida Atlântica, quando o assaltante lhe apontou o revólver. Ele fez um gesto - um gesto que queria dizer leve tudo, mas não me retenha, tenho um encontro com o Destino - mas foi mal interpretado: o homem achou que ele tentava reagir e disparou.
Caído no chão, agonizante, tinha apenas uma mágoa: havia um lugar, um único entre mil outros lugares, que ele não veria antes de morrer. O problema, concluiu antes de expirar, é que a gente não pode ter tudo o que se quer na vida.
Folha de S.Paulo (São Paulo) 01/05/2006

Falemos de feios famosos

Em época de Copa do Mundo, só se fala em futebol, visto inclusive pelos aspectos mais inusitados. Entrem, por exemplo, no site www.uglyfootballers.com e vocês encontrarão uma seleção dos jogadores mais feios do mundo. Ali estão, por exemplo, Carlos Valderrama, da Colômbia, e Diego Maradona, da Argentina. O Brasil está representado por dois craques: Sócrates (que nisto equivale a seu homônimo filósofo; ver mais adiante) e Ronaldo Nazário. Agora, a pergunta: mesmo que Maradona e Ronaldo sejam feios (e muitas mulheres discordarão disso) será que o detalhe tem importância?
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Provavelmente não. "As muito feias que me perdoem/ mas a beleza é fundamental", proclamou Vinicius de Moraes, que, no entanto, não escreveu nenhum poema dedicado aos feios, ou aos muito feios. Homem, aparentemente, não precisa ser bonito, homem, continua este raciocínio que não deixa de ter um componente machista, compensa uma aparência desagradável com inteligência, com energia, com iniciativa. De qualquer modo, porém, a história registra alguns personagens que ficaram conhecidos pela feiúra. O primeiro deles é o filósofo Sócrates. "Conhece-te a ti mesmo", dizia ele, mas isto certamente não incluía olhar-se no espelho, o que, no caso desse homem, certamente não seria uma coisa muito agradável. Um outro filósofo, este contemporâneo, que também ficou conhecido pela feiúra, foi Jean-Paul Sartre. Isto não impediu que ele conquistasse Simone de Beauvoir e várias outras fãs do existencialismo.
Na ficção, e sobretudo na ficção francesa, aparecem alguns personagens que se celebrizaram pela aparência desagradável. O primeiro deles é, naturalmente, o corcunda de Notre Dame. Quando a história de Quasímodo foi transposta para a tela pela primeira vez, vivida pelo grande ator Charles Laughton, foi necessária uma verdadeira façanha de maquiagem para mostrar a estranha figura. Mais fácil foi encenar Cyrano de Bergerac, de Edmond Rostand, vivido por Gerard Depardieu. É que a feiúra de Cyrano estava no descomunal nariz, e nariz postiço, para o cinema, nunca foi problema.
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A peça de Rostand, escrita em 1897, baseava-se num personagem real, Savinien Cyrano de Bergerac, dramaturgo francês do século 17, que chegou até a ser imitado pelo famoso Molière. Os retratos da época mostram-no como um homem simpático, sorridente. O nariz é grande, mas não resta dúvida de que foi a imaginação de Rostand que o fez crescer até o nível do grotesco. E é exatamente este nariz que condiciona o destino do Cyrano personagem; para compensar a feiúra, ele se torna um poeta famoso pela agressividade dos versos, e, principalmente, um espadachim temível. Ele está convencido de que nenhum mulher o desejará. Isto não impede qus se apaixone por sua bela prima, Roxane, que, no entanto, se sente atraída pelo belo Christian de Neuvillette. Generosamente, Cyrano trata de aproximar os dois, inclusive escrevendo cartas de amor que Christian assina. Ao longo da peça, e do filme, Cyrano cresce como personagem e no fim estamos todos torcendo por ele. Feiúra ou não, pouco importa; ao menos neste caso, e também no caso de Ronaldo, a beleza não é fundamental. O importante é jogar com maestria. O importante é viver intensamente.
Zero Hora (Porto Alegre) 02/07/2006